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    10 filmes baseados em escândalos políticos
    Por Renato Furtado — 7 de set. de 2017 às 10:12

    Na onda de Polícia Federal, uma investigação sobre a história do cinema.

    Z

    É preciso eliminar as pestes dos vinhedos para que os fazendeiros possam colher as uvas e produzir o vinho, afirma o Ministro da Agricultura da Grécia no prológo de Z. Logo, o comando da palestra é assumido pelo Chefe da Polícia, que ecoa as palavras do colega, afirmando que o dever de todo bom cidadão grego é eliminar os agentes patológicos que estão ao seu redor — sejam eles ervas daninhas nas plantações ou opositores ideológicos do governo.

    É assim, com poucas palavras e com o uso de uma simples metáfora, que o diretor Costa-Gavras (Desaparecido - Um Grande Mistério) anuncia sua obra-prima. Logo em seguida, o cineasta faz questão de frisar: "Qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas não é casual. É intencional". Z, infelizmente, adapta o trágico acontecimento que provocou o estopim da Ditadura dos Coronéis, regime fascista que devastou a Grécia entre os anos de 1967 e 1974.

    A partir do romance homônimo de Vassilis Vassilikos — proeminente escritor local que foi forçado a se exilar quando os militares deram seu Golpe de Estado , Costa-Gavras emprega todas as suas técnicas de direção para não fazer nenhum refém: em sua filmografia, é tudo ou nada em busca da verdade e contra o fascismo. Z acompanha a chegada de um deputado da capital (Yves Montand interpreta o protagonista, personagem baseado no político Grigoris Lambrakis) para realizar um comício em Thessaloniki a favor do pacifismo, do desarmamento nuclear e contra o endurecimento das políticas governamentais. A administração geral, por sua vez, decide reafirmar seu caráter "democrático" e permite que os partidários do congressista prossigam com o evento. No entanto, nos bastidores, uma tentativa de assassinato é orquestrada e as forças policiais não estão nada dispostas a mexer um dedo para resolver a situação.

    Ganhador de dois Oscar (Melhor Montagem e Melhor Filme Estrangeiro) e indicado a outros três (Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado), Z é um dos longas políticos mais importantes de todos os tempos. Impulsionado pelas bela e inteligente fotografia de Raoul Coutard, que faz a câmera flutuar pelos momentos mais tensos deste suspense dramático, e pela estoica performance de Jean-Louis Trintignant (Amor), que interpreta o juiz que desvela o escandaloso caso de corrupção e de omissão estatal que levou à morte de Lambrakis, em 1963, Z continua sendo, até hoje, um filme de resistência contra todo e qualquer tipo de abuso de poder e totalitarismo.

    A HONRA SECRETA

    Chegamos, enfim, ao escândalo político dos escândalos políticos: o caso Watergate, ocorrido quando o então presidente Richard Nixon decidiu implantar escutas no comitê eleitoral do Partido Democrata para espionar seus rivais antes das eleições. Quando o crime foi descoberto, Nixon foi forçado a renunciar.

    Desde 1974, a figura do ex-presidente foi esmiuçada, satirizada e manipulada de todas as formas possíveis. A vida e a queda do republicano, por exemplo, foram os pontos centrais de aclamadas produções como Nixon e Frost/Nixon (interpretado por Anthony Hopkins e Frank Langella, respectivamente). No entanto, apesar do aspecto monumental do trabalho de Oliver Stone e do intimismo da obra dirigida por Ron Howard, foi em A Honra Secreta, um filme "menor" do influente e inovador cineasta Robert Altman (Nashville) que Nixon ganhou um de seus melhores retratos cinematográficos.

    Uma cartela, logo no início do longa, avisa que o personagem em questão, trazido à vida por um magnífico Philip Baker Hall (Magnólia) como um trágico personagem shakespeariano, é fictício, sendo apenas baseado na persona real e pública do presidente mais polêmico da história dos Estados Unidos. Mas mesmo com o aviso, o retrato não poderia ser mais verdadeiro. Durante 1h30, Altman e Hall examinam a figura de Nixon que, enclausurado em seu gabinete e obcecado por controle, sempre de olho em suas câmeras de segurança, reconta sua trajetória de vida e seus envolvimentos em inúmeros escândalos políticos.

    Além de Watergate, a produção também analisa a época da Guerra do Vietnã e as ações tomadas por Nixon no período, que continuou a investir no conflito bélico em troca de dinheiro e mais poder. Tudo isso enquanto ele se coloca em frente a um juiz imaginário, como se estivesse defendendo seu caso — e sua vida — no tribunal.

    Baseado na peça homônima, o filme passeia entre reminiscências, confissões, culpas e delírios em um longo e ininterrupto monólogo, um fluxo de consciência filmado por Altman de modo a transformar seu cenário minimalista e teatral em um verdadeiro mundo cinematográfico de significados, explorando a paranoia de Nixon, sua solidão e decadência frente à opinião pública e a si mesmo. Sem sombra de dúvidas, A Honra Secreta é um brilhante estudo de personagem e um dos filmes mais ousados sobre a política e a figura de Richard Nixon.


    TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE

    Por último, mas obviamente não menos importante, aquele que é um dos filmes essenciais do cinema político: Todos os Homens do Presidente, um dos maiores clássicos da sétima arte e um suspense que coloca todo e qualquer espectador na ponta da cadeira.

    No thriller, o diretor Alan J. Pakula (A Escolha de Sofia) realizou o que parecia ser impossível: analisar o caso Watergate apenas dois anos após a descoberta da espionagem conduzida por Nixon. O escândalo, que abalou os Estados Unidos e modificou a história do Ocidente, inspirou Robert Redford (Capitão América - O Soldado Invernal) a comprar os direitos de adaptação da obra dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, escritores do Washington Post que expuseram o esquema de espionagem de Nixon.

    Além de apresentar performances incríveis e inesquecíveis de Redford e de Dustin Hoffman (Rain Man) e explorar os bastidores do jornalismo, o longa é estruturado como um thriller frenético repleto de planos brilhantes e fundado sobre uma crítica profunda à política estadunidense. Montado com a precisão de um relógio suíço, o filme analisa, ainda, a eterna busca pela verdade e cria, inspirado nas personalidades reais de Woodward e Bernstein, dois dos melhores personagens dos anos 70.

    Intriga política, conspiração, dois parceiros que não se entendem muito bem e espionagem são ingredientes para fazer um filme bastante interessante; no entanto, em se tratando de Watergate, naquela época, a única saída que Pakula tinha era colocar um tempero especial na incrível receita, criando uma obra cinematográfica tão vivaz e contundente para entrar para a história do cinema definitivamente. Dito e feito. Todos os Homens do Presidente redefiniu o conceito de cinema político. Se sem o caso Watergate não existiria Todos os Homens do Presidente, a recíproca é verdadeira: sem Todos os Homens do Presidente, não existiria o caso Watergate como o conhecemos atualmente.

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