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    Coletiva Meu Mundo em Perigo
    Por Francisco Russo — 17 de dez. de 2010 às 20:35

    Entrevista com José Eduardo Belmonte, Milhem Cortaz e Rosanne Mulholland

    Em dezembro de 2007, Meu Mundo em Perigo era um dos premiados no Festival de Brasília, onde levou para casa os prêmios de ator (Eucir de Souza), ator coadjuvante (Milhem Cortaz) e o prêmio da crítica. Três anos mais tarde, o filme enfim chega ao circuito comercial. Reunidos para promover o lançamento, o diretor José Eduardo Belmonte e os atores Milhem Cortaz e Rosanne Mulholland falaram não apenas do filme, mas também sobre a situação do cinema brasileiro. Em especial o impacto gerado por Tropa de Elite 2, que bateu o histórico recorde de Dona Flor e Seus Dois Maridos e é hoje o filme brasileiro mais visto em todos os tempos. LANÇAMENTO TARDIO "São situações inerentes ao mercado", afirma José Eduardo Belmonte, se referindo à demora na estreia comercial de Meu Mundo em Perigo. "Hoje em dia quando estou fazendo um filme já converso com distribuidora e vejo data de estreia. Na época sentia a necessidade de fazer, meu interesse era apenas em marcar presença, aí não se pensou neste lado da distribuição. E logo em seguida veio Se Nada Mais Der Certo, que ganhou o Festival do Rio e acabou atropelando Meu Mundo em Perigo. Mesmo assim houve um descompasso, pois o ideal era que fosse lançado seis meses depois. Só que faltou dinheiro. A estreia demorou mas acho que veio no tempo certo, pois o filme continua bastante atual." "Considero o filme muito mais atual hoje do que há três anos atrás", complementa Milhem. "Vivemos uma época de perdedores, de busca, e é disto que o filme trata. É um filme muito triste porque é também muito verdadeiro. Mas é também um filme esperançoso. Estou feliz por o filme estrear, foi uma das experiências mais intensas que já tive em cinema. Foi tão catártico que não sabia muito bem onde estava, só fui ver o que fiz depois que o filme ficou pronto." MUDANÇA DE OLHAR? Questionado se os três anos de espera fizeram com que seu olhar sobre a história mudasse, Belmonte foi direto. "Sempre que se envelhece você larga mão de algumas idiossincrasias. Talvez largasse algo de estilo, fosse menos incisivo em certas coisas. Revi o filme há pouco tempo e talvez até o fizesse hoje de forma diferente, mas achei ainda muito pertinente. Quando revejo um filme que fiz trago de volta a experiência do set de filmagens e isso neutraliza qualquer idiossincrasia. São detalhes apenas." ACASO "A gente não percebe, mas a vida é um turbilhão permanente. A gente procura uma zona de conforto sempre, esta é a dinâmica da vida. Fico muito interessado que o cinema traga isso, trazer este caos para a narrativa é importante. O cinema que é muito certo, bem acabado, organizado não me interessa", afirmou o diretor José Eduardo Belmonte. CINEMA DE GUERRILHA "Acho que é muito importante conciliar a carreira entre filmes grandes e pequenos. Nos pequenos é possível abrir portas e revelar muita coisa. Há uma verdade que apenas os filmes pequenos podem ter, seja no processo de filmagem, de atuação ou na história. Tenho planos de voltar a fazer um filme de guerrilha depois de The Billi Pig, acho importante conciliar estas duas formas de fazer cinema", declarou Belmonte. O diretor iniciará em 2011 as filmagens de The Billi Pig, comédia que terá Selton Mello e Grazi Massafera como protagonistas. CINEMA COMERCIAL Belmonte afirma que é necessário fazer cinema comercial no Brasil. "É importante para consolidar a carreira e ocupar espaço. Sou curioso também, tenho vontade de saber como é fazer um filme de grande alcance. Já sei como é o outro lado. Hoje em dia ou você é muito pequeno ou é muito grande, o filme médio está morrendo. Então é importante colocar o pé entre os filmes grandes e vivenciar isto também." A citação a Tropa de Elite fez com que Milhem Cortaz lembrasse que o filme não nasceu com esta intenção. "Ele começou como um filme pequeno. O primeiro Tropa não foi feito pensando em grande público e esta repercussão que teve. Acho importante almejar chegar ao cinema comercial, mas sem perder sua linha artística. Acho importante o Zé fazer isto, as pessoas precisam conhecer o trabalho dele. Ele tem feito um caminho muito sólido, experimentou suas qualidades em cada filme que fez." Milhem Cortaz lembrou que ele próprio também buscou o cinema comercial ultimamente. "Fiz Assalto ao Banco Central e Lula, que tem uma verdade mais próxima do que é a arte para mim. Havia uma busca pela criação, com o envolvimento de todos. E tinha os Barretos, que tinha uma imensa curiosidade de conhecer. Eles podem ser os barões, o coronelismo do nosso cinema, mas se a gente está aqui é porque eles lutaram muito. Daí fui para Assalto, que para mim é um completo blockbuster. Um filme de ação, com romance, feito pela Total Film, que está acostumada com filmes populares. Queria muito participar para entender como era isto tudo. O Marcos Paulo (diretor) e a Total me cercaram com profissionais que me deixaram muito à vontade, para que pudesse experimentar esta falta de necessidade com a verdade. É muito mais uma sugestão de tudo, um entretenimento, do que mostrar a realidade do país." Rosanne Mulholland também falou sobre o tema, lembrando sua presença no sucesso Nosso Lar. "Não consigo compará-lo com nada, pois fala de uma realidade que talvez até exista, mas não é daqui deste mundo. Acho curioso fazer isto no Brasil, pois o cinema nacional sempre tem um lado muito social. Acho que vale a pena tentar, mas é a única experiência que tenho." NOVO RECORDE "Acho que o Tropa 2, com seus 11 milhões, vem para entender como a indústria pode funcionar. Tudo o que o José Padilha conseguiu fazer os estúdios que estão no Brasil há anos não tinham conseguido. Acho que muita coisa será repensada: as leis, as cláusulas, a forma de distribuição, a estratégia usada, a necessidade. Está profissionalizando o nosso cinema", comentou Milhem Cortaz. "Algo importante é que hoje o parque exibidor é bem menor do que na época de Dona Flor e Seus Dois Maridos. Fora que o ingresso era bem mais barato", lembrou Belmonte. "Acho que perdem muito tempo achando que ator é que vai levar gente ao cinema, quando na verdade é o filme. O Tropa é muito mais importante do que eu, Wagner Moura, Irandhir, do que qualquer um. As pessoas estão indo ver o filme. É isto que as distribuidoras têm que pensar, que o carro-chefe não seja um ator mas sim o próprio filme. Elas têm que fazer acreditar que o filme é genial e, por acaso, tem fulano. A gente ainda está engatinhando, mas já usando uma joelheira, uma luva... Estamos quase levantando."

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