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    Exclusivo: Diretor de O Duelo fala sobre tom fantástico de um dos últimos filmes com José Wilker
    Por Renato Hermsdorff — 17 de mar. de 2015 às 14:25

    Depois do premiado “Estômago”, Marcos Jorge retorna aos cinemas brasileiros com longa baseado na obra de Jorge Amado - cujo projeto já havia circulado até por Hollywood.

    Baseado na obra “Os Velhos Marinheiros”, de Jorge Amado, O Duelo traz, de um lado, Joaquim de Almeida, o ator português de O Xangô de Baker Street, com boa entrada em Hollywood (Perigo Real e Imediato, A Balada do Pistoleiro) e na TV norte-americana (Revenge, Once Upon A Time), como Vasco Moscoso, o navegante cheio de histórias para contar.

    No lado oposto do corner, José Wilker, o eterno Vadinho de Dona Flor e seus Dois Maridos (Jorge Amado de novo), o Antônio Conselheiro de Guerra de Canudos, o Zeca Diabo de O Bem Amado, um dos atores mais prolíficos do Brasil, em um de seus últimos papéis, como o enciumado Chico Pacheco, cujo objetivo é desmascarar o pomposo capitão-de-longo-curso.

    É nessa dualidade que o cineasta Marcos Jorge aposta em seu mais novo longa-metragem, que estreia no próximo dia 19, navegando em efeitos especiais. O diretor do premiado Estômago (cinco estatuetas no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, incluindo melhor filme e diretor; melhor filme pelo júri popular no Festival do Rio) conversou com o AdoroCinema sobre a demora no lançamento de O Duelo, o interesse inicial de Hollywood pela história, Wilker, distribuição no Brasil... Sem histórias de pescador, confira os principais trechos:

    Jorge dirige Wilker.
    AdoroCinema: A Warner comprou os direitos de filmagem de “Os Velhos Marinheiros” pouco depois da publicação do livro em 1961. E você entrou no projeto em 2009. Por que essa demora?


    Marcos Jorge: O projeto já existia, com um roteiro escrito pelo Frank Pierson, que foi presidente da Academia [de Artes e Ciências Cinematográficas entre 2001 e 2005] e escreveu Um Dia de Cão [Oscar de melhor roteiro em 1976]. Esse roteiro foi escrito, acredito, nos anos 1970, e teve um percurso lá dentro da Warner [internacional]. Mas talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar sobre isso. Acredito que [a demora] tenha sido por uma série de razões. Existe até uma certa lenda por trás desse projeto, que provavelmente não estava maduro para ser feito.

    Que tipo de liberdade você tomou com a adaptação? O filme não foi filmado na Bahia. Você alterou o tempo em que a história acontece também...

    Eu alterei o tempo e o espaço por questões de modernidade, para atualizar um pouco a história, que eu deixei mais fabular, digamos assim. [Como se o roteiro fosse] Mais uma história sobre essas histórias contadas pelo Vasco Moscoso. Eu tive que fazer algumas simplificações em alguns aspectos do romance, o que é sempre uma necessidade quando se adapta um romance longo para a tela, mas eu fui bastante fiel ao cerne da história.

    Como foi o trabalho dos efeitos especiais?

    O filme tem muitos efeitos especiais, mas eles são narrativos, me ajudam a contar a história. Eles foram escritos primeiro e depois planejados e desenhados para envolver o espectador como o personagem envolve os seus espectadores nas histórias que ele conta.

    Jorge dirige Almeida.
    O Wilker é muito lembrado, no cinema, por um papel baseado na obra do Jorge Amado (Dona Flor e Seus Dois Maridos) e O Duelo, um dos últimos filmes de que participou, também é baseado em um livro do escritor. Como foi trabalhar com ele?


    Parte do que me levou a pensar no Wilker para o personagem do Chico Pacheco foi o trabalho dele como Vadinho, que eu acho antológico. Então, enquanto eu escrevia o roteiro, eu já pensava nele, mesmo porque a personalidade de muitos dos personagens do Wilker correspondiam ao que o Jorge Amado definia para o Chico Pacheco. De fato, quando eu apresentei o convite ao Wilker, ele naturalmente conhecia a história e concordou comigo que seria uma bela coisa viver o personagem. Tanto que, assim que ele leu o roteiro, aceitou na hora. E trabalhar com ele foi muito bom. Porque é um trabalho muito harmônico, ele foi muito colaborativo, era extremamente disciplinado, a gente pôde contar com ele sempre. E não foram simples as filmagens, porque envolvia efeitos especiais, mas só tenho elogios a ele.

    Estômago foi um sucesso e o seu filme seguinte, Corpos Celestes, não está presente no imaginário das pessoas. A que você atribui isso e como está sendo pensada a estratégia de lançamento do O Duelo?

    Corpos Celestes foi pouco visto mesmo. Ele foi rodado antes do Estômago e acabou saindo depois, por questões de pós-produção, de finalização – ele também teve uma finalização meio pesada –, por questões do cinema brasileiro, questões financeiras. Então, de certa forma, o Corpos Celestes foi sufocado pelo Estômago. Eu acredito que se ele tivesse saído na ordem natural, ou seja, antes, ele teria tido uma relevância maior. Mas uma das razões que também impacta o filme é que depende de como ele é distribuído.

    O Estômago foi um grande sucesso, mas ele começou pequenininho e foi crescendo com o passar do tempo. Ele foi distribuído em muitos outros países com muito mais cópias do que no Brasil, por exemplo. A coincidência [de lançamento] com um superlançamento americano pode relegar o filme brasileiro ao limbo, e uma semana antes ele não seria relegado. O Duelo é um filme sui generis no cinema brasileiro. Ele tem alguns pontos de comédia, mas não é uma comédia rasgada; é um filme dramático, tem momentos emocionantes, sem dúvida, e tem um toque fantástico que, embora seja muito comum na literatura sul-americana e brasileira, ele pouco entrou no nosso cinema.

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