Vencedor de três prêmios Oscar e considerado hoje um dos grandes filmes históricos do final dos anos 1980, Tempo de Glória deixou uma lembrança bem menos gloriosa para quem o dirigiu. Mais de três décadas após as filmagens, Edward Zwick revelou como sua colaboração com Matthew Broderick e, sobretudo, a convivência com a mãe do ator transformaram a experiência em uma verdadeira provação.
Lançado em 1989 nos Estados Unidos, Tempo de Glória resgata a história do 54º Regimento de Infantaria de Massachusetts, uma das primeiras unidades do exército da União formadas por soldados afro-americanos durante a Guerra de Secessão. Na trama, Matthew Broderick interpreta o coronel Robert Gould Shaw, atuando ao lado de Morgan Freeman e Denzel Washington. A atuação deste último rendeu-lhe, inclusive, o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
Um resultado prestigioso que jamais deixaria transparecer as tensões que dominavam os bastidores.
TriStar Pictures
Uma mãe onipresente no set de filmagem
Edward Zwick narrou o episódio em seu livro de memórias, Hits, Flops, and Other Illusions: My Fortysomething Years in Hollywood. O diretor de O Último Samurai e Lendas da Paixão descreve em detalhes a relação conturbada que manteve com Patricia Broderick, mãe de Matthew Broderick.
Segundo o cineasta, Patricia interferia constantemente no trabalho de produção e questionava abertamente suas decisões. Ela teria considerado, por exemplo, que seu filho não tinha destaque suficiente em Tempo de Glória e exigiu alterações após assistir a uma exibição privada.
Interferências que afetaram profundamente o diretor. Em entrevista ao portal The Daily Beast em 2024, Zwick não escondeu o quanto aquele período o marcou:
Foi tão traumático para mim
E o cineasta foi ainda mais incisivo ao descrever o comportamento de Patricia Broderick:
"Desde o momento em que nos conhecemos, Patricia Broderick foi desdenhosa, humilhante e instável. Ela não dava trégua nas críticas e eu a enfrentei a todo momento, fazendo o meu melhor para ignorar suas grosserias e ofensas."
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O silêncio de Matthew Broderick incomodou o diretor
Contudo, Edward Zwick não direciona suas críticas apenas à mãe do ator. Ele também guarda uma lembrança bastante amarga da postura de Matthew Broderick diante da situação. Enquanto Patricia atacava o diretor, seu filho teria optado por não intervir. Zwick se recorda do ator "sentado em um silêncio absoluto" enquanto o conflito acontecia bem diante de seus olhos.
Olhando para trás, o cineasta não suavizou os termos ao descrever a parceria. Ele definiu o ambiente de trabalho como um "teatro da crueldade" e apresentou o trecho dedicado ao ator em suas memórias como "um relato sem filtro de todas as bobagens feitas por Broderick". Uma experiência tão desgastante que ele chegou a comparar o trabalho com Matthew Broderick a "um pesadelo do qual não se consegue acordar", declaração veiculada pelo jornal The Guardian em 2024.
Palavras bastante duras para uma colaboração que, apesar de tudo, resultou em uma das obras mais marcantes da carreira de ambos.
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Edward Zwick ponderou sua avaliação ao longo do tempo
Mais de trinta anos se passaram, e o diretor analisa hoje os fatos sob uma perspectiva mais ponderada. Sem negar o que viveu, Edward Zwick reconhece que Matthew Broderick enfrentava uma fase pessoal e profissional extremamente delicada na época.
O ator tinha acabado de perder o pai e precisava, com apenas 24 anos, lidar com uma fama avassaladora impulsionada pelo estrondoso sucesso de Curtindo a Vida Adoidado. Uma situação que Zwick hoje considera difícil de compreender plenamente para quem não a vivenciou.
"As pessoas não entendem o que significa colocar esse tipo de responsabilidade nos ombros de um jovem de 24 anos, e não tenho certeza de que queiram entender. Uma estrela de cinema fica o tempo todo cercada por pessoas sussurrando em seu ouvido o que ela deve fazer, quem deve ser e com quem deve trabalhar."
O cineasta garante, assim, ter deixado para trás a mágoa que guardava na época.
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A equipe de Broderick respondeu às acusações
As revelações, no entanto, não foram recebidas com entusiasmo pela equipe de Matthew Broderick. Embora o ator não tenha rebatido diretamente as declarações do antigo diretor, seu representante manifestou-se sobre a publicação.
Em vez de discutir em detalhes os episódios relatados por Edward Zwick, o porta-voz lamentou a decisão do cineasta de trazer a público um desentendimento de décadas atrás para promover seu livro.
Ainda que as lembranças sobre o que aconteceu há tantos anos possam variar, acho lamentável e triste que um diretor com uma carreira tão bonita recorra a esse tipo de mesquinharia para vender alguns livros
Uma polêmica tardia que destoa do destino glorioso de Tempo de Glória. A prova de que um set de filmagem turbulento pode, contra todas as expectativas, dar origem a uma obra capaz de atravessar gerações.