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    Esta animação é uma obra-prima que quase ficamos sem ver: Como uma amizade salvou o filme do fracasso
    Lucas Leone
    Lucas Leone
    -Redator | Crítico
    Lucas só continua nesta dimensão porque Hogwarts ainda não aceita alunos brasileiros. Ele até tentou ir para Westeros ou o Condado, mas perdeu a hora do Expresso do Oriente. Hoje, pode ser visto escrevendo no Central Perk mais próximo.

    Foi graças a um executivo da Pixar que um dos melhores desenhos do Studio Ghibli chegou ao mercado ocidental.

    Muitos conhecem o Studio Ghibli e seus míticos filmes dirigidos por Hayao Miyazaki, como Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke e O Castelo Animado. Há outros que não sabem da existência do estúdio de animação japonês, mas certamente já ouviram falar de A Viagem de Chihiro, um filme que quase fracassou por causa da Disney. Sim, você leu certo!

    Lançado em 2001, gira em torno de uma garota que se vê atraída para o mundo espiritual enquanto tenta salvar seus pais de serem transformados em porcos. Por quase 20 anos, o longa deteve o título de maior bilheteria da história japonesa – e ganhou o Oscar em 2023. Até hoje, é a única produção estrangeira a vencer na categoria.

    Porém, levar A Viagem de Chihiro para terras internacionais não foi fácil. Em meados dos anos 90, a Disney fez um acordo com o Studio Ghibli para distribuir suas obras em todo o mundo e em VHS. Um acordo semelhante ao que a Casa do Mickey tinha com a Pixar – e que incluía aspectos como a dublagem em inglês para garantir que fossem mais acessíveis, especialmente para crianças.

    A princípio, o combinado funcionou para ambas as empresas, com filmes como O Castelo no Céu e O Serviço de Entregas da Kiki sendo bem-recebidos no mercado ocidental, sobretudo pelas famílias – que tradicionalmente são o público-alvo da Disney. Acontece que Miyazaki teve uma ideia que não atendia em nada às expectativas da companhia americana.

    Em 1997, ele lançou Princesa Mononoke, uma história sobre a natureza que está por um fio. Foi um sucesso histórico de bilheteria no Japão, superado apenas por Titanic e posteriormente por A Viagem de Chihiro. No entanto, trazia um tom muito mais adulto e uma certa violência gráfica, algo que a Disney não esperava quando descobriu que tinha os direitos de um blockbuster japonês que supostamente era sobre uma princesa.

    Studio Ghibli
    Cena de Princesa Mononoke.

    O desenho foi adquirido pela Miramax, uma subsidiária da Disney, e um drama se seguiu, envolvendo o produtor Harvey Weinstein e ameaças de cortes na versão final. Princesa Mononoke acabou chegando ao circuito comercial de forma limitada e não se saiu tão bem financeiramente quanto a Disney imaginava. Nas primeiras oito semanas, arrecadou pouco mais de US$ 2 milhões, contra um orçamento de US$ 23,5 milhões. Com isso, surgiram dúvidas se valia a pena o investimento no Studio Ghibli.

    Quando Miyazaki anunciou A Viagem de Chihiro, o acordo continuava de pé – e 10% do orçamento do anime foi bancado pela Disney em troca de prioridade para lançá-lo na América do Norte. Mas não prioridade não quer dizer pressa.

    Seja devido ao desastre financeiro de Princesa Mononoke, seja por priorizar produções americanas, a Casa do Mickey demorou mais de um ano para se interessar por A Viagem de Chihiro. E não foi a impressionante bilheteria no Japão que fez o estúdio mudar de ideia.

    Na verdade, tudo começou no início de 2002, quando A Viagem de Chihiro ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim (empatado com Domingo Sangrento). Assim, tornou-se a única animação a conquistar o prêmio até hoje.

    Embora já estivesse no radar da Disney, foi necessária alguma persuasão para que o estúdio organizasse o lançamento. Essa persuasão veio das mãos do fundador da Pixar, John Lasseter, que por acaso era um velho amigo de Miyazaki. Apesar de os bastidores terem sido mantidos em sigilo, Miyazaki afirmou que Lasseter "arrasou" com a Disney.

    Studio Ghibli
    Cena de A Viagem de Chihiro.

    Responsável por sucessos como Toy Story, Toy Story 2 e Monstros S.A., Lasseter gozava de tanto prestígio na época que sua opinião foi levada a sério – e provavelmente ajudou A Viagem de Chihiro a ter menos cenas de guerra, armas, amputação de membros e decapitação do que Princesa Mononoke. Ainda assim, a Disney tinha suas reservas.

    O próprio Lasseter cuidou da dublagem em inglês, que contava com atores regulares da Disney. A versão "americanizada" estreou no Festival de Toronto de 2002 com grande aclamação, mas teve uma circulação bastante enxuta depois disso, em apenas 151 cinemas nos Estados Unidos.

    Especula-se que a estratégia da Disney era focar mais em seus próprios títulos, em parte devido à falta de direitos de merchandising para qualquer um dos filmes do Studio Ghibli. A única fonte de renda com a qual a Disney poderia contar seria a bilheteria e o eventual lançamento em VHS. A Viagem de Chihiro poderia, portanto, ter desaparecido se não fosse pelo apoio de Lasseter a Miyazaki.

    O crítico Roger Ebert deu 4/4 estrelas e o incluiu em sua coleção de grandes filmes. Steven Spielberg afirmou que é "uma das melhores animações já feitas. Poderia ser melhor do que qualquer filme da Disney que eu já vi." Eventualmente, A Viagem de Chihiro entrou na lista de Melhores de 2002 de quase todos os especialistas, antes de receber a indicação e a vitória no Oscar.

    A Viagem de Chihiro
    A Viagem de Chihiro
    Data de lançamento 18 de julho de 2003 | 2h 05min
    Criador(es): Hayao Miyazaki
    Com Rumi Hiiragi, Miyu Irino, Mari Natsuki
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    4,6
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