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    Bróder Entrevista com Jefferson De, Caio Blat, Sílvio Guindane e Jonathan Haagensen
    Por Francisco Russo — 19 de abr. de 2011 às 13:11

    Entrevista coletiva com diretor Jefferson De e com atores Caio Blat, Sílvio Guindane e Jonathan Haagensen.

    Vencedor do Festival de Gramado, premiado também em Paulínia e presente no Festival de Berlim 2010. Com um currículo repleto de festivais, Bróder enfim chega aos cinemas brasileiros em 21 de abril. O AdoroCinema esteve presente na pré-estreia do filme no Rio de Janeiro e participou de uma conversa com o diretor Jefferson De, o produtor Paulo Broncatto e os atores Caio Blat, Sílvio Guindane e Jonathan Haagensen. Os melhores momentos você pode conferir logo abaixo. Boa leitura! PRIMEIRO FILME Jefferson De admite que estava temeroso por ser seu primeiro filme. “Sabia que não podia trabalhar com não-atores. Eu já era o deficiente da história, quem nunca tinha dirigido um longa. Apenas poderia me decidir por ter um elenco absolutamente profissional, que se atirasse na história.” Questionado sobre como foi a transição dos curtas para os longas, o diretor responde: “Hoje sou um craque em curtas, sei exatamente como fazer. Meus curtas no máximo levaram cinco dias de filmagens, era muito tranquilo. Nos curtas você pode ter o privilégio de rodar linearmente, mas no longa é completamente embaralhado. Tinha que definir uma maneira de trabalhar, que por vezes era caótica. Outro lado é que nos curtas tinha que trabalhar com uns três atores e de repente tinha um elenco de peso. Como dirigir estas pessoas? Contei com o auxílio maravilhoso do Sérgio Penna (preparador de elenco) junto aos atores, mas tinha que dirigir a equipe técnica. No fundo foi esta equipe quem fez a diferença. Esta cumplicidade entre todos me surpreendeu.” ESCALAÇÃO DO ELENCO Jefferson De revelou uma grande admiração pelo trabalho de Sílvio Guindane, considerado um ícone do cinema brasileiro na última década. “É o meu Johnny Depp”, exalta. Os dois se conheceram no Festival de Gramado de 2003, quando Jefferson apresentou o curta-metragem Carolina e Sílvio o longa De Passagem. Desde então surgiu o interesse que trabalhassem juntos em algum projeto futuro. Até que, anos depois, Sílvio soube que Bróder estava em pré-produção e procurou o diretor, de olho em uma vaga. ”Tinha um problema sério, pois não podia escolher apenas um ator. Tinha que ser os três. É como Romeu e Julieta, não basta você ter apenas o Romeu, precisa ter os dois”, explica Jefferson. Três meses depois, o trio foi escalado e apresentado aos produtores Cacá Diegues e Daniel Filho. “Quando disse que seriam Caio Blat, Sílvio Guindane e Jonathan Haagensen os dois abriram um sorriso. Acho que foi uma aprovação, né?”, relembra o diretor. ALTER EGO O personagem Pibe, interpretado por Sílvio Guindane, era o alter ego de Jefferson De na história. “Ele é um cara que trabalha, dá duro, às vezes rola e em outras nada acontece. Ele mora no Minhocão de São Paulo, que é um lugar onde já morei. Tem um filho, eu também tinha uma filha na época. Hoje tenho duas e estou esperando a terceira”, anuncia o diretor. “Como dos três protagonistas o Sílvio era quem eu mais conhecia, ficou mais fácil trocar informações.” ADRIANO ”Fui privilegiado com o personagem do Jonathan, que é um jogador de futebol. A vibe era Adriano total! E o Jonathan, fisicamente, é igual ao Adriano. Só não tem a barriga. É tipo aquela frase dos Racionais MCs, ‘você sai da favela, mas a favela não sai de você’. Ele joga na Espanha, é milionário, tem um carrão, engravidou a menina do bairro... tudo aquilo que a gente vê nos jornais em relação aos jogadores de futebol”, comenta Jefferson De sobre o personagem Jaiminho. MERGULHO NO CAPÃO REDONDO ”O personagem do Caio nunca saiu do bairro, então ele resolveu fazer um mergulho mesmo. Alugou uma casa no Capão Redondo e ficou inserido neste universo. As pessoas às vezes perguntavam se ele não era aquele ator da Globo e ele nunca respondia seu nome verdadeiro, mas Macu, seu personagem. Então com o tempo todo mundo conhecia ele”, disse Jefferson De.

    Caio Blat relembra esta decisão: ”A exclusão em São Paulo não é só social, é também geográfica. A periferia é longe pra caramba, para ir ao Capão ficava duas horas na van e outras duas para voltar. Resolvi ficar por lá mesmo e aluguei uma casa. O mais incrível foi que, depois que o pessoal das filmagens ia embora e anoitecia, a vida no bairro mudava completamente. As pessoas voltavam para casa, tinha muito movimento na rua. Então ficava muito ouvindo rap e prestando atenção em como a molecada se comportava. E foi à noite, sendo convidado para jantar com as tiazinhas, que percebi como funcionava o amálgama daquele bairro. É um matriarcado, já que a maioria das crianças não tem pai. Assim a mãe é uma figura de respeito absoluto, já que carregava a história da família consigo. Percebi que era muito mais importante aquelas histórias comuns, repletas de afeto e saudade, para entender a história do Macu. Foi fundamental para mim esta aproximação e ser aceito pelas pessoas de lá”. MANEIRISMOS Algo que chama a atenção em Bróder são os gestos e gírias dos personagens no Capão Redondo. “Nada foi preparado. Como ficamos muito tempo no Capão a gente foi construindo estes personagens. Este gestual surgiu muito naturalmente, até para que pudéssemos nos relacionar com as pessoas que viviam lá. Foi tudo muito orgânico, em nenhum momento pensamos ‘vou falar assim’ ou algo do tipo”, revela Caio Blat. ”O pessoal do Capão diz que isto não é gíria, já se tornou um dialeto. É uma questão de identidade. Na favela todos os moleques crescem ouvindo rap, se comportam e vestem igual, não importa se é branco ou negro.”, lembra o produtor Paulo Boccato. ”Às vezes você chegava num bar, ouvia um diálogo inteiro e não entendia nada”, comenta Jefferson De. “Meu desafio era traduzir algumas destas gírias para que qualquer espectador pudesse entender”, complementa. FILME ABRACINHO O fotógrafo Gustavo Hadba apelidou Bróder de filme abracinho, já que nele há cenas de homens se abraçando o tempo todo. O fato fez com que o produtor Paulo Broccato lembrasse da primeira exibição do filme, no Festival de Berlim. ”Eles estavam esperando mais um filme brasileiro de favela, com violência e tal. Quando o filme terminou, olharam para a gente e perguntaram como era possível que, no Brasil, estes homens negros, fortes e suados se amassem e se abraçassem desta maneira. Pois isto não tinha sido visto em Cidade de Deus nem em Tropa de Elite. É um filme que traz outra versão, é a comunidade filmada pelo afeto.” Caio Blat interfere para fazer um alerta. “Este pode parecer um detalhe, mas na verdade é a assinatura do Jefferson. Ele está apenas apresentando seu primeiro filme esta noite. Gravem a cara deste negão, porque ele vai se tornar um dos maiores cineastas deste país. Ele tem aquilo que o cinema nacional é mais carente, ele tem afeto e sabe filmar o afeto.” LANÇAMENTO ”Desde o Festival de Berlim de 2010, este é o melhor momento para lançar o filme. Prefiro disputar com filmes estrangeiros do que com Tropa de Elite 2, Chico Xavier e Nosso Lar”, diz Jefferson De, sobre a dificuldade em lançar Bróder em um período onde Rio ocupa cerca de um terço do circuito exibidor do país. OSCAR No Festival de Gramado, Jefferson De declarou a vontade de que Bróder fosse o candidato brasileiro ao Oscar 2011 de melhor filme estrangeiro. Para tanto o filme foi exibido por uma semana no interior do país, de forma a torná-lo elegível para a disputa. Ainda assim, foi derrotado por Lula, o Filho do Brasil. Questionado sobre o porquê de disputar a vaga brasileira no Oscar deste ano, ao invés do próximo, Jefferson De foi taxativo: “Foi ansiedade! Algo que surpreendeu todo mundo foi o filme ser selecionado já no primeiro festival em que foi inscrito e este foi o Festival de Berlim. Confesso que não tinha noção do que ele era até pisar lá e ver uma sala com quase mil lugares completamente lotada. Não sabia o que era exibir o filme e, no dia seguinte, ter uma crítica na Variety. Aí comecei a achar que o filme merecia disputar o Oscar. E digo mais: no ano passado Bróder foi um dos grandes filmes que mereciam estar lá, assim como Os Famosos e os Duendes da Morte, Chico Xavier e As Melhores Coisas do Mundo. Acato a decisão, mas basta olhar no ano passado com O Segredo dos Seus Olhos. Não foi um filme sobre o Menem, foi O Segredo dos Seus Olhos. A Argentina faturou pela segunda vez, está 2 x 0 para eles.”

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