De modelo favorita de Coco Chanel a ícone do teatro no Brasil: A extraordinária vida de uma mulher à frente de seu tempo [Entrevista]
por Aline Pereira

A Extraordinária Vida de Vera Valdez celebra arte e autenticidade: conversamos com o diretor Fábio Meira sobre o documentário que estrou na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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Enquanto trabalhava Tia Virgínia, lançado em 2023, o diretor Fabio Meira estreitou os laços com uma figura que viria a lhe render mais um filme anos depois: Vera Valdez, uma das pioneiras da moda brasileira no cenário internacional (e queridinha de Coco Chanel), uma das artistas mais importantes da história do Teatro Oficina, atriz de cinema (A Avó, As Cariocas) e, talvez, acima de tudo, uma mulher destemida, autêntica e, por que não, chiquérrima.

É no balanço entre uma trajetória de profissional de destaque e uma história pessoal repleta de grandes acontecimentos que o documentário A Extraordinária Vida de Vera Valdez nos apresenta a uma personagem inspiradora na coragem de ser muito e na habilidade de navegar pela vida com leveza e resistência na mesma medida. “Para mim, é simples. O desejo é mais forte”, diz a artista em uma das cenas.

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ADOROCINEMA: Foi em Tia Virgínia que houve algum momento específico em que você teve o clique de “vou fazer um filme sobre a Vera”?

FABIO MEIRA: Na verdade, foi depois do filme. Na verdade, acho que um pouco ali porque filmamos Tia Virgínia em 2020 e continuei convivendo com a Vera. A gente sempre conversou muito e tudo mais. Ali veio a vontade. Eu falei: “A Vera tem tanta história, é uma figura tão fantástica que merece um filme. Tem que ter um filme sobre ela e até surpreende que já não houvesse. Então, dali surge a vontade e na primeira vez que conversamos sobre Tia Virgínia, deu o match, digamos assim.

Toda a convivência com a Vera foi muito interessante durante a filmagem. Uma mulher muito culta, lia um livro por semana ali nas filmagens. Quando a gente acordava no dia de folga, ela já tinha lido os dois jornais que tinham no hotel. Realmente muito única e extraordinária, como o título do filme.

E quando você disse a ela que queria fazer um filme, como foram as primeiras reações?

Ela topou na hora.

Quem foi Vera Valdez? Documentário relembra vida e obra marcantes da artista

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Vera Valdez nasceu no Rio de Janeiro em 1936 e no início dos anos 50 deslanchou na carreira de modelo. Primeiro, foi manequim da designer italiana Elsa Schiaparelli, depois, passou a desfilar para grifes famosas, tendo Christian Dior como um grande destaque. Nesse ramo, é especialmente interessante a relação que Vera desenvolveu com Coco Chanel.

A brasileira, sim, se tornou uma das modelos favoritas da estilista, mas a relação foi muito além e elas viviam momentos afetuosos e familiares na mesma medida em que tinham seus arranca-rabos de vez em quando, tanto pela rigidez de Chanel, quanto pela personalidade pouco obediente de Vera.

Essa passagem, para mim, é um dos pontos altos do documentário: A Extraordinária Vida de Vera Valdez também traz um retrato geral da alta-costura da época, com bastidores nem tão glamurosos quanto as passarelas – tudo isso com uma sequências de fotografias bem escolhidas pelo documentário e narrado com o humor elegante, mas afiado, de quem conheceu tudo por dentro.

Mais tarde, Vera, que sempre teve um pé no universo da atuação, começou a trabalhar também como atriz no cinema e na televisão. Foi no Teatro Oficina, entretanto, em que ela parece ter se encontrado verdadeiramente. Assistindo ao filme, é prazerosa a experiência de acompanhar o espírito artístico que persistiu nela, especialmente após viver os horrores da ditadura. Não sou atriz, é claro, mas penso que o documentário deve agradar quem têm alguma ligação com o ofício e com trabalhos criativos de forma geral pela linha peculiar que Vera seguiu na área.

ADOROCINEMA: Não sei se é possível retratar tudo o que uma pessoa é em um filme, então imagino que algumas escolhas precisaram ser feitas. Como foi esse processo para você?

FABIO MEIRA: Tem histórias fantásticas que ficaram de fora, com Marlon Brando, com Caetano, mas sempre tivemos o foco na emoção, com histórias que mantinham a emoção alta durante todo o filme. Acho que tem uma parte que é muito importante [que não poderia faltar], embora muito dolorida, que é a prisão e tortura na ditadura. Isso realmente não poderia ficar de fora. Não poderia faltar o Teatro Oficina e o Zé Celso, nem a história com a Chanel.

E como o personagem retratado no filme influencia suas escolhas criativas? Como usou a imagem para contar a história da Vera?

Estamos retratando subjetividades, né? Então, qual é a subjetividade daquele personagem? Como são as cores, os movimentos, como é a luz? Sempre penso assim. Então, o trabalho que fiz junto com a Heloisa Passos, fotógrafa do filme, é justamente pensar nas imagens a partir da subjetividade da Vera, que era uma mulher muito delicada, elegante e muito ousada, né?

O que você aprendeu com ela durante o documentário? Houve algo que você descobriu só quando foi montar o filme?

Uma coisa que certamente aprendi com a Vera, e já tinha começado a aprender em Tia Virgínia, foi a importância de levar a vida com humor. A alegria realmente é prova dos nove. Então, quanto mais a gente brinca, quanto mais a gente é leve na vida, melhor essa vida é vivida e compartilhada. Outra coisa importante foi a integridade artística. Ela nunca deixou de ser quem era para se adaptar ou agradar outras pessoas. Sempre ela mesma, custe o que custar. No fim das contas, é essa autenticidade que acaba fazendo a nossa história.

Vera Valdez foi uma mulher à frente do tempo dela - e do nosso também

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Enquanto assistia ao documentário, comecei a pensar que se a história da vida de Vera tivesse começado agora, em 2026, ela ainda assim seria considerada uma figura fora da curva. O discurso dela, reforçou o diretor em nossa conversa, ainda é muito atual no sentido de mostrar que a liberdade de pensamento e de individualidade são direitos pelos quais é preciso lutar incansavelmente.

A artista, que, claro, também sofreu limitações políticas e sociais da época, aparece no documentário desafiando regras que, até hoje, não foram completamente desfeitas. Não vou dar spoilers, é claro, mas o posicionamento de Vera em relação à liberdade romântica e sexual das mulheres, além da independência feminina, são questões de que tratamos ainda hoje. E suspeito que, 80 anos depois, ela ainda faria muita gente torcer o bico.

Por fim, a questão do envelhecimento também permaneceu na minha mente durante todo o documentário. É inevitável que o avanço da idade torne o corpo cada vez mais frágil, mas o pensamento e a postura diante da vida caminham em um ritmo próprio. Com lucidez e leveza até o final de sua jornada, em janeiro de 2026 aos 89 anos, A Extraordinária Vida de Vera Valdez me fez pensar no final do caminho não como um lamento, mas como a celebração de uma história muito bem vivida.

ADOROCINEMA: Como você colocou no filme a questão do envelhecimento do corpo em oposição ao espírito que se mantém muito vivo?

FABIO MEIRA: De repente é isso: é uma morte que vira vida, né? Em nenhum momento o filme é melancólico, triste. Acho que isso é a energia vital que a Vera sempre teve. Isso que eu acho que é essencial na história dela. A Vera é sobretudo um exemplo de liberdade e de autenticidade. Então, esse eu acho que é o grande o grande legado dela, a grande mensagem do filme.

Quando se decide não seguir um padrão social, há um preço a se pagar, mas ao mesmo tempo há a recompensa. Ela tinha consciência de que essa força era capaz de transformar o mundo também e lutava por isso. Então, eu acho que esse é um aceno que a Vera faz para os espectadores.

A Extraordinária Vida de Vera Valdez
A Extraordinária Vida de Vera Valdez
Data de lançamento 1 de outubro de 2026
Criador(es): Fabio Meira

A Extraordinária Vida de Vera Valdez estreou no 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e chega aos cinemas em 2027.

Aline Pereira
Aline Pereira
-Editora-chefe | Crítica
Jornalista que ama boas histórias e combina a paixão por cinema e TV com comunicação para mergulhar ainda mais nos universos e personagens que já fazem brilhar os olhos. Pipoca, terror, dramédia e uma pitada de reality são a receita perfeita para todos os dias.
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