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    Festival de Cannes 2015: A delicadeza de Naomi Kawase e o horror da Segunda Guerra Mundial
    Por Francisco Russo — 14 de mai. de 2015 às 18:27

    AN e Saul Fia foram os destaques do dia.

    Dia de extremos no Festival de Cannes. Após um início avassalador com a exibição do vibrante Mad Max: Estrada da Fúria, chegou a vez de dois filmes bem antagônicos.

    O primeiro deles foi o simpático AN, da diretora japonesa Naomi Kawase (que concorreu à Palma de Ouro no ano passado, por O Segredo das Águas). Filme de abertura da mostra Un Certain Regard, a segunda mais importante do festival, o longa-metragem acompanha o relacionamento entre um vendedor de dorayaki (um doce tipico japonês) e uma senhora de 76 anos, que tenta a vaga de ajudante na pequena lanchonete. A resistência inicial cai por terra quando ela lhe entrega um pouco da pasta utilizada no recheio do doce, o tal AN do título, bem mais saborosa que a utilizada até então.

    Por mais que a trama inicial seja batida - vários são os filmes já feitos onde a comida é o meio para mudar a vida das pessoas -, AN cativa pelo modo suave conduzido pela diretora e pela atuação de Kirin Kiki, a velhinha da história. Repleto de belas paisagens com as emblemáticas cerejeiras, o longa-metragem traz uma certa crítica implícita ao mercantilismo existente na comercialização em larga escala de alimentos e aborda, de forma oportuna, a questão do preconceito no Japão.

    Bem mais acessível ao grande público do que O Segredo das Águas, AN pode ser classificado como um feel good movie. Algo bem diferente de Saul Fia, exibido na tarde de hoje.


    Géza Röhrig, protagonista de "Saul Fia"

    Selecionado para a mostra competitiva, o longa-metragem é também a estreia do diretor húngaro Laszlo Nemes no formato. A história acompanha um homem judeu que, em pleno campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, trabalha (forçado) como sonderkommando - os judeus separados dos demais para carregar os corpos dos prisioneiros e ainda cremá-los, após passarem pelas câmaras de gás. Ou seja, não há o menor espaço para qualquer tipo de amenidade.

    Com uma proposta estética bem rigorosa, onde a câmera ou está focada no rosto do Saul do título ou apresenta o que ele vê, o longa acompanha os horrores da guerra sob o olhar de quem a vivencia, dia após dia. O semblante sempre empedernido é algo inevitável para suportar a tragédia diária e o fato de, apesar de obrigado, participar de alguma forma da matança generalizada.

    Diante de tal proposta, Saul Fia oferece um considerável desafio a Géza Röhrig, intérprete do personagem principal, já que ele está praticamente em todas as cenas. A tensão do local é transmitida muito pelo que acontece à sua volta e o próprio desespero transmitido, contido em sua ausência de liberdade, quando precisa encontrar algum meio de recolher o corpo do próprio filho e enterrá-lo. Um desempenho que o coloca entre os possíveis candidatos ao prêmio de melhor ator deste ano - mas, é sempre bom relembrar, 17 filmes da mostra competitiva ainda serão exibidos. Ou seja, ainda há muito para acontecer (e especular) em relação aos possíveis premiados deste ano.

    Amanhã é dia de conferir mais dois candidatos à Palma de Ouro: The Lobster, de Yorgos Lanthimos, e The Sea of Trees, de Gus Van Sant. Nossa opinião sobre ambos você poderá conferir aqui mesmo, no AdoroCinema.
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