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O choque como marca: o caso de Deadpool 2 e dos recentes filmes para maiores de 18 anos (Análise)
Por Renato Furtado — 27/05/2018 às 09:27
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Surpreender das formas mais bizarras possíveis tornou-se uma necessidade para Hollywood.

ATENÇÃO: Este artigo contém SPOILERS de Deadpool 2!

Como um sopro de ar fresco expelido com a delicadeza de uma colisão ferroviária: foi assim que o repaginado Deadpool de Ryan Reynolds fez sua (re)estreia nas telonas, há dois longínquos anos. Do limbo ao estrelato imediato, o Mercenário Tagarela - através de sua irreverência, transgressão inata e do carisma inequívoco de seu intérprete, renascido como estrela de Hollywood -, tornou-se a representação quase viva dos sonhos de todo e qualquer executivo da indústria cinematográfica: ter controle sobre uma propriedade intelectual cujo potencial lucrativo é tão insano quanto suas características intrínsecas.

No entanto, e como sempre, o tempo passou e as coisas mudaram. 2018 não é, em nenhuma medida, um ano como foi o de 2016. Há 24 meses, a presidente Dilma Rousseff acabara de ser afastada de seu cargo; Donald Trump ainda não havia sido eleito como mandatário-geral dos Estados Unidos; a euforia trazida pela iminência das Olimpíadas mascarava a tragédia estrutural que se aprofundaria em nosso país; os crimes de Harvey Weinstein seguiam velados enquanto o ex-magnata e os outros predadores sexuais continuavam fazendo suas vítimas; e a União Europeia ainda lutava pela permanência do Reino Unido.

Um biênio, portanto, é mais do que o suficiente para fazer o mundo virar de cabeça para baixo. Assim, é evidente que inúmeros aspectos tangentes aos blockbusters de Hollywood também sofreriam alterações - o que nos traz de volta ao Mercenário Tagarela e, agora, à sua mais nova aventura: Deadpool 2. Dirigida por David Leitch (Atômica), a sequência cumpre tudo que uma continuação que se preze deve concretizar: maior, mais ambicioso e ainda mais lunático do que seu predecessor, Deadpool 2 não só aprofunda o universo introduzido em Deadpool como também incorpora detalhes, personagens e elementos inéditos.

Ainda assim, existe algo, um descompasso, que nem mesmo o orçamento 89% mais largo em relação à verba de produção do filme original e as performances de Reynolds - melhor e mais confortável do que nunca no papel -; Josh Brolin como Cable; e Zazie Beetz (Atlanta) como a sortuda mutante Dominó não podem mascarar - e o problema fundamental de Deadpool 2 diz respeito justamente à essência do Mercenário Tagarela: ao não se arriscar criativamente, corresponder às expectativas e se aliar ao mainstream, reproduzindo paradoxalmente a tendência que inaugurou, Deadpool 2 soa desonesto.

Constatar isso, todavia, não é o mesmo que escantear o longa comandado por Leitch e escrito pelo próprio Reynolds em parceria com a dupla formada por Rhett Reese e Paul Wernick. De fato, é preciso ressaltar, antes de prosseguir para qualquer direção, que Deadpool 2 é um filme bem-sucedido porque não só realiza todas as etapas que se propõe a concluir, como também guarda determinadas surpresas recompensadoras para os fãs - ou, como afirma a crítica 3,5 estrelas do AdoroCinema, "o maior mérito desta continuação é a consciência do que fez o original ser um sucesso".

Por outro lado, é exatamente aqui que reside a questão desta análise. Quando retornou às telonas, sete anos após ser sumariamente massacrado através de uma execrável adaptação no sofrível X-Men Origens: Wolverine, o Mercenário Tagarela só encontrou ventos favoráveis diante de si. Em fevereiro de 2016, época em que a produção de filmes de super-heróis provocou uma primeira onda de saturação mercadológica do gênero, Deadpool não só foi posicionado como uma espécie de antídoto às narrativas "amigáveis" da Disney e do Universo Cinematográfico Marvel, como também não sofreu nenhuma oposição considerável.

Na verdade, o filme dirigido por Tim Miller fez mais do que movimentar o estacionado gênero dos super-heróis: através de sua massiva bilheteria - US$ 783 milhões acumulados no fim de sua jornada cinematográfica -, Deadpool ressignificou o mês de fevereiro para Hollywood, anteriormente considerado como fraco por estar situado entre o momento pós-Oscar e a pré-temporada de verão. Após a alteração provocada pela (nova) origem cinematográfica do Mercenário Tagarela, inúmeros hits foram lançados em fevereiro de 2017 e 2018, incluindo uma "pequena" obra chamada Pantera Negra (US$ 1,3 bilhão no total).

Capitalizando sobre sua ousadia narrativa - repleta de violência gratuita, paródias, metalinguagens, sangue voando para todos os lados, decapitações, doses generosas de humor negro, piadas duvidosas e uma tonelada de citações da cultura pop - e preenchendo o vácuo de "atrevimento" deixado pelas cada vez menos populares comédias para maiores, cujo auge pode ser encontrado no fim dos anos 2000 com Se Beber, Não Case!, Deadpool destacou-se como um dos mais raros blockbusters de sua época, gerando uma imensamente lucrativa fórmula de sucesso a partir do choque.

Esta equação de êxito nos concede dois termos essenciais para o decorrer desta análise: “choque” e “fórmula”. Apropriando-se da sentença posta pelo historiador e cineasta Mark Cousins (The Eyes of Orson Welles) em sua monumental obra-prima, “História do Cinema” (ed. Martins Fontes), Deadpool criou um esquema e seus sucessores apresentaram a variação ao modelo estabelecido. Após a queda do "humor sacana" patrocinado por produtores e diretores como Judd ApatowTodd Phillips na última década, Deadpool reestabeleceu a conexão do público com os filmes proibidos para menores de 18 anos.

A partir de Deadpool, os longas R Rated - constantemente marginalizados na história do cinema estadunidense e/ou confinados ao gênero do terror, onde as produções para maiores são um sucesso de bilheteria desde O Exorcista -, assumiram uma inédita posição de destaque dentro da indústria. Atravancados pela pecha de "filmes malditos" no passado, estes tornaram-se produtos desejados. Assim, a violência dramática dos aclamados Logan e It - A Coisa e o humor "gratuito" e rasgado de DeadpoolFesta da Salsicha mutaram-se, tornando-se veículos comerciais perfeitos.

O problema é que o Mercenário Tagarela é um paradoxo. Apesar de existir por causa de bons rendimentos financeiros e, até certo ponto, operar em função do lucro - como a criação industrial que é, seja quando habita o mundo dos quadrinhos ou quando se situa no território da sétima arte -, o personagem é tão singular porque consegue equilibrar sua necessidade de agradar com seu desejo intrínseco de antagonizar a tudo e a todos, incluindo a si mesmo. E assim, "a consciência do que fez o original ser um sucesso" provoca uma necessidade ininterrupta de chocar que sabota Deadpool 2 e o faz parecer inorgânico.

Seletivamente, só podemos ver a superfície do que o filme de David Leitch pode nos oferecer. A paródia que Deadpool fez, naturalmente, das características mais exemplares de seu gênero em seu primeiro filme solo se perde nesta sequência. Deadpool 2 inicia sua trama com uma saturação completa de sua própria trajetória - e o que geralmente vem após da fartura exacerbada é o vazio, o esgotamento. É na estratégia do choque pelo choque, uma demanda que cabe tão bem nas querências afetivas dos espectadores modernos, que Deadpool 2 desmorona.

(continua)

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