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    Brasil Animado Entrevista exclusiva com Mariana Caltabiano e Eduardo Jardim
    Por Francisco Russo — 19 de jan. de 2011 às 08:36

    Entrevista exclusiva com a diretora Mariana Caltabiano e o dublador Eduardo Jardim

    O primeiro longa-metragem nacional de animação lançado em 3D. Este é Brasil Animado, que chega aos cinemas em 21 de janeiro apostando na exibição das belezas naturais e culturais do país, através da louca viagem dos personagens Stress e Relax. O Adoro Cinema falou com exclusividade com a diretora Mariana Caltabiano e o roteirista e dublador Eduardo Jardim, que comentaram sobre a realização de Brasil Animado. Mariana ainda fala sobre seu trabalho seguinte como diretora, o documentário VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso, exibido nas últimas edições do Festival do Rio e da Mostra de Cinema de São Paulo. Boa leitura! ADORO CINEMA: Como surgiu a ideia de Brasil Animado e quanto tempo levou para que o filme ficasse pronto? MARIANA CALTABIANO: Foi um total de três anos. Fiz em 2008 As Aventuras de Gui e Estopa, onde Relax e Stress apareciam para contar como era feito um desenho animado. Lembro que, no réveillon de 2007 para 2008, vindo de Ilha Bela, pensei que os personagens rendiam e poderiam aparecer mais. Veio então o nome Brasil Animado. Começamos a conversar sobre a possibilidade deles viajarem pelo Brasil, mostrando as coisas mais legais do país. Tinha que ter um pretexto para a viagem, que acabou sendo o grande jequitibá rosa. No fim acabam descobrindo algo muito maior que a própria árvore, que é o Brasil com sua cultura e diversidade.     AC: Desde o início a ideia era mesclar cenas reais com animação?   Mariana: Era. Ao fazer Gui, Estopa e a Natureza gostei muito do trabalho do Lawrence Wahba, que realiza imagens aquáticas. Foi a partir dali que comecei a pensar em como seria bacana mesclar animação com imagens reais dele. Incentivamos que ele rodasse cenas com bichos em terra, algo que nunca tinha feito até então. Ficou super legal, gostei muito do resultado. Fiquei com medo de que o Cartoon Network não fosse topar, por ter algo de educativo e o canal ser mais de entretenimento. Resolvi arriscar e deu certo. Honestamente, acredito que é possível fazer esta combinação de informação com entretenimento. Acho que, quando funciona, é muito legal.     AC: O filme conta com algumas locações óbvias, como Amazônia, Rio de Janeiro e Brasília, mas outras nem tão conhecidas assim. Como foi a escolha de quais lugares deveriam aparecer? Mariana: Pedi uma pesquisa geral do Brasil. Não dá para falar do país sem mostrar o Rio, São Paulo e outros locais óbvios, mas tinha alguns lugares que me despertavam curiosidade como roteirista. O grande jequitibá, de Santa Rita do Passa Quatro, foi uma curiosidade. Até na pesquisa dizia que era a árvore mais antiga do mundo, mas para não ter discussão resolvi colocar que era só do Brasil. Nunca tinha ouvido falar disto. A Suzana Liuzzi (roteirista) sugeriu que eles rodassem o Brasil procurando esta árvore. Então a decisão teve como base o que me interessava e também ajudasse a história, pelo lado criativo. AC: Desde o início havia a intenção de lançar o filme em 3D ou isto veio depois?   Mariana: Veio depois. Após Gui, Estopa e a Natureza eu e o Eduardo Jardim escrevemos o roteiro, montei o projeto e saí mostrando para que as pessoas vissem. Levei para o Cadu Rodrigues, da Globo Filmes. Ele gostou bastante e ressaltou que seria ainda melhor se fosse em 3D. O Marcelo Siqueira, da Teleimage, já tinha me dito que era possível. Ele me mostrou os testes, vi que funcionava, mas ainda tinha uma dúvida. Será que a animação em 2D funcionaria em 3D? Nunca tinha visto. Fiz o teste e adorei o que vi. É uma linguagem diferente da computação gráfica, é o desenho que cresci vendo e que meus filhos adoram também. Até reescrevi algumas partes do roteiro para poder aproveitar melhor o 3D. Em nenhum momento captamos algo em 2D e convertemos, o filme foi todo feito já em 3D. AC: Como é trabalhar com a câmera 3D? É mais complicado o manuseio ou igual às câmeras comuns?   Mariana: É mais difícil. São duas câmeras comuns que ficam acopladas, com um tubo de espelhos que converte as imagens em uma só. Como cada uma representa um olho do espectador, as imagens têm que estar muito idênticas. Então é preciso ter o estereógrafo no set, que calcula a distância do que está mais próximo e mais longe. Com base neste cálculo é ajustada a distância entre as câmeras. E tem que ser um cálculo perfeito, o responsável é tipo um geniozinho. Ele calculava a distância e aí levava um tempo para arrumar as câmeras. Foi tudo muito novo. O que me deixou feliz e entusiasmada foi já no set poder ver o resultado, através do monitor e com óculos. Tinha medo de ter todo este trabalho, rodar o Brasil inteiro e lá na pós-produção ver que a ideia não funcionou. O fato de poder ver no set foi muito interessante. Além de ser gostoso, por ver que estava funcionando.     AC: Este é o primeiro filme brasileiro feito em 3D e com este tipo de câmera. Imagino que o ineditismo tenha sido também uma dificuldade. Mariana: Além de tudo ser novo, ainda tivemos que viajar pelo Brasil com esta tralha toda. Imagina ter que carregar este material nas dunas de areia no Ceará, sem poder sujar a lente. Se suja, dançou. A imagem em ambas as câmeras precisa estar idêntica, não pode ter um grão de areia numa e em outra não. Quer dizer, na verdade não pode ter grão de areia em nenhuma delas! Por outro lado, é mais fácil fazer o 3D de uma paisagem do que um filme inteiro de ação, com falas de atores o tempo inteiro. O projeto era propício para este teste de tecnologia, isto foi algo que entusiasmou todo mundo a apostar neste filme como o primeiro 3D do Brasil. AC: O filme é repleto de citações, não apenas verbais mas às vezes apenas emoldurando uma cena. Por que resolveu incluí-las e que tipo de público buscou atingir?   Mariana: Tem citações bem sutis, como o Pica-pau dentro do barril e o Batman no Festival de Gramado, e outras que são propositais, piadas mesmo. Umas partiram do Eduardo Jardim, estas de cenário, outras de mim e mais algumas vindas dos dois juntos. Ele é fã de Guerra nas Estrelas e queria colocar o filme lá. EDUARDO JARDIM: O boneco do Astro Boy está no apartamento do Relax. Ele é nerd, então tinha que ter algumas memorabilia lá. Então pensei em colocar o Astro Boy, que ele deve curtir por ser anime japonês e parte da cultura pop. Tem também o R2-D2, Transformers, várias action figures. Mariana: São detalhezinhos que ajudam a contar quem é o personagem. A cena deles arrumando a mala na primeira montagem não existia, mas decidimos inserir porque era fundamental que, já no começo, fossem mostradas as diferenças entre os dois. Ali já estabelecemos quem são os personagens e fica mais fácil para seguir em frente.     AC: Como foi este trabalho de vocês, em conjunto, no desenvolvimento do roteiro e dos personagens? Mariana: Os personagens estavam muito sólidos na nossa cabeça, como se existissem mesmo. Eduardo: Eles partem de referências vindas de universos paralelos, mas de certa forma semelhantes. A Mariana vem da área de publicidade, eu da editorial. Mariana: Conheci várias pessoas que são Relax e várias que são Stress. Eu mesmo sou 50% de cada um deles. Sou muito perfeccionista, então às vezes preciso que o Relax me ajude. E ajuda no momento criativo, quando você ousa. Há várias maluquices no filme que foram concebidas quando estava Relax totalmente. O Stress é o lado pé no chão. O fato deles estarem muito claros permitiu que falássemos de assuntos mais complicados, que passássemos informação através deles. Como eles são opostos, permitem ainda uma série de situações engraçadas. Porque se fôssemos fazer um filme só com informação iria ficar chato, mas também um filme só com piada talvez ficasse vazio. Queria também fazer algo que levantasse a auto-estima do brasileiro. O brasileiro às vezes parece aquela mulher bonita que acha que é feia. Tem outros países pequeninos que botam pra quebrar e a gente, com tudo isso, fica nessa. Era um sonho que tinha tentar fazer esta junção. Era um risco também, porque muita gente quando ouve que é educativo sai correndo. Fiquei feliz porque as crianças curtiram pra caramba, se divertem. Tenho consciência de que elas não vão entender 100% e nem precisa, porque estarão se divertindo com o visual, as cores, os personagens. E os adultos poderão conhecer algo que não sabiam. Sinto que as crianças hoje são muito curiosas, elas têm uma capacidade de absorção de informação bem maior que a gente, até por conta da internet e todos estes canais a cabo. Na minha época programação infantil era dois canais pela manhã e só, hoje eles têm acesso a muita coisa. O que é bom.     AC: Você é o responsável pela dublagem tanto do Relax quanto do Stress, que tem personalidades completamente diferentes. Apesar de ser o mesmo dublador, dá para identificar quem é quem sem nem mesmo ver o personagem. Como foi compor esta dupla? Eduardo: Eles já vieram muito bem estruturados pela Mariana. Um relaxadão, voltado para as artes, e o outro business. Já tinha referências da vida real, pois tive chefes tanto Relax quanto Stress. São personagens animados que são também muito reais, pela personalidade. Então fica parecendo que você está imitando um amigo seu.     AC: O filme traz um personagem inspirado em você, o gordinho que repete "definitivamente". Como surgiu esta ideia? Eduardo: Foi Alexandre Ferreira, diretor de animação, quem criou o personagem. Quando vi até tomei um susto, perguntei se tudo aquilo era eu mesmo.   Mariana: Ele veio com esta história do "definitivamente", achei muito engraçado. Então resolvemos colocá-lo como um personagem nonsense na história. Depois descobri que as crianças adoraram este personagem.     AC: O filme estreia em 21 de janeiro e pegará pela frente Enrolados, As Viagens de Gulliver e Zé Colmeia, filmes hollywoodianos de orçamentos monstruosos. Como você encara enfrentar esta concorrência? Mariana: Assusta, claro, mas por outro lado é uma honra concorrer com Warner e Disney. Por um lado é assustador, porque são realmente concorrentes gigantes, mas uma hora temos que dar a cara para bater, tem que acreditar. Inclusive alguns dos brasileiros que cito no filme são pessoas que não se intimidaram, enfrentaram a concorrência lá de fora e venceram. Estamos começando, ainda temos muito o que aprender e crescer, mas acredito que o Brasil tem os artistas, os investidores, vontade de fazer, tem tudo. É questão agora da gente se organizar para dar um voo maior. Os Estados Unidos fazem muito lixo, mas acredito que da quantidade se atinge a qualidade. Meu sonho é fazer um filme por ano e ficar cada vez melhor para, um dia, chegar e bater a Disney. Não dá para ter grandes expectativas, para mim já foi uma vitória ter feito o filme. Isto vai abrir caminho para próximas produções, não só minhas mas de outras pessoas. Acho que o Brasil em pouquíssimo tempo, da mesma forma que filmes com atores de carne e osso já chegaram a ultrapassar estrangeiros, como Tropa de Elite 2 batendo Avatar, pode ter a animação nacional chegando neste nível. É sempre seguir em frente.     AC: Você está com outro filme para estrear daqui a alguns meses, o documentário VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso. VIPs, que trata da mesma história só que pelo lado ficcional, irá estrear na mesma época. Mariana: A gente vai estrear um pouco antes. Foi uma decisão do distribuidor, vai entrar no começo de março. Claro que ficção é muito maior, tem o Wagner Moura, mas não sei se eles estavam preocupados que, se o documentário estreasse depois de VIPs, as pessoas não iriam querer ver a mesma história. Acho que o documentário funciona como um excelente teaser para a ficção, pois deixa muito curioso. E vice-versa, pois um filme alimenta o outro. Eu segui um caminho com o documentário e o Toniko Melo foi por outro na ficção, eles não são redundantes. Um vai mais para o humor, que é a história real, e o outro para o drama. Para mim foi muito legal ver este outro lado. Falando de cinema, é demais poder ver a mesma história contada sob ângulos diferentes. Inclusive quando o Fernando Meirelles viu disse que para escola de cinema será o máximo, pois as pessoas poderão ver as diferenças de roteiro e de gênero. Claro, um é bem mais simples e o outro é ficção, mas é gozado ver a forma como o personagem foi trabalhado.     AC: Você trabalha com personagens infantis e animação já há um bom tempo e agora resolveu partir para o documentário. Por que uma mudança tão brusca? Mariana: O que me apaixona na verdade são os personagens. Quando vi o Marcelo no Amaury Jr., que tinha sido enganado por ele, morri de rir. Se tivesse que fazer um filme seria a história deste cara. Fiquei curiosa com ele e contei ao Toniko esta ideia. Ele queria fazer um filme de ficção e ficou encantado com a história, a gente trabalhou junto no roteiro por um tempo. Aí a advogada da O2 Filmes disse que seria muito difícil comprar os direitos, pois é um estelionatário, e que se houvesse um livro seria muito melhor. Foi quando resolvi escrever o livro. Peguei o avião, fui pra Curitiba e fiz entrevistas com ele por mais ou menos um ano. Tudo para o livro, não pensava ainda em documentário. Procurei todos os envolvidos na história e isto serviu de pesquisa para a ficção, além do livro. Só que achei a história tão rica e, quando você a conta, parece até que ela é mentira, mas você vê ele se transformando em situações completamente diferentes. Foi quando pensei que as pessoas veriam isto na ficção, mas ficariam em dúvida se é realmente verdade. Foi daí que veio minha motivação para o documentário. AC: Você pretende também entrar na ficção, com atores? Mariana: Pode ser. Não tenho planos neste sentido. Estou produzindo Zuzubalândia em 3D, que é um projeto em animação, mas se um dia surgir uma história ou um personagem de carne e osso que ache que valha a pena, acho que farei.

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