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    Clube da Luta, 20 anos: O que a obra de David Fincher tem a nos oferecer nos dias de hoje (Análise)
    Por Ygor Palopoli — 27 de out. de 2019 às 08:53
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    Uma cópia da cópia da cópia.

    Antes de falarmos sobre o início de Clube da Luta, vamos seguir o seu próprio padrão narrativo: começaremos por seu final. Narrador (Edward Norton) acaba de dar um tiro no próprio rosto com a intenção de exterminar o seu alter-ego Tyler Durden (Brad Pitt), reforçando um dos conselhos mais expressivos e importantes do filme: é apenas depois de perder tudo que somos livres para fazer qualquer coisa. 

    Primeiro, você precisa se entregar. Primeiro, você precisa saber, não temer, e sim saber que em algum momento você irá morrer.

    Mas como isso se relaciona conosco e com as duas décadas que se passaram entre a primeira vez que uma tela de cinema exibiu estas palavras e os dias de hoje? E, especialmente, como uma obra de posições tão efervescentes (mesmo que subjetivas) sofreu transformações tão simbólicas e contundentes dentro do imaginário popular?

    O Narrador começa sua jornada no filme como um empregado bem sucedido que se dedica a comprar coisas que não gosta para suprir um espaço vazio que não entende. Ele é representado pelo que possui. E quanto mais se tem o que considera ser de valor, menos possui um motivo para realmente estar vivo. Seu papel na sociedade é tão indiferente e atrelado aos seus bens materiais que o personagem sequer possui um nome. 

    Lhe soa familiar? Pois é. Assim como provavelmente parecerá relativamente comum lembrar-se do momento em que o Narrador começa a frequentar encontros de pessoas em processo de reabilitação por causa de sua insônia. Na ocasião, ele começa a fingir estar passando pela mesma causa, e só consegue dormir normalmente depois de ser abraçado por Bob, quando se sente finalmente capaz de botar para fora todo o seu ódio, tristeza e frustração acumulados. As consequências da internalização dos próprios anseios.

    Até que chega o ponto de revolução no desenvolvimento do personagem, que é a necessidade da criação de Tyler, o alter-ego — seja para explicitar seus desejos reprimidos ou conseguir a coragem suficiente de tentar um plano grandioso contra o que acredita ser o símbolo de nossa decadência. Mas esta consolidação de uma dupla personalidade não mesmo é o ponto mais importante de sua mensagem, tanto que várias "dicas" são jogadas na tela a todo momento. 

    Dentro de todo este cenário, ainda surge espaço para a participação de Marla Singer (Helena Bonham Carter) na vida do protagonista. Evidenciando a "terceira pessoa" dentro desde triângulo amoroso nada ortodoxo, a moça deveria ser o melhor palpite para que pudéssemos perceber o que está acontecendo através de suas queixas constantes de que o Narrador é amoroso e depois é grosso; é atensioso e depois é ignorante; é carinhoso e depois é bruto. 

    Mas Marla é muito carente emocionalmente para fazer qualquer coisa. Tyler oferece exatamente o tipo de casualidade que Singer procura, mas tudo passa a ficar estranho quando existe a possibilidade de que algo mais sólido e concreta possa acontecer entre os dois. É exatamente o que acontece quando estamos tão acostumados a receber o que existe de pior, que o outro lado acaba nos parecendo um absurdo. 

    As coisas que você possui acabam possuindo você.

    Mas esta matéria não pode ser apenas uma grande lista de comparativos à críticas que funcionavam perfeitamente para a sociedade de 1999 e, ainda mais, em 2019. Depois de seu lançamento dos cinemas, e sua trajetória completamente fora da curva durante a venda de DVDs, Clube da Luta sagrou-se como aquele tipo de filme que leva certo tempo para cair nas graças de determinados públicos. A grande questão é: que públicos são estes? 

    Pode parecer uma questão relativamente desimportante dentro de tantas mensagens que o filme nos passa através dos simbolismos e críticas incisivas ao modelo "american dream" de se viver, mas é preciso falar sobre como a figura de Tyler Durden impacta parte dos espectadores do sexo masculino. Inicialmente retratado como uma resposta ao caos, e consequentemente um sintoma da obsessão pelo firmamento social, o personagem acabou virando uma espécie de modelo a ser seguido por muitas pessoas. Talvez até mesmo você, que acompanha o texto neste exato momento, já tenha sentido certa admiração por Durden — e, até certo ponto, tudo bem.

    Há cerca de cinco anos, quando perguntado sobre sua perspectiva às interpretações atuais o filme, o próprio David Fincher foi categórico ao afirmar que Clube da Luta fala sobre "as coisas mais nociva que existem": as ideias e sua capacidade de mutação dentro de cada abordagem pessoal. A imagem grotesca, insensível e extremista de Tyler passou a ser percebida como o ideal a ser atingido, a resposta à barbárie, o ápice da transgressão ao que existe de pior no sistema. E isso é compreensível. Mas as coisas nunca são tão fáceis como deveriam.

    Esquecer que Durden era parte do problema (e não à toa precisou ser aniquilado pelo Narrador) torna-se inconveniente quando a subjetividade é colocada em pauta. Quando entendemos que não existe solução simples para um problema tão estrutural. É claro que a narrativa tem um papel importante dentro da glorificação do personagem de Brad Pitt, afinal, ele é tudo que o Narrador tenta, mas não consegue ser. E justamente por isso a sua representação da nossa eterna vontade de sermos algo que não somos — algo plástico, irreal, inalcançável — é tão forte. 

    No final das contas, quase sem querer, Clube da Luta se tornou um dos exemplos mais complexos, impressionantes e certeiros sobre como a metalinguagem pode atingir níveis inconcebíveis: uma obra que critica a sociedade do consumo, tornando-se um produto consumido de maneira massificada, recebendo interpretações que aproximam sua crítica muito mais ao problema do que à solução. 

    Como o próprio Tyler disse, ainda em 1999, somos parte de uma geração que não passou por nenhuma Grande Guerra. Nenhuma Grande Depressão. E ironicamente alguns dos mais velhos usam desse fato como mecanismo de defesa para sustentar o argumento de que as coisas eram mais fáceis antigamente. Afinal, lutávamos contra um inimigo sólido e palpável, enquanto agora travamos uma luta invisível contra uma solidão que não é proveniente de nada específico — mas de tudo ao mesmo tempo. Ainda complementando o discurso de Durden, nossa Grande Depressão muitas vezes é a vida.

    Nós fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos todos milionários, ou astros do cinema, ou estrelas do rock. Mas não vamos. Nós estamos lentamente aprendendo este fato.

    É muito fácil confundir a mensagem de compreensão e entendimento de Chuck Palahniuk e David Fincher sobre o que nos cerca, com uma mensagem de pessimismo, mas talvez o que deva ficar que fica para seus espectadores e leitores nos dias de hoje é justamente que saber demais é um fardo. Mas é necessário para que a transgressão possa ocorrer. Como fabricar sabonetes a partir da gordura retirada de cirurgias de lipoaspiração. 

    Existe uma razão para que a primeira regra do Clube da Luta esteja relacionada a sua omissão. E para que o Projeto Caos não possa ser interrompido, ou sequer discutido em lugares públicos. A destruição, a mudança e o renascimento não são evitáveis, e eles vão continuar suas trajetórias silenciosas pouco a pouco, mas, até lá, tudo o que podemos fazer é entender nosso papel dentro de cada pequeno cenário caótico. Assim, quando os prédios implodirem, ainda saberemos quem somos.

    Só podemos ressuscitar após o desastre.

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    Comentários
    • David
      Excelente texto meus parabéns!Eu diria para nunca ser completo e pare de TENTAR ser perfeito. Nós temos que EVOLUIR. Deixe as coisas serem como são.Em Tyler confiamos.28/10/2019
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