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Febre do Rato
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Febre do Rato

Anarquia e sexo

por Francisco Russo

Febre do rato é uma expressão típica do Nordeste, que significa estar fora de controle. Metáfora apenas aparente para Zizo, personagem principal de Febre do Rato, o filme. Poeta por vocação, ele dedica a vida à publicação de seu jornaleco, cujo nome é o mesmo do título. O objetivo é expor suas ideias, repletas de propostas anárquicas que valorizam o livre arbítrio das pessoas, sem se prender às amarras morais impostas pela vida civilizada. Quem não conhece o mundo de Zizo pode imaginar que ele esteja com a febre do rato, ou seja, fora de controle. Só que a verdade é justamente o oposto.

A imersão por este mundo livre, leve e solto ao qual Zizo pertence é a grande proposta apresentada pelo diretor Cláudio Assis em seu novo filme. Uma viagem feita não apenas de palavras, explorando os versos e brados proferidos pelo protagonista, mas especialmente através de costumes e imagens. Fiel à máxima de que o ser humano é sexo, já explorada tanto em Amarelo Manga quanto em Baixio das Bestas, Assis não poupa o espectador de cenas do tipo. Praticamente todos os atores têm cenas de nudez, várias delas frontais e algumas que chegam a incomodar. É este o grande objetivo do diretor: retirar do sexo qualquer tipo de nobreza, tornando-o mero instinto a ser saciado. Assim vive Zizo e boa parte dos seus amigos, com uma liberdade que vai do próprio corpo aos relacionamentos que mantém. Para os demais, anárquico. Para ele, absolutamente normal.

O mundo de Zizo começa a ruir quando conhece Eneida. Não por ser amor à primeira vista, termo romântico demais para o universo de Cláudio Assis, mas por ter um tesão imediato assim que a vê. Eneida, entretanto, o provoca. Apesar de interessada no poeta, o recusa. Cria um jogo onde vê-lo castrado é o que mais lhe excita. Ele, por sua vez, fica cada vez mais vidrado pelo desprezo afetivo dela. É neste ponto que Febre do Rato se diferencia dos demais filmes do diretor, por abordar a questão do gozo impedido e suas consequências, tanto pelo lado do instinto quanto de impacto sobre a mente.

Além do ambiente de certa forma hipnótico – para quem aceita a liberalidade do corpo, é importante frisar -, Febre do Rato tem como grande trunfo a belíssima fotografia em preto e branco de Walter Carvalho. Seja através de panorâmicas da cidade de Recife ou nas imagens aéreas, mostrando os movimentos dos personagens sob um ângulo pouco usual, ela tem um importante papel nesta história que conta com personagens que vivem fora da sociedade convencional. Destaque também para a enorme atuação de Irandhir Santos, mergulhado na pele de Zizo, e o corajoso trabalho de Nanda Costa, intérprete de Eneida, pela exposição provocada pela personagem.

Febre do Rato é um bom filme que traz em seu DNA a linguagem cinematográfica, no sentido da construção de um universo particular. Peca pela gratuidade de certas cenas, na intenção de chocar o espectador, sem ter uma função na trama além de compor a ambientação entre os personagens. Entretanto, quem conhece o cinema de Cláudio Assis não irá se surpreender. Goste-se ou não dele e de suas teorias, é inegável que de cinema ele conhece bem.

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Comentários

  • Fernando B.

    Em tempos de pornografia grátis na internet toda a proposta de se chocar pelo "bestialismo" do sexo simulado no longa Febre do Rato se perde ou se torna inútil. Tenho a impressão que Cláudio Assis se porta tal qual uma criança que desenha uma forma fálica tentando chocar um adulto. O relacionamento entre o casal principal de certo modo é o que segura boa parte da projeção, um querendo aquilo que lhe é negado, a outra oferecendo algo que não dará. Nesse jogo de gato e rato as duas horas parecem se prolongar por seis.
    No fim das contas a única emoção em mim despertada foi a falta dela:apatia

  • Thays L.

    todos o filmes do Claudio são apelativos demais para o meu gosto...

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