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    Como a série Família Soprano popularizou o anti-herói na televisão?
    Por Gabriel Magarão — 11 de abr. de 2021 às 17:00

    Teria sido Tony Soprano o primeiro anti-herói da televisão americana? Conheça um pouco mais sobre o legado da série carro-chefe da HBO nos anos 2000.

    A série Família Soprano foi ao ar pela primeira vez na HBO em janeiro de 1999 e se tornou, imediatamente, um sucesso de crítica. A produção, que ganhará um filme em 2021 contando sua origem, estreou em um momento em que a maioria das produções da televisão eram protagonizadas por mocinhos: o herói clássico, cheio de senso de moralidade e que sempre tentava aprender com seus erros. O tipo de personagem com quem o público conseguia criar empatia facilmente, como Scully (Gillian Anderson) e Mulder (David Duchovny) de Arquivo X ou Thomas Magnum (Tom Selleck) de Magnum P.I. Já Tony Soprano, interpretado por James Gandolfini, quebrava completamente com esse modelo e entregava para o público outro tipo de protagonista: imoral, contraditório e violento. E foi isso que colocou The Sopranos (no original) imediatamente em destaque.

    Protagonistas desagradáveis e moralmente ambíguos tomaram conta das produções televisivas nas duas décadas seguintes. Algumas das melhores séries desses últimos anos foram protagonizadas por personagens extremamente desprezíveis e detestáveis, mas que se tornaram cada vez mais populares com o público. Homens como Don Draper (Jon Hamm) de Mad Men, Walter White (Bryan Cranston) de Breaking Bad e, mais recentemente, Frank Underwood (Kevin Spacey) de House of Cards são alguns dos exemplos mais óbvios do arquétipo de anti-herói. Eles seguem cometendo atos abomináveis ao decorrer da trama, porém o telespectador não consegue deixar de simpatizar com ele em algum nível. Mas provavelmente nenhum desses personagens existiria se, no final dos anos 1990, a HBO não tivesse lançado a aclamada série sobre mafiosos.

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    TONY SOPRANO PROVOU QUE UM PROTAGONISTA NÃO PRECISAVA SER AGRADÁVEL PARA CONQUISTAR O PÚBLICO

    O criador da série, David Chase, já trabalhava há anos como roteirista e produtor na televisão americana quando teve a ideia para o roteiro de Família Soprano. Ele idealizou a história inicialmente como um filme. Seria uma versão mais sóbria de sucessos como O Poderoso Chefão ou Os Bons Companheiros, focando na vida cotidiana da máfia ao invés de tiroteios e assassinatos. Mas, eventualmente, Chase adaptou o roteiro para ser o episódio piloto de uma série e a história de Tony Soprano se tornou o sucesso que conhecemos.

    O roteirista queria que a obra desviasse do que estava sendo feito na tv naquele momento, então construiu um personagem que poderia facilmente ser um vilão. David queria que Tony fosse detestável e odioso, mas ao mesmo tempo refletisse certa vulnerabilidade e tivesse características com as quais o público pudesse se identificar. Assim surgiu o infame protagonista: um gângster violento e sociopata, mas que fazia terapia para lidar com seus constantes ataques de pânico.

    Porém, quando Chase concebeu Tony, ele não esperava que o público fosse engajar tão facilmente com o anti-herói. Ele queria que as pessoas o enxergassem como um ser humano, mas não previu que o público torceria por ele e o veria como um ídolo. A ideia era criar um protagonista imoral, mas com várias camadas, uma pessoa real e não uma caricatura. Mas o personagem foi tão bem construído que as pessoas, mesmo conscientes de que ele era o vilão da história, acabavam torcendo por ele. E isso é um padrão que se manteve nas séries protagonizadas por anti-heróis: o telespectador perdoa suas falhas e os coloca em pedestais, mesmo o roteiro deixando claro que eles são personagens execráveis.

    FAMÍLIA SOPRANO EXPANDIU O QUE ERA ESPERADO DE UMA SÉRIE DRAMÁTICA

    Claro que a série da HBO não foi a primeira a ter um protagonista desagradável na televisão. Seinfeld já havia popularizado isso desde o início dos anos 1990 com seu excelente elenco e equipe. Porém Sopranos trouxe um nível de complexidade para seus personagens que uma série como um sitcom não tinha espaço para desenvolver na época. Além dos personagens complicados e bem desenvolvidos, ela também ampliou os caminhos que uma série de televisão poderia percorrer. O drama da HBO provou que não precisava de respostas fáceis para prender a atenção da audiência, mas sim protagonistas realistas e multidimensionais.

    A primeira cena de The Sopranos abre com Tony sentado na sala de espera do consultório da Dra. Melfi (Lorraine Bracco), sua terapeuta. Através dessa cena, a série estabelece de imediato que sua preocupação primária não será somente o enredo, mas sim explorar a mentalidade de seu protagonista. A cada sessão de terapia o público é apresentado a um novo lado do mafioso que expande o que pensamos sobre ele. E através de Tony, nós também passamos a conhecer muito da personalidade e sentimentos dos outros protagonistas, como a esposa Carmela (Edie Falco), a mãe Lívia (Nancy Marchand), os filhos AJ (Robert Iler) e Maddow (Jamie-Lynn Sigler) e o pupilo Christopher (Michael Imperioli). A cada episódio, o roteiro se aprofunda no lado mais complexo e obscuro de seus personagens, sempre obrigando-os a amadurecerem e encararem suas ações.

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    FAMÍLIA SOPRANO ERA UMA SÉRIE SOBRE… FAMÍLIA

    Família Soprano foi revolucionária na época não apenas pela sua temática, mas também pela maneira com que escolheu desenvolver o roteiro. David Chase foi perspicaz ao priorizar as características mais humanas dos personagens, ao invés de entregar ao público apenas mais uma obra audiovisual sobre mafiosos cheia de violência e intrigas. Em muitos momentos, ela lembra mais um drama familiar do que uma série criminal, explorando detalhadamente a dinâmica e os conflitos da família homônima. O drama retrata os Sopranos como um núcleo familiar praticamente normal, com problemas que a maioria das famílias também enfrenta diariamente.

    A maneira como a série explora as dinâmicas familiares, de um jeito cru e realista, serviu de referência para outras séries que vieram depois. Breaking Bad, por exemplo, apresenta o cotidiano da família White de uma forma semelhante, especialmente a relação entre o casal Skyler e Walter. A tensão constante e os conflitos internalizados entre Carmela e Tony serviram de inspiração para Vince Gilligan na hora de construir as tramas de Breaking Bad. Outra que também se inspirou no drama foi The Americans. A série sobre os espiões russos tinha uma grande preocupação em dar profundidade às relações dos Jennings, ao invés de apenas focar nas missões dos protagonistas.

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    FAMÍLIA SOPRANO ABRIU CAMINHO PARA VÁRIAS OUTRAS PRODUÇÕES

    Família Soprano não foi a primeira série de sucesso da HBO. Sex and the City já havia causado um impacto na cultura pop no ano anterior, mas o drama estrelado por James Gandolfini provou a emissora como um canal de excelência. E também mostrou que a televisão não precisava se encaixar em uma fórmula preestabelecida, abrindo espaço para várias outras produções criarem narrativas ainda não vistas. Sem a obra de David Chase, provavelmente não teríamos séries aclamadas e populares como Breaking Bad, LostGame of Thrones e Mad Men (o criador da última foi, inclusive, roteirista de Família Soprano).

    A série provou que o público estava pronto para narrativas que fugiam do óbvio. Desde a sua estreia em 1999 até o aclamado, porém controverso, episódio final (que se tornou referência entre os melhores finais de séries), a produção quebrou paradigmas com seu roteiro inteligente e sua direção revolucionária para televisão. Família Soprano abriu espaço para uma nova fase de obras televisivas: com planos cinematográficos, orçamentos grandiosos e enredos mais enigmáticos e sombrios. Ficou claro, depois do sucesso da série, que a tv poderia explorar novas narrativas, fugindo de resoluções simples e finais felizes e construindo protagonistas que você pode odiar tanto quanto amar.

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