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O Retorno de Mary Poppins
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
O Retorno de Mary Poppins

Revivendo o passado e aprendendo com ele

por
A nostalgia é o combustível para revisitar diversas histórias, e com Mary Poppins não foi diferente. O clássico de 64, protagonizado por Julie Andrews na pele da babá mais mágica de todas, continua sendo um filme muito querido por integrar o drama familiar com a magia da infância aliado à técnica impecável de produção e animação – um grande marco na época de seu lançamento.

Agora, mais de cinquenta anos depois, a essência se mantém a mesma neste retorno de Mary Poppins. Não há nova roupagem, nova abordagem ou nova proposta aqui. Nem mesmo a tecnologia atual usa seus artifícios, pois o método de narrativa se mantém igual ao clássico e não precisa necessariamente inserir elementos visuais feitos por computador. Portanto, se por um lado a permanência da essência tradicional de Mary Poppins foi mantida, do outro há certa fraqueza na escolha, pois ela não representa algo inédito que tem o poder de reacender a chama da personagem. Quem dita o ritmo do novo filme de Rob Marshall é, justamente, o espírito nostálgico.



Como um todo, a livre e (não tão) espontânea escolha de manter tudo nos trinques com o visual de uma Londres na época da Grande Depressão - e mais ainda com os lindos detalhes da Rua das Cerejeiras - é certeira no que se estende a nos fazer voltar a sentir os alicerces da casa nº 17, assim como toda a aura emotiva em torno dela. Tudo parece se manter igual ao que era há décadas atrás com a família Banks, mas o que muda são as circunstâncias: Mary Poppins retorna para Jane e Michael com o pressuposto de cuidar de seus filhos, mas desde o início fica claro que os ensinamentos que pretende deixar são novamente para eles, que, mesmo crescidos, ainda precisam saber (ou lembrar) de certas coisas.

Os três filhos do recém-viúvo Michael são independentes e comportados, e acabam sendo os guias desta nova aventura. Através de achados como a pipa consertada por Mr. Banks e da trama que envolve o banco, são resgatados fragmentos do clássico que tornam tudo mais fluido e saudoso. Mas nada disso teria tanta força se não fosse pela música. Um dos elementos mais marcantes de filmes da década de 60 (como Amor, Sublime Amor e Minha Bela Dama) retorna para esta nova roupagem de maneira sincera e nada mandatória. Sim, O Retorno de Mary Poppins não seria o mesmo se não fosse pela inserção musical, mas as composições originais estão tão conectadas com a história que têm o mesmo resultado de antes: o de se completarem com a base da história sem dificuldades. O que nos leva à melhor parte do filme... chamada Emily Blunt.



A babá esperta e cheia de personalidade já havia sido interpretada com maestria por Julie Andrews, mas Blunt não só consegue manter toda a pompa da personagem sem modificar seu cerne como também entrega um frescor cativante. Seu olhar mistura preocupação e sagacidade em questão de segundos, e sua voz é tão delicada quanto potente. A escolha prova-se ainda mais impressionante pela presença da atriz em tela, em muitos momentos evocando o espírito de Andrews sem nunca deixar de mostrar que, mesmo usando a mesma roupa, ainda possui sua própria voz.

No entanto, é curioso notar que Blunt divide seu protagonismo com Lin-Manuel Miranda, o aprendiz de Bert (Dick Van Dyke) no clássico, não só cantando como também no desenvolvimento das situações vividas pelo grupo. Mary Poppins, talvez por já conhecer bem a família Banks, mais canta para a audiência do que fala para os personagens e os observa atentamente à medida em que vão voltando aos trilhos. Em suma, a mensagem do filme é a de que ela retorna para fazer com que os adultos (não só os irmãos Banks) reflitam sobre a importância de reviver a magia contida no passado, e do quanto ela pode fazer com que a vida seja mais leve. Se em 64 Mary tratou uma família disfuncional, em 2018 ela não faz muito para os unir, mas sim para os colocar na direção certa. É uma participação um pouco menos destacada, mas ainda assim importante.



Assim como no clássico, a inserção de animação em uma das passagens musicais é muito bem executada, tornando-se um dos momentos mais interessantes do filme por entregar um visual leve e uma mensagem séria ao som de "A Cover is not the Book". A participação de Meryl Streep em outro momento musical se realça muito mais pelo design de produção (com o cenário todo de ponta cabeça) do que pela canção ou até pela atriz em si; mas toda e qualquer pequena aparição torna-se nula perto de Dick Van Dyke, o único ator do filme de 64 que retornou para a produção de Rob Marshall. Por mais breve que seja, ela resgata a importância que Mary Poppins possui no cinema de fantasia como um todo. Felizmente, a mágica aparece muito além dos poderes da protagonista.

O Retorno de Mary Poppins sabe a que veio: a produção é uma homenagem ao universo da escritora Pamela Lyndon Travers e ao filme predecessor, mas não busca alcançar um nível até então desconhecido. Ele entrega a magia, a paixão e a inocência necessárias para que o público volte a se encantar, mas também se abriga no legado já pavimentado através das décadas. Como continuação, dá uma visão intimista de como os Banks estão, porém, ao mesmo tempo, entende que não é possível mexer muito no que já está do jeito que está. Assim como no sótão da família, há algumas coisas que confortam apenas por estarem ali. Talvez este seja exatamente o caso de Mary Poppins, que nunca foi embora de fato.
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