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    Quando Eu Era Vivo
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Quando Eu Era Vivo

    O passado bate à porta

    por Lucas Salgado

    Quando Eu Era Vivo é o primeiro trabalho solo do diretor Marco Dutra, conhecido pelos curtas O Lençol Branco, Um Ramo e As Sombras e pelo longa Trabalhar Cansa, todos realizados em parceria com Juliana Rojas, montadora do novo projeto.

    Quando Eu Era Vivo - FotoO novo filme mantém o clima de suspense e terror dos trabalhos anteriores, mas vai ainda mais longe, criando uma obra claustrofóbica e com momentos realmente assustadores. O humor também marca presença, mas é daquele que oferece um riso nervoso, resultante do absurdo das situações.

    Júnior (Marat Descartes) é um sujeito de meia idade que perde o emprego e é deixado pela esposa. Ele volta a viver com o pai (Antonio Fagundes), sendo obrigado a dormir na sala, uma vez que seu antigo quarto está ocupado pela inquilina Bruna (Sandy). Jr. não reconhece a casa em que cresceu, se sente incomodando com o fato de que o pai guardou tudo o que lembrava a mãe (Helena Albergaria).

    Na medida em que o sujeito vai resgatando móveis e objetos deixados pela matriarca, a rotina no apartamento vai mudando. E a saúde mental de todos parece ameaçada. Mostrada sempre através de flashbacks ou uma fotografia que remete à uma época distante, a mãe é uma figura que nem chega a ser enigmática, mas é sim aterrorizante. Os flashbacks surgem na forma de imagens de arquivo, com Júnior revendo vídeos de sua infância ao lado do irmão Pedro, cujo presente é misterioso.

    Quando Eu Era Vivo - FotoBaseada no livro "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa", de Lourenço Mutarelli, a produção conta com ótimas presenças de Descartes, Fagundes e Gilda Nomacce, numa personagem que representa bem o jogo de crença e descrença do brasileiro. Ainda que o personagem de Fagundes trate as atitudes da ex-esposa como besteiras, ele se mostra bem crente em supertições e mandingas.

    Parceira de longa data de Dutra, Albergaria faz participação pra lá de assustadora, enquanto que Sandy cumpre o que lhe é pedido, não se destacando muito, positivamente ou negativamente. Quem tinha medo de reencontrar a atriz de Acquaria pode ficar tranquilo.

    Um dos grandes nomes do novo cinema paulista, representado pelo coletivo Filmes do Caixote, que já rendeu boas obras como O Que Se Move, de Caetano Gotardo, Dutra se mostra um apaixonado pelo cinema de gênero e abraçou o terror como seu objeto de estudo. Neste sentido, se destaca no cenário nacional, que oferece pouco espaço para este tipo de obra.

    Quando Eu Era Vivo - FotoAlém de brincar com elementos do horror brasileiro e contos urbanos, como a utilização do boneco do Fofão, Marco Dutra apresenta referências diretas ao clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick. Logo no início, há uma tomada no rosto mal barbeado de Marat que remete diretamente ao de Jack Nicholson, isso sem falar na mudança de atitude do personagem ao longo da produção e na peruca utilizada. Além disso, temos crianças assustadoras (em dose dupla) e um passado pouco explorado.

    Quando Eu Era Vivo conta com momentos realmente aterrorizantes, conduzidos com precisão pelo diretor. A montagem de Rojas e a fantástica trilha instrumental contribuem para os momentos de tensão tanto quanto as atuações. O roteiro de Dutra e Gabriela Amaral Almeida também merece destaque ao criar personagens interessantes e situações nada previsíveis. O diretor ainda aproveita bem a presença de Sandy para utilizá-la em momentos em que aparece cantando. Ele não cria videoclipes, mas situações em que a música é de importância fundamental.

    Protagonista de Amor à Vida, Fagundes mostra todo o talento que muitas vezes é podado pela TV. Ele assume um personagem marcado pela vida, mas ao mesmo tempo doce. Ele está incomodado com a situação e com a estranheza do filho, mas ao mesmo tempo o ama e quer o melhor para ele. É uma bela obra sobre a relação entre pai e filho.

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