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    Cine Ceará 2019: O drama Greta, estrelado por Marco Nanini, é ovacionado pela plateia
    Por Bruno Carmelo — 06/09/2019 às 10:05
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    "Me chama de Greta Garbo". O espectador de Greta escuta algumas vezes esta frase, proferida por Pedro (Marco Nanini), um enfermeiro de 70 anos, gay e apaixonado pela atriz de A Dama das Camélias e Ninotchka. Este é o pedido dirigido aos amantes e parceiros de uma noite, incluindo Jean (Démick Lopes), um criminoso que Pedro ajuda a fugir do hospital. Nasce entre os dois uma relação ambígua de amor e dependência.

    Greta foi o último filme apresentado na mostra competitiva do 29º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema, causando forte impressão na plateia. Nanini, o diretor Armando Praça e as atrizes Denise Weinberg e Gretta Sttar, além da equipe, receberam fortes aplausos no Cinema São Luiz. Nos bastidores do evento, o drama é apontado como provável vencedor do prêmio de melhor filme, disputando talvez a preferência com Canção Sem Nome. Já Nanini se torna o franco favorito ao troféu de melhor ator.

    Leia a nossa crítica.


    A noite de 5 de setembro também apresentou os quatro últimos curtas-metragens concorrendo ao troféu Mucuripe. O curta mais potente da noite, e talvez o melhor de toda a mostra competitiva, foi Ilhas de Calor, dirigido por Ulisses Arthur. O drama investe nas relações de gênero e de poder na oitava série de uma escola pública.

    O resultado impressiona pelo trabalho de câmera criativo e dinâmico do diretor, além de uma narrativa interessantíssima que não se desenha por relações de causa ou consequência - uma cena não necessariamente funciona como origem ou decorrência da outra. Através de núcleos distintos, Arthur cria uma trajetória fascinante, embalada pela coreografia de câmera e corpos que mistura luta, jogo e dança. 

    Rua Augusta, 1029 apresenta o registro ao vivo de uma ocupação de edifícios abandonados em São Paulo, para servirem de abrigo a diversas famílias. A diretora Mirrah Iañez emprega longos planos-sequência, com a câmera tremendo em tom de urgência, para retratar a entrada no prédio, as ameaças dos policiais e a organização interna dos militantes. 

    A estética de guerrilha, na qual a clareza das imagens é sacrificada em nome da captação in loco de um momento único, pode não ser muito inovadora, mas resgata a fusão de arte e política, ou a discussão sobre uma estética adequada às necessidades da função social da arte. Neste sentido, dialoga com outro curta-metragem na mostra competitiva, Primeiro Ato.

    O Grande Amor de um Lobo, dirigido por Kennel Rógis e Adrianderson Barbosa, levou a plateia às gargalhadas com a história metalinguística de um garoto da periferia (Adrianderson) que sonha em construir seu próprio filme, sobre um garoto cujos poderes permitem combater vilões e conquistar a garota dos seus sonhos. O projeto une o aspecto documental das entrevistas à concretização do roteiro de Adrianderson.

    Sem medo de explorar o aspecto amador, Rógis brinca com os códigos hollywoodianos da ação e o terror. O tom de brincadeira cativou a plateia, que irrompia em aplausos durante a sessão. No entanto, o olhar do cineasta para seu personagem e coautor desperta alguns questionamentos: até que ponto se está rindo com ele ou rindo dele ao revelar seus sonhos de tomar o papel de Vin Diesel em  ou atuar em Crepúsculo? O olhar de fora, certamente pleno de interesse, também pode ser considerado paternalista em relação ao personagem principal.

    O representante cearense da noite, Pop Ritual, mergulha o espectador numa representação trash-queer do cinema de terror. A tradicional premissa do padre tentando exorcizar um demônio é subvertida com a figura de um padre sádico, demonstrando evidente desejo sexual pelo prisioneiro andrógino.

    O filme do diretor Mozart Freire pode ser questionado pelo roteiro pouco inconsistente (vide a conclusão) ou mesmo pela representação do indivíduo LGBTQ como figura monstruosa, mas o que realmente chama a atenção é a direção de fotografia. Com poucos focos de uma luz dura lançada no espaço-cenário, o projeto adquire uma impressão caseira, no mau sentido do termo - até porque o trabalho dos atores e dos efeitos visuais é muito mais sofisticado do que a textura da imagem permite pensar. Esta escolha curiosa de iluminação e enquadramentos prejudica um gênero tão dependente da construção de clima quanto o terror.


    A cerimônia de encerramento ocorre na noite de 6 de setembro, quando serão anunciados os vencedores da 29ª edição. Além disso, o longa-metragem cearense Pacarrete, vencedor de 8 Kikitos no Festival de Gramado (incluindo melhor filme) será exibido no Cine São Luiz, além de uma homenagem ao ator Matheus Nachtergaele.

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