Em 2020, Parasita fez história ao se tornar o primeiro filme de língua não-inglesa a vencer o Oscar de Melhor Filme e mais três estatuetas na premiação. Anos depois, A Bola Preta, o representante da Espanha para o Oscar 2027 tem todo o potencial de repetir o feito de Bong Joon-ho e ganhar tanto Melhor Filme Internacional quanto a categoria principal da maior noite do cinema mundial.
La Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, chega ao Brasil como a Gala de Abertura do Festival do Rio 2026 após fazer uma campanha triunfal no circuito internacional de festivais de cinema. O longa-metragem espanhol foi finalista na competição do Festival de Cannes e saiu de lá com a Palma de Melhor Direção, prêmio também conquistado por Kleber Mendonça Filho no ano passado.
A partir de sua estreia mundial na França, o longa-metragem assinado por "Los Javis" ganhou o Prêmio do Público de Melhor Filme em Sydney, Toronto e San Sebastián. Porém, mais importante do que os troféus, A Bola Preta e Parasita compartilham a semelhança de serem aplaudidos e elogiados pelo público com convicção.
A Bola Preta é "tudo isso mesmo" que estão dizendo por aí?
Paris Filmes
Tive o privilégio de ver A Bola Preta no Cine Odeon e sinto que o filme tem a monumentalidade que telona do histórico cinema art déco da capital carioca exige. Então, sim, categoricamente, ele "é tudo isso mesmo"!
A trama inspirada obra inacabada homônima de Federico García Lorca e na peça "La piedra oscura", de Alberto Conejero, é puxada por três linhas temporais diferentes — em 1932, 1937 e 2017 — para revelar progressivamente os pontos de contato entre as vivências de três homens gays: Carlos (Milo Quifes), Sebastián (Guitarricadelafuente) e Alberto (Carlos González). Mesmo separados por gerações e contextos históricos, as narrativas se conectam por dilemas sobre desejo, memória, identidade e legado.
Algo que me fascina é que tanto La Bola Negra quanto Parasite, apesar de serem produções completamente distintas, são demonstrações de autoralidade. Os diretores de ambos os longas deixam claro o que pensam, do que têm raiva e o que querem para o mundo através dos diferentem componentes de suas obras. Enquanto o thriller coreano lança mão da sátira social, o drama histórico espanhol utiliza a poesia como canal de comunicação.
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É nítido aqui que Calvo e Ambrossi inserem seus pontos de vista no roteiro de uma maneira bem franca para com o espectador. Mesmo em toda a sua grandeza, La Bola Negra não perde a honestidade, algo que faz com que os cenários, trilha sonora e fotografia suntusos (e belíssimos) complementem o diálogo, ao invés de atropelar a mensagem que os cineastas querem passar.
Em meio a uma indústria guiada por receitas pasteurizados para o sucesso, o público está faminto por subjetividade. Quem compra um ingresso e entra numa sala de cinema quer ser comovido não por gatilhos emocionais prontos, mas sim por vulnerabilidade. É isso que distancia um blockbuster (ou só mais um vencedor do Oscar que ninguém lembra) dos grandes clássicos que fazem história na premiação e deixam sua marca na sétima arte.
Acredito que Los Javis possuem esse compromisso com o público e com a arte, demonstrando todo o potencial para entrarem no hall das obras-primas ao lado de Bong Joon-ho.
A Bola Preta faz parte da programação do Festival do Rio 2026, que acontece no Rio de Janeiro entre 1 e 11 de outubro, e está previsto para estrear no circuito comercial de cinemas brasileiros em 27 de janeiro de 2027.