Cássio Amador, Leitor do Adoro Cinema - Nota 6:

"Riddickulo. Este filme, muito infelizmente, é ridículo. Hoje eu tive o desprazer de assistir "A Batalha de Riddick" (The Cronicles of Riddick), e me decepcionei com o filme. Muito. O diretor David Twohy e o produtor e ator Vin Diesel tinham em mãos uma idéia e argumentos geniais, efeitos especiais de primeira, bons atores, um protagonista muito interessante, ou seja, tinham a possibilidade de tornar este filme inesquecível e uma das obras-primas dos filmes de ficção científica. Mas preferiram criar um filme de ação, que deveria se chamar "A Navalha de Riddick".
Quando eu vi o trailer deste filme eu pensei que fosse uma bomba como outra qualquer recheada de efeitos especiais mascarando um péssimo roteiro. Só então, através de uma amiga minha, fiquei sabendo que este filme é uma continuação, de um filme chamado "Eclipse Mortal" (Pitch Black), que tinham em comum um mesmo personagem, um tal de Riddick. Curioso, resolvi alugar o filme este final de semana. E, incrivelmente, o filme me surpreendeu.
Feito numa época em que o ator Vin Diesel já tinha 'descido de nível' ao fazer "Velozes e Furiosos" (The Fast and Furious) (a primeira vez que eu vi o nome dele achei até engraçado um filme de rachas de carros com um ator de sobrenome Diesel. Mais tarde soube que eu já o tinha visto, como o Soldado Caparzo, de "Resgate do Soldado Ryan"), ele se aventurou no gênero Ficção Científica. EM (Eclipse Mortal) tem efeitos especiais muito bons e um enredo muito interessante. Só tem algumas cenas que "descem engasgadas" no começo e no final do filme, mas de resto é um filme de ação quase ininterrupta, com boas pitadas de ficção científica (ao contrário de ABdR(A Batalha de Riddick), que é uma ficção que de científica não tem nada) e boas doses de cenas de terror. É um filme não muito acima da média, quase estilo "Sessão da Tarde". Mas ainda sim é um bom filme.
A grande questão do filme é um personagem misterioso, quase inumano, e com um passado sombrio (adivinhe o nome dele?). O filme mostra algumas características deste ser, que vive quase sempre com um óculos que tampa seus olhos. Se eu visse o filme sem saber que existia uma continuação eu ficaria agoniado para saber mais sobre este personagem. Ele tem sentidos muito aguçados, enxerga no escuro, seus ossos se regeneram instantaneamente, um forte instinto de sobrevivência, que o faz escapar de qualquer situação perigosa, contando para isso com uma certa capacidade de previsão do que vai acontecer e velocidade, força e fôlego sobre-humanos. Tudo isso é mostrado neste filme que recomendo para quem quiser se divertir sem ter que pensar muito.
Algumas personagens morrem, outros vivem. Não comentarei a história do filme no caso de alguém querer assistir.
5 anos depois da história deste filme, começa a história de ABdR.
Antes de comentar o filme aqui vai uma observação: Inicialmente eu imaginei que EM seria no mesmo estilo de imagens de ABdR, mas eu estava enganado. O filme lida com seres humanos, como nós, em uma situação bem desagradável. Após ver este filme, fiz um paralelo com outras histórias, por exemplo, Dragon Ball (na verdade, inicialmente fiz um paralelo com uma história que estou escrevendo, nas quais eu acho que fiquei com o mesmo dilema do autor de ABdR. Mas como ninguém conhece minhas histórias ainda, usarei um exemplo mais conhecido). Eu supus que as duas histórias tinham o mesmo tipo de abordagem, onde um personagem com características sobre-humanas é colocado junto de seres humanos. Estas características são mostradas pouco a pouco, e de uma maneira que nós, telespectadores, possamos nos deslumbrar com elas.
Após esta fase inicial em que o personagem nos é apresentado (e aceito pelo público), o criador/produtor/diretor tem a liberdade de expandir o universo do personagem, colocando uma origem fantástica para ele e mostrando um mundo mais amplo, em que outras pessoas tem características incomuns parecidas, ou que aquela trama inicial era só a ponta do iceberg para uma história bem mais complexa. No referido desenho, descobre-se que o personagem principal é um ser de outro planeta que foi destruído e ele é um dos poucos sobreviventes. Muitos outros personagens podem manipular energia como ele e podem voar, enquanto que a trama se passa em vários planetas com seres cada vez mais fortes.
Então, como eu disse, eu imaginava que nosso personagem Riddick seria um ser único, do tipo "entidade universal" (leia-se "endless" do Sandman de Neil Gaiman), e que seria um ser predestinado a ser o salvador do universo (como o personagem Neo é o salvador da raça humana da trilogia "Matrix").
Até um certo ponto minhas suspeitas estavam corretas. Mas a realidade era muito pior! Agora vou enumerar 14 motivos para não se ver ABdR:

1- Logo no início já se percebe a grande "criatividade" de quem inventou os nomes: "Sistema Helion" para um sistema planetário com um planetas bem iluminados por sua estrela; "Aereon" para uma "elemental" que pode se tornar ar; "Crematoria" para um planeta que tem sua parte iluminada ardendo em chamas; "Necromongers" para seres que tentam converter outros seres, e se recusarem eles os matam. "Lorde Supremo" (Lord Marshall) para o chefe dos "Necromongers".
2- Um dos erros mais hediondos que se pode cometer em uma seqüência: tomar os fatos ocorridos no filme anterior como se fossem os únicos fatos da vida dos personagens. Personagens que conviveram juntos no máximo 2 ou 3 dias aparentam terem convivido por 2 ou 3 anos. Muitas frases de efeito e cenas dramáticas bobocas teriam sido evitadas se os fatos de EM fossem tomadas como algo corriqueiro, pelo menos para Riddick.
3- A passagem de tempo não é nem um pouco respeitada, viagens interplanetárias parecem coisas rápidas (aviso: NÃO existe "velocidade de dobra" neste filme), e o método de conversão dos Necromongers parece que é feito em um tempo curtíssimo, enquanto que seus métodos de conversão deveriam levar um longo tempo (como os Celobytes fazem, em Hellraiser).
4- O fato de eu ter dado ao filme o nome de "A Navalha de Riddick" é porque o que ele mais quer mostrar é ação, ou melhor, Riddick em ação. Em EM Riddick entrava em ação, mas só tinha uma ou outra luta corporal. Já em ABdR só se vê lutas coreografadas, com muitos efeitos de câmera e efeitos computadorizados mostrando os tiros das armas.
5- O assassinato de um bom argumento. Isto será discutido até o tópico 8. Este filme poderia se tornar um clássico da ficção científica. "Gladiador" (Gladiator) é um bom filme porque consegue juntar cenas de ação intensa com muitas lutas corporais e diálogos interessantes, com uma trama bem montada e elaborada "entre os que detém o poder". Se ABdR tivesse seguido esta fórmula com certeza seria bem melhor. Poderia haver uma elaboração melhor dos diálogos entre os Necromongers, especialmente entre o casal de comandantes "Vaako" (que me deixou intrigado o fato de haver mulheres com características femininas, mas isso discutirei no próximo tópico).
6- Continuando o massacre ao argumento, a "fé" dos Necromongers não aparentava ser tão forte assim (se bem que isso é explicado pela aparente velocidade do processo de conversão). Não se menciona direito no que eles têm fé, no início parecendo ter fé no Lorde Supremo, mas depois eles têm fé em algo não definido. Por mim a fé deles deveria ser quase a fé que os "Borgs"("Jornada nas Estrelas- Primeiro Contato" (Star Trek- First Contact)) têm na comunidade deles.
7- A hierarquia dos Necromongers e sua história é estranha e mal contada. No início aparentam ter esse nome porque lhes foi dado por outros seres, mas depois parece que eles mesmo se deram este nome. No início aparenta que o criador destes Necromongers foi o Lorde Supremo, mas depois fala que este Lorde é o sexto, e por aí vai.
8- O medo que o Lorde Supremo tem dos "Furyans" parece o medo que Freeza tem dos Sayajins no DragonBall Z.
9- De volta às falhas na ambientação, temos vários exemplos. A seqüência dentro da prisão de Crematoria é um exemplo a não ser seguido. Não se explica com a prisão foi feita ( o que me parece quase impossível). Os "cachorros" que aparecem não tem a razão de aparecerem justificada. não se explica quem é guarda, quem não é e muito menos como alimentam os prisioneiros. A conclusão da situação entre mercenários (mercs) e penitenciários por causa da recompensa do Riddick é quase sem sentido. E num sol de 300 graus Riddick passar por sua luz sem se queimar, só com água de uma garrafinha que ele jogou no corpo, é demais para qualquer 'cinespectador' que tenha o mínimo de decência. E quando Riddick encontra um semelhante e deixa que este suma sem perguntar nada sobre sua origem, seu planeta e sua raça, é, novamente, um insulto à nossa inteligência. Como estes erros existem muitos neste filme.
10- Não entendi a atuação dos Necromongers. Eles querem converter, e quem não aceitar morre. Até aí tudo bem. Mas aparentemente eles chegam num planeta, matam toda a resistência, matam Civis (?), convertem quem quer ser convertido (isso sem falar na 'convenção' que acontece em Helium Prime, com meia dúzia de gatos pingados representando a população toda de uma cidade gigantesca), estes são levados às naves dos Necromongers, e quem não quiser ser convertido fica no planeta, que é posteriormente destruído. Porque destruir se eles querem conquistar? De que adianta dominar o Universo se todos os planetas estão destruídos?
11- Certas coisas são fáceis demais, outras são muito difíceis. É fácil entrar em um planeta dominado pelos Necromongers, roubar uma roupa de soldado e entrar no castelo principal deles.
12- Não é explicado o motivo da elemental Aereon ser tão importante, e a perseguição à Riddick no começo é confusa e cheia de falhas.
13- Não aproveitamento das habilidades curativas de Riddick e aparentemente o fato de ele enxergar no escuro só serve para umas lutas no começo do filme, pois de resto parece que esta característica só serve para ele estar sempre com o visor escuro ou para usarem efeitos especiais nos olhos. O Personagem do Lorde Supremo foi muito mau aproveitado, só valendo suas habilidades para uma seqüência no final.
14- Mania Star Wars: Planetas de tamanhos diferentes com gravidade igual e todos com atmosfera respirável (mesmo o planeta que deveria ter gases altamente tóxicos). Em EM o planeta que passa a história tem uma atmosfera com pouco oxigênio, que faz com que os personagens estejam sempre cansados.
15- Com certeza deve haver mais coisas, mas neste momento eu não lembro mais do filme inteiro, pois neste ponto do texto já estou escrevendo um dia depois que eu assisti o filme.

Mas então onde foram parar os 120 milhões (!) gastos no filme? Estes são os motivos para se assistir ABdR:
1- Os atores ficaram muito bem em seus papéis. Vin Diesel como Riddick é uma graça, pois tem o corpo de um troglodita, uma voz cavernosa, mas seu rosto é capaz de se mostrar dócil e compreensivo. Judi Dench quis se aventurar a fazer ficção científica e se saiu bem. A amiga de Riddick também interpreta bem seu papel. Os únicos que não parecem naturais são os Necromongers.
2- A parte visual está inacreditável! Os figurinos dos personagens, desde Riddick até os soldados Necromongers são maravilhosos! A decoração do palacete Necromonger é de cair o queixo. Os planetas, desde o solo ardente de Crematoria até Helium Prime são ótimos.
3- Continuando a falar sobre a parte visual, reservei este item para dizer sobre os Necromongers. Além do já mencionado interior do palacete, suas naves e o modo como elas se locomovem são muito interessantes e condizentes com sua espécie.
4- Novamente sobre os Necromongers, sua idéia inicial de converter outros povos, seu líder "meio-morto meio-vivo", e as estátuas sendo usadas como método de transporte foram idéias muito interessantes.
5- O uso de nomes simples para nós, humanos terrestres, como Aereon, Helium, Crematoria, Necromongers, elemental, ao invés de nomes inventados da cabeça do autor, como por exemplo poderiam ter este texto explicativo: "seus nomes são Ranrondrim (da língua morta ximist ranron = ar, drim = andar), Mestifat, Cricrancun..." e por aí vai.
6- Os "Lensor", seres Necromongers que enxergam coisas vivas, ou seja, têm visão infravermelha, e aspecto submisso.
7- A idéia de existir um Subverso.
8- E só. E aí se vê onde foram parar os 120 milhões gastos.

Que pena terem acabado com uma grande história!"