"Eu odeio": Ele dirigiu 3 dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos, mas não é nem um pouco fã do gênero
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Nas décadas de 1980 e 1990, ele dirigiu três grandes clássicos da ficção científica. Pessoalmente, no entanto, o cineasta não tinha o menor interesse pelo gênero. Entenda como essa combinação improvável funcionou nesta matéria.

Paul Verhoeven construiu uma das carreiras mais incomuns de Hollywood. Com obras provocantes como Louca Paixão ou Sem Controle, o diretor holandês chamou a atenção internacional nas décadas de 1970 e 1980, até que seu suspense erótico com toques de film noir, O Quarto Homem (1983), atraiu os grandes estúdios norte-americanos — afinal, o longa provou que Verhoeven também era um excelente artesão do cinema de gênero.

Apenas dois anos depois, seguiu-se sua primeira produção em língua inglesa: o épico medieval niilista Conquista Sangrenta, estrelado por seu ator recorrente Rutger Hauer e por Jennifer Jason Leigh. Embora o longa tenha sido um grande fracasso de bilheteria, Hollywood não perdeu a confiança no talento de Verhoeven. Pouco tempo depois, o roteiro de RoboCop - O Policial do Futuro desembarcou em sua mesa, o ponto de partida para uma trilogia informal de clássicos da ficção científica. Diante disso, é surpreendente descobrir que Verhoeven não tinha, na verdade, o menor interesse pelo gênero…

RoboCop - O Policial do Futuro
RoboCop - O Policial do Futuro
Data de lançamento 7 de outubro de 1987 | 1h 43min
Criador(es): Paul Verhoeven
Com Peter Weller, Nancy Allen, Dan O'Herlihy
Usuários
4,2
Assista agora no Prime Video

Assim como seus colegas de direção David Cronenberg (A Mosca), Alex Cox (Repo Man) e Monte Hellman (Corrida Sem Fim), para quem o roteiro de RoboCop também havia sido oferecido anteriormente, Verhoeven recusou a proposta logo de cara por causa do título aparentemente bobo, jogando o manuscrito direto na lixeira. Foi de lá que sua esposa, Martine Verhoeven, o resgatou, percebendo rapidamente o potencial da história sobre um policial assassinado que renasce como um ciborgue. Ela convenceu o marido a lê-lo e, apesar do ceticismo inicial, Verhoeven logo embarcou no projeto.

Paul Verhoeven não tinha vontade nenhuma de fazer RoboCop

Sua contratação acabou se provando um golpe de sorte tanto para o estúdio quanto para o próprio diretor. Os produtores deram a Verhoeven ampla liberdade criativa na execução e ele usou essa autonomia para transformar o material em uma sátira ácida sobre o poder corporativo e a mídia, além de uma reflexão sobre a identidade humana. Paralelamente, ele elevou o nível de violência visual ao extremo. A aposta arriscada se pagou: RoboCop não apenas foi aclamado pela crítica, como também se tornou um estrondoso sucesso de bilheteria. Nos anos seguintes, surgiram duas sequências, nas quais Verhoeven não teve qualquer envolvimento.

Orion Pictures

Aliás, chama a atenção a forma orgânica como a subversão e o cinema de gênero se entrelaçam na obra, afinal, RoboCop também pode ser apreciado simplesmente como uma ação de ficção científica visceral e extraordinariamente bem-sucedida em termos visuais. O mesmo vale para Tropas Estelares (1997), outro longa que preserva todo o seu impacto e vigor nas telas até hoje.

Tropas Estelares: incompreendido na época, cult hoje em dia

Neste caso, porém, a recepção histórica foi diferente: enquanto a lenda do cinema francês Jacques Rivette já reconhecia a profundidade do filme na época, inúmeros críticos acusaram a produção de glorificar o militarismo e adotar uma estética fascista.

Foi apenas com o passar dos anos que se consolidou a interpretação de que Verhoeven usava conscientemente elementos propagandísticos para expor seus mecanismos de sedução em meio a um blockbuster (novamente extremamente violento) de humanos contra insetos alienígenas. Eu me posiciono em algum lugar no meio termo: para mim, uma das virtudes de Tropas Estelares é satirizar o patriotismo e o belicismo, ao mesmo tempo em que aproveita o próprio espetáculo visual resultante disso, permanecendo, até certo ponto, propositalmente ambíguo.

TriStar Pictures / Touchstone Pictures

O terceiro projeto de Sci-Fi de Verhoeven passou 20 anos em desenvolvimento

Entre RoboCop e Tropas Estelares, Verhoeven dirigiu ainda um terceiro filme de ficção científica que hoje é considerado um dos maiores marcos do gênero: trata-se, claro, de O Vingador do Futuro (1990), estrelado por Arnold Schwarzenegger, uma adaptação livre do conto de Philip K. Dick, Lembramos Para Você a Preço de Atacado. O filme se passa no ano de 2084 e acompanha o operário de construção Douglas Quaid, que decide implantar memórias artificiais de férias em Marte e acaba se envolvendo em uma perigosa conspiração.

Antes de Verhoeven assumir a direção, o projeto já estava em desenvolvimento há quase duas décadas. De qualquer forma, a longa espera valeu a pena: O Vingador do Futuro também foi um sucesso estrondoso de bilheteria e recebeu a rara nota máxima de cinco estrelas na crítica oficial dos nossos colegas do FILMSTARTS.

Carolco Pictures

A declaração polêmica

Verhoeven foi responsável por nada menos que três grandes obras-primas do gênero — diante disso, é surpreendente notar que o diretor de Benedetta afirma não se importar nem um pouco com a ficção científica. Em entrevista ao Ain't It Cool News, ele confessou:

Pra falar a verdade, não sou nem um pouco fã de ficção científica. Sendo honesto: eu odeio ficção científica

Ele explicou que só dirigiu tantas produções do tipo "porque os outros projetos que me ofereciam eram ainda piores" (via Far Out Magazine).

Tropas Estelares
Tropas Estelares
Data de lançamento 27 de fevereiro de 1998 | 2h 15min
Criador(es): Paul Verhoeven
Com Casper Van Dien, Dina Meyer, Denise Richards
Usuários
3,8
Assista agora no Disney +

Ao mesmo tempo, ele revelou que RoboCop, Instinto Selvagem e Tropas Estelares são os únicos filmes norte-americanos de sua carreira aos quais ele realmente se orgulha de assinar: "o restante foi consideravelmente pior". Na época, dificilmente alguém discordaria dele: Showgirls, lançado em 1995 e protagonizado por Elizabeth Berkley, recebeu críticas avassaladoras e se tornou um desastre nas bilheterias. Hoje em dia, porém, o filme foi parcialmente reabilitado.

Giovanni Rodrigues
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).
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