"Nenhum filme chegou tão longe": Lançado há 67 anos e agora raro, é um dos maiores filmes de guerra já feitos
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Extraordinário retrato de soldados japoneses desesperados durante a Segunda Guerra Mundial, Nobi de Kon Ichikawa é um dos filmes mais sombrios e impressionantes já realizados, abordando um tema amplamente tabu na época.

"A indústria cinematográfica japonesa é talvez a única que ainda pode ser considerada verdadeiramente como uma grande indústria", escreveram, em 1959, Joseph L. Anderson e Donald Richie em seu livro The Japanese Film, que foi uma obra de referência absoluta para os críticos ocidentais.

Nos anos 60, o sexo e a violência explodiram nas telas japonesas, enquanto surgia uma nova geração contestadora que questionava o consenso social e político da era do consumismo. No entanto, o caminho já havia sido consideravelmente aberto pouco antes por autores do calibre de Kon Ichikawa.

"Ele é o mais desconhecido dos diretores conhecidos"

Pertencente à mesma geração de Akira Kurosawa, Kon Ichikawa continua sendo um cineasta bem menos conhecido do que seu ilustre colega ou do que um Masaki Kobayashi. Pouco distribuído na França na época, aquele que era apelidado de o "Frank Capra japonês" — e que venerava tanto Walt Disney quanto Pier Paolo Pasolini — teve uma carreira surpreendente e prolífica, acompanhando a evolução do cinema japonês da época: das comédies inspiradas em Hollywood no pós-guerra aos filmes de prestígio dos anos 50, passando depois por um cinema mais comercial e sob encomenda nos anos 60 e 70.

"Kon Ichikawa é o mais desconhecido dos diretores conhecidos. No entanto, ele dirigiu 80 longas-metragens e continua sendo um cineasta a ser reabilitado", explicou em 2016 Bastian Meiresonne, coautor do Dictionnaire du Cinéma asiatique e diretor artístico do Festival Internacional de Cinemas da Ásia de Vesoul. "Ele era, ao mesmo tempo, um Yes Man [diretor contratado], mas também tinha uma abordagem autoral, com coisas a dizer e imprimindo sua própria visão. Seu filme mais famoso é A Harpa da Birmânia, de 1956, que já era o seu 31º filme".

Daiei Film

Movido por seu humanismo lírico e sua força poética, A Harpa da Birmânia conquistou a admiração não apenas de seus compatriotas japoneses, mais também do público ocidental, que havia descoberto o cinema japonês com Rashomon apenas seis anos antes. A Harpa da Birmânia chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Ao entrar em 1956 para o estúdio Daiei — que se tornara famosíssimo justamente por ter produzido Rashomon —, Kon Ichikawa assinou, dois anos mais tarde, O Templo do Pavilhão Dourado, uma adaptação brilhante da obra considerada inadaptável do renomado escritor nacionalista Yukio Mishima. Em 1959, no auge de sua carreira, Ichikawa entregou duas obras-primas: Kagi e, acima de tudo, o filme de guerra Nobi.

"Perder é perder a identidade e cometer harakiri"

Originalmente, Nobi é baseado em um romance escrito por Shōhei Ōoka e publicado em 1951. Esse autor, que foi crítico literário, professor de literatura e tradutor de romances franceses, reviveu em sua obra as memórias da Segunda Guerra Mundial, onde foi, como milhões de outros, convocado pelas fileiras do exército imperial e enviado ao front nas Filipinas.

"Seu livro expôs uma série de aspectos tabus na cultura japonesa. no Ocidente, não se mensurava o quão terrível a derrota havia sido para os japoneses. Na cultura nipônica, perder é perder a identidade e cometer harakiri", comenta Bastian Meiresonne. "Toda uma geração de jovens autores e cineastas buscaria justamente confrontar a sociedade japonesa com o seu passado e com o mal que ela havia causado".

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A história? Ela se passa em 1945, nas Filipinas. As tropas americanas desembarcaram. Os soldados japoneses, senhores incontestáveis do arquipélago há três anos, são forçados a recuar. Abandonados e entregues à própria sorte, famintos e exaustos, eles só pensam em sobreviver. Um deles, Tamura, separado de seu regimento, vaga de encontro em encontro.

Acometido por tuberculose, ele recebeu ordens de se explodir com a última granada que lhe resta caso o hospital de campanha japonês se recuse a interná-lo. Ao seu redor, tudo se resume a bombardeios, massacres e valas comuns. Em uma atmosfera de fim do mundo, os últimos sobreviventes matam-se uns aos outros para sobreviver, chegando ao ponto de praticar o canibalismo...

O truque para enganar o estúdio

Impactado pelo relato escrito por Shōhei Ōoka, Ichikawa propôs à Daiei fazer uma adaptação, engajando-se então em um braço de ferro com os produtores: o estúdio queria um filme de ação capaz de atrair o público jovem e masculino.

O cineasta usou de astúcia: ele entregou um roteiro coescrito com sua esposa, Natto Wada, que continha cenas espetaculares de batalhas, em total conformidade com as expectativas do estúdio. No entanto, não submeteu à aprovação as cenas muito mais pessoais que pretendia integrar ao filme. O diretor também impôs ao estúdio as filmagens em preto e branco, mesmo quando a cor já havia se tornado um argumento de marketing crucial para a empresa.

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E até impôs o ator principal, Eiji Funakoshi, que era muito mais conhecido por suas comédias populares. Uma enorme aposta de risco: na indústria cinematográfica japonesa da época, os atores raramente saíam de seus registros habituais, muito menos para um papel no extremo oposto do espectro dramático...

Atores privados de comida

Kon Ichikawa era famoso por realizar muitos ensaios antes das filmagens começarem, a fim de agilizar o processo no set. Em Nobi, ele agiu de forma completamente diferente. Ele queria confrontar o elenco com a extrema dureza da história e colocar os atores diretamente na situação, às vezes momentos antes de rodar as cenas.

Ele chegou ao ponto de privar seus atores de comida no set, servindo-lhes às vezes apenas pão e água. Claro, o elenco contava com o acompanhamento de uma equipe médica, mas ainda assim... "Há inclusive uma história sobre isso envolvendo o ator principal, relatada por sua esposa", conta Bastian Meiresonne. "Ele teria desmaiado antes mesmo do primeiro 'gravando!', pois estava se alimentando muito mal há dois meses para conseguir entrar na pele do personagem".

Nessa história de soldados perdidos em uma guerra perdida, que afundam até a degradação máxima ao praticarem o canibalismo, Ichikawa não pôde, contudo, levar seu protagonista ao ponto de consumir carne humana. O subterfúgio que ele encontrou funciona de forma notável e impressionante: o personagem está tão faminto que começa a perder os dentes...

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Uma obra-prima tão rara quanto preciosa

Nobi foi uma das primeiras produções japonesas a abordar de frente vários temas tabus. Quando foi lançado, em 1959, a imprensa americana não gostou nem um pouco do filme. É preciso contextualizar a situação: até 1952, o Japão esteve sob a tutela dos Estados Unidos, que inclusive redigiram a constituição do país no período imediato pós-guerra. No final dos anos 50, os americanos ainda não estavam prontos para ver os japoneses fazendo seu mea culpa. A guerra e suas memórias dolorosas ainda estavam vivas demais nas mentes...

A obra-prima absoluta de Kon Ichikawa acabou tendo várias vidas. Ao longo das décadas, o longa foi amplamente redescoberto e aclamado, especialmente pela crítica americana, como a do Chicago Reader em 1985: "nenhum filme que trata dos hororres da guerra foi tão longe", escreveu o jornalista Dave Kehr em sua coluna sobre a obra.

Com uma visão cruel, pessimista e sem complacência de uma humanidade entregue aos seus instintos mais bestiais, e sublimado pela extraordinária fotografia do diretor de fotografia Kazuo Miyagawa (que confere um caráter onírico a esse inferno alucinante), Nobi é um filme tão raro quanto precioso.

Marco Rigobelli
Marco Rigobelli
Marco é tradutor e redator. Tem uma história pessoal com O Bebê de Rosemary, acha que 10 Coisas que Eu Odeio em Você é um dos maiores filmes já feitos e pode passar horas contando fatos aleatórios sobre O Senhor dos Anéis.
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