Depois de atrasos, paralisações nas gravações e muita incerteza sobre seu futuro, It: Bem-Vindos à Derry finalmente chega ao público carregando um peso considerável. Não apenas por expandir uma das franquias de terror mais populares dos últimos anos, mas também por correr o risco de se tornar algo desnecessário dentro de um universo que já parecia bem fechado pelos dois filmes recentes. O que surpreende, no entanto, é que a série não só evita esse destino como se firma como uma peça essencial da mitologia de It, oferecendo um novo fôlego à franquia e abrindo caminhos claros para futuras temporadas e até novos filmes.
Sob o comando criativo de Andy Muschietti, ao lado de Jason Fuchs e Barbara Muschietti, a série demonstra um domínio impressionante da obra de Stephen King. Aqui, o terror não está apenas no palhaço ou nos sustos, mas na própria cidade de Derry, tratada quase como um organismo vivo, cúmplice silencioso de tudo o que acontece. A série entende que It sempre foi mais do que Pennywise: é sobre medo coletivo, omissão, ciclos de violência e uma comunidade inteira que aprende a conviver com o horror.
Os problemas nos bastidores, no entanto, são evidentes e a própria série parece consciente disso. A greve dos atores de 2023 interrompeu as gravações, que só foram retomadas em 2024, criando uma quebra perceptível entre os episódios iniciais e os finais. O crescimento do elenco infantil é notável, assim como pequenas diferenças de tom e ritmo. Além disso, havia a grande dúvida: Bill Skarsgård retornaria ou não como Pennywise? O ator havia manifestado o desejo de se afastar de papéis que exigissem maquiagem pesada, o que gerou insegurança sobre a presença do maior símbolo da franquia.
Essa incerteza impacta diretamente a estrutura da série. Nos episódios iniciais, Pennywise está ausente de forma física. Em vez disso, a entidade se manifesta por meio de outras formas, explorando a ideia de que “A Coisa” pode assumir qualquer aparência. Narrativamente, essa escolha funciona dentro da lógica do universo, mas gera uma frustração inicial compreensível: o público sente falta do rosto mais icônico da saga. Ainda assim, a série aproveita essa ausência para investir pesado na construção de clima, sugerindo constantemente que algo está à espreita, observando e se alimentando do medo.
É apenas nos episódios finais, já com Skarsgård oficialmente de volta, que Pennywise retorna de forma plena. E é nesse ponto que a série cresce de maneira impressionante. A presença do ator não apenas conecta Bem-Vindos à Derry aos filmes, como também permite uma expansão profunda do passado do personagem. A série mergulha na história do “Pennywise humano”, antes de ser tomado pela entidade, e explora diferentes períodos, como 1908, 1935 e 1962, revelando como A Coisa se adaptou ao longo do tempo até assumir definitivamente a forma do palhaço.
Essa exploração do passado é um dos maiores trunfos da série. Tudo aquilo que os filmes apenas sugeriram ou deixaram em aberto aqui ganha contexto. A série explica por que Derry é como é, por que seus moradores parecem ignorar ou esquecer eventos traumáticos e como o ciclo de violência se perpetua geração após geração. As motivações da entidade, sua relação com o tempo e até sua forma de se alimentar do medo são apresentadas com cuidado, sem tirar o mistério, mas enriquecendo o universo de maneira consistente.
Outro grande acerto está na introdução e desenvolvimento de Dick Hallorann, personagem conhecido de O Iluminado e Doutor Sono. A série não apenas o insere de forma orgânica na narrativa, como cria uma conexão direta entre diferentes obras de Stephen King. Hallorann surge como uma figura fundamental, alguém que entende, ainda que parcialmente, a natureza do mal que habita Derry. Chris Chalk entrega uma atuação sólida, que evolui da confiança inicial ao desespero absoluto conforme o terror se intensifica. Ao lado de Pennywise, ele se torna um dos personagens mais marcantes da série.
O elenco infantil também merece destaque. A química entre as crianças é genuína, e suas atuações sustentam boa parte da carga emocional da história. Matilda Lawler, Clara Stack e Arian S. Cartaya conseguem equilibrar inocência, curiosidade e medo de forma convincente, fazendo com que o espectador se importe com aquele grupo e tema por seu destino. A série entende que, assim como nos filmes, o terror funciona melhor quando existe empatia real pelos personagens.
Ainda assim, Bem-Vindos à Derry não é isenta de problemas. A fragmentação causada pelas mudanças de roteiro e pela chegada tardia de Skarsgård é perceptível. Alguns episódios iniciais sofrem com efeitos visuais abaixo do esperado e com um ritmo menos envolvente. Além disso, quem espera uma sucessão constante de sustos pode se decepcionar. A série opta claramente por um terror mais atmosférico, menos focado em sustos rápidos e mais interessado em construir uma sensação contínua de ameaça.
Essa escolha, embora coerente com a proposta, cria um contraste com os filmes, onde o equilíbrio entre ambientação e sustos era mais evidente. Aqui, o medo vem mais da ideia do que da execução imediata. Ainda assim, a série não suaviza sua abordagem: o tema central continua sendo um palhaço que ataca crianças, e Bem-Vindos à Derry não foge disso. Há cenas perturbadoras, momentos gráficos e uma abordagem mais pesada, que reforça o desconforto e o horror psicológico.
No balanço final, a série consegue transformar desconfiança em surpresa. O que parecia um projeto arriscado e potencialmente dispensável se revela uma expansão rica, bem amarrada e cheia de significado para a franquia. Andy Muschietti, após um tropeço recente em The Flash, reafirma aqui seu entendimento profundo do universo de Stephen King. Bem-Vindos à Derry mostra que It nunca foi apenas sobre um palhaço assustador, mas sobre uma cidade amaldiçoada, ciclos de medo e histórias que atravessam séculos.
Mesmo com problemas pontuais de ritmo, fragmentação e efeitos visuais nos episódios iniciais, a série se consolida como uma das grandes surpresas de 2025 e uma das melhores produções do ano. Ela não apenas expande o passado, como desperta curiosidade genuína sobre o futuro, especialmente com as próximas temporadas ambientadas em 1935 e 1908. A franquia ganha uma nova sobrevida nas mãos de um diretor que entende sua essência e de um ator que prova, mais uma vez, que nasceu para dar vida a Pennywise.