S. S. Rajamouli revela como manter o público interessado em filmes de mais de 3 horas (Entrevista)
por Paulo Ernesto

Diretor de RRR compartilha uma lição que aprendeu com o pai e explica por que acredita que a duração não é o verdadeiro problema dos filmes.

Um dos maiores nomes do cinema indiano, S. S. Rajamouli está no Brasil como convidado da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Conhecido por suas produções grandiosas, que misturam ação, drama, romance e números musicais, o cineasta veio receber o Prêmio Leon Cakoff e participar de uma sessão especial de RRR: Revolta, Rebelião, Revolução seguida de uma masterclass com o público.

Lançado em 2022, RRR se tornou um fenômeno internacional. A produção arrecadou mais de US$ 166 milhões nas bilheterias mundiais e conquistou o Oscar de Melhor Canção Original em 2023, com Naatu Naatu, superando músicas de Lady Gaga e Rihanna.

Em entrevista ao AdoroCinema, Rajamouli falou sobre a surpreendente recepção internacional de RRR, explicou por que acredita que filmes com mais de três horas ainda conseguem prender a atenção do público e refletiu sobre os desafios de levar as pessoas de volta aos cinemas.

Confira a entrevista:

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ADOROCINEMA: RRR vai ganhar uma exibição especial no Brasil. Quatro anos depois do lançamento, o que ainda surpreende você na reação do público ao filme?

S. S. RAJAMOULI: É algo que continua me deixando muito feliz. Fizemos o filme pensando no público indiano, tanto na Índia quanto em outros países. Mas, quando começamos a ver as reações de pessoas de diferentes partes do mundo, foi uma surpresa maravilhosa.

Vimos como o público reagiu no Japão e na França e aquilo nos deixou muito felizes. Depois, acompanhei as sessões nos Estados Unidos. Imagine ver os americanos levantando das poltronas e dançando pelos corredores do cinema! Que cineasta não ficaria feliz com uma coisa dessas?

E estou falando de pessoas assistindo ao filme nas salas de cinema, não em casa, pelo streaming. Agora vamos ter essa exibição no Brasil, e estou muito ansioso para ver como o público brasileiro vai reagir.

ADOROCINEMA: Seus filmes misturam ação, drama, comédia e dança. Como você consegue equilibrar tantos elementos diferentes sem perder seu estilo como diretor?

S. S. RAJAMOULI: Esse é o meu estilo, mas não é algo só meu. Na Índia, sentimos que um filme não está completo se não reunir diferentes emoções.

As histórias já são pensadas dessa forma. Tentamos incluir de tudo: amor, romance, raiva, grandes emoções, espetáculo... Queremos colocar tudo isso em um mesmo filme. Foi assim que crescemos acompanhando histórias quando éramos crianças, então é natural que essa também seja a maneira como gostamos de fazer cinema.

Na Índia, é muito raro encontrar filmes que se prendem a um único gênero. Normalmente, misturamos vários deles em uma mesma história e comigo não é diferente.

ADOROCINEMA: Muito se fala sobre como o público está perdendo a capacidade de concentração, mas seus filmes costumam ter mais de três horas de duração. Qual é o segredo para manter os espectadores envolvidos durante tanto tempo?

S. S. RAJAMOULI: Encurtar os filmes definitivamente não é a solução. Se um filme for chato, em 5 ou 10 minutos as pessoas já vão pegar o celular. Então, o problema não é a duração.

Meu pai é roteirista e escreveu as histórias de muitos dos meus filmes. E ele me ensinou uma coisa muito importante no começo da minha carreira.

Ele dizia que você tem 15 minutos para conquistar o público. Nesse tempo, precisa prender a atenção das pessoas, fazer com que elas se interessem pela história e se importem com os personagens. Se conseguir fazer isso, o público vai continuar com você. Mesmo que o filme tenha algum momento mais lento, as pessoas vão relevar. Claro que isso também não pode se prolongar demais.

Foi o que meu pai me ensinou há uns 30 anos. Talvez hoje o público não nos dê mais esses 15 minutos. Talvez tenhamos só cinco ou dez.

Mas a ideia continua sendo a mesma, você precisa conquistar a atenção das pessoas, despertar o interesse pela história e criar uma conexão emocional com os personagens.

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ADOROCINEMA: Os brasileiros adoram novelas, com grandes emoções e dramas familiares, elementos que também estão muito presentes nos seus filmes. O que o cinema brasileiro poderia aprender com o cinema indiano para atrair mais pessoas às salas de cinema?

S. S. RAJAMOULI: Seria muita pretensão da minha parte responder a isso. Não conheço a cultura brasileira, as pessoas ou a língua o suficiente para fazer uma análise desse tipo.

Mas, falando de uma maneira mais geral, o ser humano é um ser social. Gostamos de estar juntos. É por isso que temos festivais, shows, eventos esportivos... As pessoas gostam de se reunir para compartilhar experiências. E o cinema é um dos melhores lugares para fazer isso.

Você coloca uma emoção na tela e reúne várias pessoas para vivenciar aquele sentimento ao mesmo tempo. Todo mundo compartilha aquela experiência. Para mim, essa é uma das coisas mais bonitas do cinema. Por isso, acredito que sempre haverá espaço para as salas de cinema.

Se as pessoas não estão indo ao cinema, talvez estejamos fazendo alguma coisa errada. Talvez estejamos dificultando demais essa experiência. Pode ser por causa do trânsito, do preço dos ingressos ou de algum outro problema. Talvez a questão não seja o cinema em si, mas tudo o que envolve a experiência de ir até lá.

E não estou falando especificamente do Brasil. Acho que isso vale para qualquer lugar do mundo.

ADOROCINEMA: Existe alguma coisa que você sempre quis fazer em um filme, mas teve receio de que o público não aceitasse?

S. S. RAJAMOULI: Sempre fiz o que tive vontade de fazer. Mas também sei que meus filmes são assistidos por um público muito amplo, que vai desde crianças até pessoas mais velhas.

Então, existem certas coisas que não posso fazer porque poderiam deixar uma parte desse público desconfortável. Isso acaba impondo alguns limites à minha criatividade. Mesmo assim, de vez em quando tento ir um pouco além, testar esses limites.

De certa forma, sou eu mesmo que estabeleço essas restrições, porque tenho consciência de quem está assistindo aos meus filmes. Mas, fora isso, nunca aconteceu de eu querer fazer alguma coisa e desistir durante o processo de escrita por medo da reação do público.

O que acontece é que, depois que o filme estreia, sempre aparece alguém que se ofende com alguma coisa, reclama de uma cena ou faz algum tipo de crítica. E aí começam todas aquelas discussões. Mas isso faz parte, é algo que acontece depois que o filme está pronto.

ADOROCINEMA: Nos últimos anos, filmes indianos e brasileiros conquistaram grande destaque no Oscar. Você acredita que Hollywood está realmente mais aberta ao cinema de outros países ou esses sucessos ainda são exceções?

S. S. RAJAMOULI: Não conheço tão bem o funcionamento da Academia ou como são feitas as escolhas, então só posso falar da impressão que tenho.

Mas acho que, nos últimos anos, houve uma abertura maior para o cinema de outros países. Parece que existe uma compreensão maior de que há diferentes culturas, diferentes maneiras de contar histórias e diferentes técnicas de fazer cinema pelo mundo.

Tenho a sensação de que a Academia está um pouco mais aberta hoje do que era no passado.

ADOROCINEMA: Naatu Naatu venceu músicas de Lady Gaga e Rihanna no Oscar. Naquela noite, você chegou a se sentir como uma estrela pop?

S. S. RAJAMOULI: Com certeza! Nós nos sentimos no topo do mundo, não tenho a menor dúvida disso.

Viemos de um país a milhares de quilômetros de distância, de uma indústria cinematográfica relativamente pequena, e conseguimos chegar tão longe, até conquistar um dos prêmios mais cobiçados do cinema. Foi um momento de muita emoção para todos nós.

Mas, no meio de toda aquela felicidade, uma coisa que ficou muito marcada para mim foram as palavras de incentivo de Rihanna e Lady Gaga para os nossos cantores. Até nos bastidores, elas foram muito carinhosas e demonstraram uma admiração enorme pelo nosso pessoal.

Aquilo me fez perceber como é importante manter a humildade, mesmo quando conquistamos algo tão grandioso.

RRR: Revolta, Rebelião, Revolução
RRR: Revolta, Rebelião, Revolução
Data de lançamento 20 de agosto de 2026 | 3h 07min
Criador(es): S.S. Rajamouli
Com Ram Charan, Alia Bhatt, Ray Stevenson
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Entrevista feita durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Paulo Ernesto
Paulo Ernesto
-Crítico
Cineasta com curtas-metragens premiados, atua também como redator, repórter e criador de conteúdo multiplataforma, assinando críticas sobre cinema e séries e cobrindo eventos e premiações como Oscar, Globo de Ouro e o Festival de Cannes.
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