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    The Witcher: Crítica da 1ª temporada
    Por Barbara Demerov — 23 de dez. de 2019 às 16:45

    A ambientação e as cenas de ação surpreendem, mas os múltiplos contos dentro de uma história sem finalidade mais clara dificultam a imersão.

    NOTA: 3,0 / 5,0

    Com diversos livros, quadrinhos e games, não é exagero dizer que o universo de The Witcher é tão amplo e diversificado quanto o de Game of Thrones. No entanto, há muitas diferenças em como ambos são tratados na televisão. Tendo como ponto de partida as primeiras temporadas de ambas as séries, o ponto mais divergente é o fato de que a trama de The Witcher soa um tanto confusa ao tentar apresentar seu arco principal, enquanto em Game of Thrones temos, logo no primeiro episódio, a constatação de que o que veremos é um embate psicológico e físico para a conquista do Trono de Ferro e a regência de Westeros.

    A nova série original Netflix apresenta devidamente bem seu mundo, chamado Continente, assim como as criaturas que vivem nele. Humanos, elfos e bruxos transitam por entre os reinos do Norte, liderados por Cintra, e o Império Nilfgaardiano, ao Sul. Mas ainda há certo distanciamento do espectador com relação ao completo potencial de tudo o que nos é mostrado, pois a estrutura dos episódios não prioriza a construção total dos ambientes, e sim o desenvolvimento lento dos três personagens principais: Geralt de Rivia (Henry Cavill), Ciri (Freya Allan) e Yennefer (Anya Chalotra). O que vemos do Continente - apesar de muito interessante e belo visualmente - são apenas extensões das jornadas dos personagens, não o palco principal.

    Com um total de oito episódios em seu primeiro ano, The Witcher surpreendentemente dá mais espaço a episódios que não avançam muito a trama em prol de exibir desafios cotidianos de Geralt - seja como um bruxo que luta contra monstros, ou como um homem que vive com o preconceito de muitos ao longo dos anos. Por isso, o vemos travar batalhas contra seres-humanos e monstros, mas raramente o vemos falar sobre sua vida ou passado. Ao mesmo tempo em que é válido acompanhar essa parte de sua vida (ainda mais em uma temporada introdutória) a fim do mistério durar por mais tempo, isso faz com que a imponência do personagem seja enfraquecida aos poucos. Ele é forte e corajoso, mas não seria nada mal conhecer suas origens durante a temporada, não apenas próximo ao seu desfecho.

    Paralelamente ao arco de Geralt, temos a poderosa maga Yennefer e a jovem Ciri, que possui um elo irrefutável com o bruxo. Ambas as personagens são desenvolvidas com mais detalhes do que o próprio Geralt, pois enquanto a jornada do protagonista está majoritariamente focada em atos que o levam até as duas mulheres, o passado de Yennefer e a motivação de Ciri em encontrar Geralt são os elementos que ditam suas histórias. Inclusive, é mais do que necessário falar mais sobre Yennefer, pois além de a personagem ter o arco mais chamativo e desenvolvido, é a personagem retratada com mais características humanas. O episódio que conta suas origens ("Lua da traição") expõe o quanto sua transformação física e mental é bem trabalhada e, mesmo com o excessivo uso de passagens no tempo no andar da temporada (o que pode causar certa confusão), sua personalidade sempre se manteve inabalável.

    Henry Cavill também entrega bastante dedicação a cada característica de seu personagem, mas devido a um trabalho de desenvolvimento que beira a superfície (pelo menos é o que mostra esta temporada), é evidente que sua real presença ainda está por vir. Com exceção do ótimo desempenho nas cenas de luta - que são extremamente bem filmadas e coreografadas, por sinal -, até mesmo suas falas beiram o clichê e não trazem tanta emoção. Tratando-se de um dos bruxos mais poderosos do Continente, esperava-se um pouco mais de presença e motivação pessoal. A ligação que Geralt possui com Ciri nos é explicada no episódio "Banquetes, bastardos e funerais", e não só é um dos pontos altos da temporada como também finalmente se aprofunda um pouco mais na mitologia de The Witcher, com promessas e missões mais claras.

    Em sua primeira temporada, The Witcher deixa claro que sua intenção é criar um universo na TV tão marcante quanto outras séries épicas, mas ainda é preciso mais cuidado e empenho para ligar todas as tramas que nos são apresentadas. Por ora, as histórias contadas são de fato dinâmicas e alçam voos intensos, mas breves; e o fato de os três arcos que envolvem Geralt, Yennefer e Ciri apenas se encontrarem em linhas temporais no último episódio diz muito sobre a ideia de unificar tudo em uma coisa só - mas só depois de tudo ser apresentado individualmente. A questão é que a história não é assim tão complicada e esta temporada poderia ser muito mais do que apenas um capítulo que tece, com bastante paciência, cada âmbito das jornadas. Se estruturar melhor a cadência dos eventos e realmente consolidar tudo no mesmo ciclo, a série se elevará a níveis prodigiosos, porque seu potencial está explícito no quesito principal: os personagens.

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