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    Sneaky Pete: Crítica da primeira temporada
    Por Laysa Zanetti — 7 de fev. de 2017 às 11:20

    Uma boneca russa de histórias em que cada personagem tem luz própria.

    Aviso: CRÍTICA SEM SPOILER

    Nota: 4,0 / 5,0

    Sneaky Pete talvez seja um dos últimos grandes exemplos de como uma emissora influencia, positiva ou negativamente, no resultado final de um programa. Isso porque a história e a abordagem dos episódios — sobretudo quando estamos tratando de uma série ficcional — estão ligadas ao formato e ao público-alvo do canal. Por isso, acaba fazendo diferença se o assunto for um canal aberto, fechado ou de streaming;  e conhecendo “a história antes da história” de Sneaky Pete, é possível entender como estas nuances afetaram no que é a primeira temporada da série.

    Quando Sneaky Pete começou a ser desenvolvida, o projeto foi oferecido para o canal CBS, da rede aberta norte-americana. A ideia foi descartada pelos executivos e caiu no colo do Amazon Prime, que deu o aval para a temporada completa e liberdade criativa para os produtores. Permitindo à série que brilhasse sozinha em seu próprio espaço.

    A série é um projeto passional de Bryan Cranston e David Shore (o criador de House). Os dois comandaram juntos o primeiro episódio, e quem assumiu a produção executiva depois disso foi Graham Yost, de Justified e The Americans. O ritmo compassado da história construída em nuances mínimas, e ancorada sobretudo na competência dos atores de fazer muito com um texto simples e sem ‘grandes’ lições é uma característica forte destes dramas, e que se repete com facilidade aqui.

    A trama acompanha Marius Josipovic (Giovanni Ribisi), um vigarista que está saindo da cadeia e precisa se esconder de Vince (Bryan Cranston), um mafioso que está no encalço dele e do irmão, Eddie (Michael Drayer), devido a uma dívida antiga. Marius encontra a solução perfeita: ele decide assumir a identidade de Pete, seu ex-colega de cela, e se esconder na fazenda da família do rapaz, que não o via há 20 anos. O único problema é que, ao tentar sair de uma situação complicada, Marius/Pete vai acabar mergulhando em outros problemas com sua disfuncional ‘nova família’.

    O primeiro episódio da trama é o mesmo piloto que havia sido apresentado à CBS, com algumas refilmagens e cenas adicionais. Ele apresenta uma estrutura óbvia de ‘caso-da-semana’, mas esta logo é abandonada completamente nos episódios seguintes, que cuidam de aprofundar a trama e o relacionamento entre os personagens.

    Sneaky Pete é uma série em que cada personagem brilha sozinho. Trata-se de uma teia incrivelmente interligada de golpes e segredos escondidos, histórias particulares que aos poucos vão se revelando e se conectando através de pequenos detalhes. Grande parte disso ganha relevância justamente porque cada um dos membros do elenco seria capaz de conduzir a trama por si só; não apenas Giovanni Ribisi ou Bryan Cranston têm histórias demais a contar (e isso não é uma reclamação), mas todos aqueles personagens escondem mais sob a superfície. Margo Martindale, Libe Barer e Marin Ireland estão enormes em cena, e são aquelas personagens que o público tentará dissecar até o fim — apenas para encontrar mais uma camada de segredos escondida por baixo da anterior.

    Bryan Cranston, inclusive, é uma agradável surpresa. Não que sua capacidade de apresentar um personagem complexo algum dia estivesse em questão, mas é revigorante vê-lo em cena na pele do mafioso Vince. O personagem inicialmente apareceria apenas no primeiro episódio, mas ele domina tanto a cena que é impossível imaginar que a temporada teria a mesma força sem ele. Cranston não ofusca seus companheiros de cena, mas hipnotiza toda vez que faz um discurso.

    O maior problema de Sneaky Pete é que acaba sendo muito convencional na resolução de conflitos genéricos, como o “será que eles vão ou não descobrir a mentira de Pete?”. Quando o primo está prestes a encontrar uma pista da real identidade de Pete, o seu telefone toca e ele abandona o que está fazendo. É óbvio e bastante cansativo, e esta preocupação inicial nunca sai de cena, mas não é o aspecto mais interessante da história. A real mágica é observar como a história equilibra tantos pratos na balança ao mesmo tempo sem deixar que a maioria deles caia no chão desastrosamente.

    Esta boneca russa de histórias (acredite, você não vai imaginar para onde a temporada está te levando) demanda confiança. Tanto entre o público e a série quanto entre a emissora e os produtores. A segunda temporada foi garantida pelo Amazon Prime poucos dias após a estreia da primeira, o que é uma evidência de que esta confiança existe. No fim da temporada, Sneaky Pete deixa o campo aberto para mergulhar ainda mais nos universos particulares de cada uma daquelas pessoas. Estamos prontos.

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