Notas dos Filmes
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    Créditos iniciais memoráveis da história do cinema
    Por João Vitor Figueira — 28 de mai. de 2017 às 09:23
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    De 007 a Watchmen - O Filme.

    Entre os muitos momentos memoráveis da clássica comédia romântica Noivo Neurótico, Noiva Nervosa está a cena em que o compulsivo personagem de Woody Allen desiste de entrar na sala de cinema para ver um filme após Annie Hall, interpretada por Diane Keaton, se atrasar alguns poucos (pouquíssimos) minutos.

    Para o neurótico Alvy Singer, interpretado por Allen, a questão é simples: A experiência cinematográfica tem muito menos graça quando ele não assiste os créditos iniciais de um filme. Faz sentido.

    Quando bem feita, a sequência com os créditos iniciais de um longa-metragem não se limita apenas ao caráter informativo de mencionar os nomes do realizadores daquele projeto. Os trechos iniciais da projeção podem ser uma obra de arte e design muito proveitosa para a apreciação do público, ajudando a contextualizar os temas, o estilo e o espírito do filme que se inicia.

    Abaixo, relembre alguns dos créditos iniciais memoráveis da história do cinema.

    Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (2011)
    Diretor: David Fincher

    David Fincher costuma abrir seus filmes com créditos iniciais memoráveis, vide os de Seven - Os Sete Crimes Capitais (1995) e Clube da Luta (1999), mas em Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres o cineasta apresentou os créditos iniciais mais interessantes de sua filmografia. O frenesi da voz de Karen O na versão metal industrial de "Immigrant Song", do Led Zeppelin, acompanha uma sequência imagética soturna que evoca chamas, sexo, tentáculos uma fênix renascida e muita violência em tons de preto-petróleo. O cineasta tinha a intenção de usar esse trecho de abertura para simbolizar um pesadelo da personagem Lisbeth Salander. Conseguiu.

     

    Três Homens Em Conflito (1966)
    Diretor: Sergio Leone

    Quentin Tarantino tem muito a agradecer a sequência de abertura de Três Homens Em Conflito, que serve como epítome das sequências de abertura de filmes de todo o gênero spaghetti western. A introdução do longa é notória graças ao trabalho primoroso do compositor Ennio Morricone, autor do quase místico tema do filme. Os assobios, o som dos tiros, a predominância de uma expressiva cor vermelha que sequestra a atenção do público e evoca a violência dos pistoleiros — tudo é icônico aqui.

     

    Watchmen - O Filme (2009)
    Diretor: Zack Snyder

    Quando aceitou dirigir a versão para os cinemas da clássica e controversa graphic novel Watchmen, de Alan Moore & Dave Gibbons, Zack Snyder sabia que tinha uma missão praticamente impossível para cumprir por conta do vasto e denso conteúdo da obra original. Ciente disso, o cineasta encontrou uma forma de apresentar a origem dos heróis ao longo de décadas, relacionando as trajetórias deles com eventos como a Segunda Guerra Mundial e o assassinato do presidente John F. Kennedy. 

    É certo que não é nada sutil escolher "The Times They Are A-Changin'", de Bob Dylan, para embalar a sequência, afinal fica evidente ali que os tempos estão mudando, mas a voz lânguida do bardo americano dá às imagens em câmera lenta muito bem filmadas, com alusões a quadros e fotografias clássicas, um ar gloriosamente melancólico.

     

    O Senhor das Armas (2005)
    Diretor: Andrew Niccol

    Mesmo se fosse deslocada do contexto do filme na qual está inserida, a cena dos créditos iniciais de O Senhor das Armas certamente teria, sozinha, se destacado no circuito curtas-metragens, pois ela consegue ser mais poderosa e eloquente em seus menos de 4 minutos do que quase tudo que se segue a ela.

    No trecho que abre o longa estrelado por Nicolas Cage, o público acompanha todas as etapas da fabricação de uma bala até que o projétil é usado em seu objetivo-fim: Acabar com a vida de uma criança-soldado num país do continente africano. A justaposição da canção feelgood "For What It’s Worth", da banda Buffalo Springfield confere um caráter satírico, uma das marcas do filme, à sequência.

     

    Faça a Coisa Certa (1989)
    Diretor: Spike Lee

    Ao examinar as tensões raciais no Bronx, usando isso como uma forma de discutir a questão negra na sociedade americana moderna, Spike Lee fez um dos principais filmes sobre o tema e já na cena de abertura mostrou a que veio.

    O cineasta usou a canção "Fight The Power", do grupo de hip hop Public Enemy, um dos pioneiros das letras politizadas no gênero, para preparar o terreno para os temas abordados no filme. Repleta de exortações à luta e louvores à cultura negra norte-americana, a enérgica e contestadora faixa serve de combustível para os movimentos determinados da atriz e dançarina Rosie Perez, com seus passos de dança que exalam a postura combativa que permeia todo o filme de Lee. 

     

    Prenda-Me Se For Capaz (2002)
    Diretor: Steven Spielberg

    Baseada no clássico e elegante estilo criado pelo designer Saul Bass — responsável por sequências de abertura antológicas como as de Amor, Sublime Amor (1961), Anatomia de um Crime (1959) e Cassino (1995) — os minutos iniciais de Prenda-Me Se For Capaz trazem um charme vintage potencializado pelo ótimo tema jazzístico composto pelo mestre John Williams.

     

    Touro Indomável (1980)
    Diretor: Martin Scorsese

    Touro Indomável, uma das diversas parcerias entre Scorsese e Robert De Niro, se propõe a ser uma cinebiografia crua e desglamourizada sobre o boxeador Jake LaMotta, incluindo muitos de seus fracassos e momentos decadentes.

    Entretanto, a cena de abertura é de um onirismo tão belo que ela se encaixa no filme como a calmaria que precede a tempestade. Scorsese posiciona sua estática câmera milimetricamente perto das cordas para enquadrar um solitário De Niro dentro do ringue treinando golpes. Em câmera lenta, ele projeta socos no ar como um fantasma em meio a uma atmosfera enevoada. A trilha sonora de Pietro Mascagni e os contrastes da fotografia em preto e branco dão ao trecho um ar poético inesquecível.

    Sem maiores efeitos especiais, estes créditos iniciais provam que as vezes menos é mais.

     

    A Pantera Cor de Rosa (1963)
    Diretor: Blake Edward

    Se na comédia policial estrelada por Peter Sellers a tal pantera cor-de-rosa é apenas um diamante, nos créditos iniciais do filme o bichano ganha vida e foge do Inspetor Clouseau, baba por Claudia Cardinale, interage com a tipografia, rege a trilha sonora, pinta, borda, faz o diabo a quatro. O carisma da personagem foi tão grande que ela ganhou sua própria série de desenhos animados. Isso tudo sem falar no inconfundível tema musica de Henry Mancini, executado de forma inesquecívelmente insinuante pelo sax tenor de Plas Johnson.

     

    Um Corpo Que Cai (1958)
    Diretor: Alfred Hitchcock

    Outra sequência de abertura que tem na simplicidade sua maior qualidade. Obsessão, medo, desejo, loucura — tudo está lá numa perfeita amálgama do mistério presente nos planos-detalhe da atriz Kim Novak, nas espirais do designer Saul Bass e na lacerante trilha de Bernard Herrmann.

     

    Todos os filmes da franquia James Bond

    Um dos muitos elementos que fizeram dos filmes dedicados ao agente secreto James Bond uma propriedade tão duradoura e marcante na cultura popular foram as aberturas, que unem sensualidade, elegância e um senso de perigo que caracterizam a franquia.

    Filmes como 007 Contra o Satânico Dr. No e 007 - Operação Skyfall apresentam algumas das mais icônicas sequências de créditos iniciais não apenas da franquia, mas do cinema em geral. Abaixo, assista a sequência inicial de 007 - Cassino Royale, que traz como canção-tema o rock de "You Know My Name", do cantor Chris Cornell, morto no último dia 18 de maio.

    Essa lista poderia ser muito mais extensa, é claro. Vale mencionar filmes como A Primeira Noite de Um Homem (1967), 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), Cães de Aluguel (1992), Guerra nas Estrelas (1977), Os Excêntricos Tenenbaums (2001), Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010), entre outros.
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