Adaptações com atores reais continuam sendo uma tarefa delicada. A Disney sabe disso melhor do que ninguém: A Pequena Sereia, Branca de Neve, O Rei Leão e agora Moana geraram enormes debates entre aqueles que adoram revisitar seus clássicos e aqueles que acham que algumas histórias funcionaram melhor em animação. Não é fácil transformar um filme adorado em uma versão com atores reais sem que metade da internet o critique.
Com Moana, o desafio foi ainda mais incomum, porque não estamos falando de um clássico distante dos anos 90, mas de um filme relativamente recente. Para muitos, a versão original ainda parece atual, com suas músicas, o oceano e Dwayne "The Rock" Johnson como Maui. Então, se a nova versão com atores reais não te conquistou completamente, mas você ainda gosta desse tipo de adaptação, existe outro filme que soube dar esse salto muito melhor.
Como Treinar o Seu Dragão: O live-action que surpreendeu o mundo
Estou falando de Como Treinar o Seu Dragão, adaptação em live-action baseada no filme de animação de 2010. Dirigido por Dean DeBlois, mesmo cineasta da trilogia original, a história reintroduz Soluço, um jovem viking que não se encaixa nas expectativas de seu povo, e Banguela, um Fúria da Noite que acaba mudando para sempre a relação entre humanos e dragões.
Walt Disney Studios
A aposta poderia ter dado muito errado. Como Treinar o Seu Dragão não é uma franquia de animação qualquer: tem uma enorme base de fãs, músicas inesquecíveis e uma amizade central que muitos lembram com genuíno carinho. Mas a versão live-action conseguiu algo que nem todos os remakes alcançam: capturou quase completamente a emoção do original sem parecer uma cópia sem alma.
O filme também teve um ótimo desempenho nas bilheterias. Arrecadou mais de US$ 636 milhões em todo o mundo, um número que confirma que o público realmente gostou desta nova versão. Não foi um experimento menor, nem uma tentativa tímida de reviver uma marca consagrada. Foi um sucesso de bilheteria feito para lembrar a todos que a DreamWorks também possui franquias capazes de competir em grande escala.
A história de Soluço e Banguela ainda funciona
A história perdura porque sua essência permanece intacta. Soluço, interpretado por Mason Thames, não é o típico herói nato, pronto para salvar a todos. Ele é desajeitado, curioso, sensível e muito diferente para uma comunidade que mede a coragem pelo tamanho dos músculos, pelos gritos e pelo número de dragões derrotados. Seu vínculo com Banguela funciona porque não se origina do poder, mas da empatia. Primeiro, ele observa, depois compreende e, então, ousa questionar tudo o que seu povo lhe ensinou.
Esse ponto é fundamental para que o filme não se perca em efeitos visuais. Os dragões são importantes, e Banguela foi concebido para evocar ternura sem parecer uma caricatura. Mas o que realmente impulsiona a história é a ideia de enxergar de forma diferente aquilo que sempre nos disseram que deveríamos temer. Essa é a força de Como Treinar o Seu Dragão: uma grande aventura construída sobre uma amizade simples.
Gerard Butler retorna como Stoico, o pai de Soluço, o que ajuda a conectar a nova versão à trilogia animada. Seu personagem continua durão, imponente e profundamente equivocado em sua compreensão do filho. Nico Parker é Astrid, uma das personagens mais importantes do universo de Berk.
Ao contrário de outras adaptações com atores reais que parecem obcecadas em justificar sua existência, Como Treinar o Seu Dragão não tenta ser excessivamente maduro ou zombar de suas origens animadas. Ele abraça o que foi: uma história de amadurecimento sobre amizade e dragões. Também ajuda o fato de DeBlois conhecer essa história por dentro. Ele é alguém que já entendia a relação entre Soluço e Banguela desde a animação. Seu cuidado é evidente nos pequenos momentos: a primeira aproximação, a confiança hesitante, o medo compartilhado e aquela sensação de que o verdadeiro espetáculo não está apenas em voar, mas em conquistar o direito de fazê-lo juntos.