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    High Fidelity: Série de Zoë Kravitz é uma apaixonante homenagem à música (Crítica)
    Por Kalel Adolfo — 14 de set. de 2020 às 00:01
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    Mesmo cancelada, primeira temporada da série chega ao Starzplay e consegue superar o filme de John Cusack, entregando uma experiência essencial para qualquer fã de cultura pop.

    NOTA: 4,5 / 5,0

    Se você acredita que a música é a melhor companhia que podemos ter em nossas vidas, High Fidelity é a sua série. E eu não estou exagerando. A produção estrelada por Zoë Kravitz é uma carta de amor aos viciados em cultura pop, que preferem passar horas montando uma playlist do que lidar com as dificuldades de um coração partido. 

    Mas antes de nos aprofundarmos na obra televisiva, precisamos falar sobre o filme que antecedeu a série do Hulu. Nos anos 2000, Stephen Frears decidiu fazer uma adaptação cinematográfica do livro Alta Fidelidade, e escalou John Cusack para interpretar Rob Gordon, o protagonista da história.

    No longa, Rob é o dono de uma loja de discos localizada em Chicago. O seu humor é constantemente pessimista, já que ele não consegue superar as suas decepções amorosas. Todo esse apego ao passado é o ponto de partida da narrativa.

    Por estar sempre remoendo as frustrações, o personagem começa a fazer rankings dos piores términos que já vivenciou, em uma tentativa de recriar os charts musicais gerados pela Billboard ou Rolling Stones. Para lidar com as suas dores, ele se inspira na arte. 

    E é aí que chegamos na série idealizada por Sarah Kucserka e Veronica West. Vinte anos após o lançamento do filme, a dupla decidiu oferecer uma releitura feminina da obra, inserindo temáticas pertinentes aos tempos que vivemos. E o resultado não poderia ser melhor. Juntas, as cineastas entregaram uma produção atemporal, representativa e emocionalmente poderosa.

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    Se no longa de Cusack tínhamos um homem branco e heterossexual como protagonista, agora temos Kravitz no papel principal, uma mulher negra e bissexual. E sim, a sexualidade e raça da personagem são capazes de enriquecer a narrativa. Ao invés de acompanharmos um ponto de vista tradicional, presenciamos a trajetória de alguém que captura a verdadeira diversidade da vida. Infelizmente, isso ainda não é comum, e muito menos um ato a ser prestigiado na indústria mainstream.

    Na adaptação, Rob é Robyn. Sua loja de discos fica no Brooklyn, não em Chicago. E o seu círculo social não faz parte do “padrão” da sociedade. Simon (David H. Holmes) — por exemplo — é o melhor amigo da protagonista. No passado, os dois quase namoraram antes dele se identificar como homossexual.

    Simon, Robyn e Cherise.

    Cherise (Da’Vine Joy Randolph) — outra grande amizade de Robyn — não corresponde às normas de beleza de Hollywood. E para compensar as próprias inseguranças, ela “veste” uma personalidade irritantemente extrovertida. Todos eles têm o seu destaque na história, e transformam cada segundo de exibição em um exercício de perspicácia. E este é o ponto de maior destaque em High Fidelity.

    A série sabe como construir os seus personagens. Não há estereótipos, ou pouca profundidade. O que o roteiro entrega são indivíduos reflexivos, imperfeitos e autênticos. O senso de humanidade ao redor da obra é tão grande, que até esquecemos que estamos assistindo a uma ficção.

    Não podemos deixar de enaltecer Zoë Kravitz, que é uma força tão grande quanto a natureza. A sua espontaneidade em frente às câmeras é monstruosa, e transmite toda a vulnerabilidade necessária para impulsionar a trama. Mesmo em seus piores momentos, Robyn ainda é encantadora.

    A ambientação de Alta Fidelidade também é um grande acerto. Por ser um dos principais centros culturais dos Estados Unidos, o Brooklyn carrega um charme indescritível, que está em sintonia com a proposta do seriado. E quem consegue capturar toda a magia destas ruas é Carmen Cabana (Narcos).

    Durante os dez episódios, a diretora de fotografia aposta em acomodações intimistas, como a loja de discos Championship Vinyl, e a casa elegantemente desajeitada de Robyn. Aliás, grande parte da história se passa nestes dois ambientes, que são tão importantes quanto os personagens da produção. São neles que a maior parte das reflexões, conflitos e epifanias acontecem.

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    Ao optar por um número reduzido de cenários, a equipe da série conseguiu potencializar a áurea “aconchegante” de toda a narrativa. Nos sentimos ainda mais próximos de tudo o que está acontecendo. E quando as cenas não são filmadas nestes locais, a sensação intimista ainda permanece intensa, já que os maiores eventos de High Fidelity ocorrem em bares ou baladas pequenas.

    Outro ponto importante é a trilha sonora. Por ser uma grande homenagem à música, seria um tiro no pé não entregar uma seleção milimetricamente impecável. Mas no campo das referências musicais, a obra definitivamente não decepciona. Durante os episódios, há menções para Os Mutantes, Fleetwood Mac, David Bowie, Frank Ocean e Sylvester, ícone queer dos anos setenta. Toda a experiência é uma grande aula artística, e nos inspira a buscar mais conhecimento.

    Contudo, um dos poucos defeitos de High Fidelity é não expandir o seu universo. A aposta em uma atmosfera demasiadamente intimista traz um encantamento para a série, mas a impede de explorar novos territórios com maior frequência. Uma prova disso, é o episódio em que Robyn vai para o Upper East Side comprar novos vinis para a sua loja.

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    Escapar — mesmo que por alguns minutos — do Brooklyn acaba trazendo nuances e eventos inesperadamente empolgantes para a série. Caso Robyn não tivesse saído do bairro, nós nunca teríamos a cena em que Clyde lhe dá o disco The Man Who Sold The World, que é um dos acontecimentos mais apaixonantes e sensíveis da primeira temporada.

    Com equilíbrio, seria possível trazer um maior dinamismo ao roteiro sem perder a essência do seriado, que é o burgo de Nova York. Em sitcoms como Friends ou How I Met Your Mother, isso não seria um fator limitante. Mas em produções mais “complexas”, a escolha soa um pouco incoerente. Porém, este é um mero detalhe.

    High Fidelity continua sendo uma experiência importante, e acima de tudo, necessária. Todos os episódios oferecem um olhar maduro sobre os conflitos inerentes à vida. A gama de reflexões abrange questões sociais — como o racismo e o machismo — e também alguns embates emocionais, como a solidão e a falta de autoconfiança. Portanto, é impossível não se enxergar nas ocasiões retratadas, ou apenas criar empatia pelos personagens. E de quebra, ainda podemos cantar muito enquanto sentimos várias emoções. 

    Infelizmente, o seriado mal estourou, e já foi cancelado. Parafraseando Zoë Kravitz: “Tudo bem. Pelo menos a Hulu tem uma tonelada de outros programas estrelados por mulheres negras que podemos assistir. Ah, espere”. Agora, é torcer para algum serviço de streaming resgatar as gravações deste tesouro perdido. Aqui no Brasil, a obra está disponível no Starzplay.

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