Os Demônios, dirigido por Ken Russell, é um daqueles filmes escandalosos dos anos 1970 que parecem inacreditáveis até serem vistos. Assim como Salò ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini, e Pink Flamingos, de John Waters, a produção se tornou um marco do cinema transgressor. No entanto, durante décadas, o público praticamente não teve a oportunidade de assistir ao longa em sua versão original, já que a Warner Bros. disponibilizou apenas uma edição censurada.
Após anos de pedidos dos fãs, essa situação finalmente vai mudar! Depois de uma sessão esgotada em apenas um minuto no mais recente Festival de Cannes, Os Demônios chegará aos cinemas dos Estados Unidos em 16 de outubro em sua versão Director's Cut, restaurada em 4K a partir dos negativos originais. Posteriormente, essa edição também será lançada para o mercado de home vídeo.
O aguardado lançamento ganhou um teaser especial
Apesar de Os Demônios ser conhecido por seu visual impactante, repleto de imagens perturbadoras e uma estética considerada blasfema, a Warner optou por divulgar o relançamento com um teaser bastante incomum.
Em vez de mostrar cenas do filme, o vídeo reúne elogios da crítica ao longo das últimas décadas. Entre eles, o jornal francês Le Monde descreve a obra como "um dos filmes mais controversos da história do cinema". Já o L.A. Free Press o define como "uma obra-prima tão rica e original quanto as maiores criações artísticas".
O site RogerEbert.com também destaca a importância do relançamento ao afirmar que o filme foi "um Santo Graal para cinéfilos durante meio século" e que, finalmente, será possível assistir exatamente à versão que Ken Russell pretendia apresentar ao público.
Sobre o que é Os Demônios?
Warner Bros. Pictures
Misturando drama histórico e horror, Os Demônios pertence ao subgênero conhecido como nunsploitation e foi inspirado parcialmente em um livro de The Devils of Loudun, além de sua adaptação teatral. A história se baseia em acontecimentos reais ocorridos na França do século XVII.
No filme, Oliver Reed interpreta o padre católico Urbain Grandier, acusado de praticar satanismo por ordem do cardeal Richelieu. Já Vanessa Redgrave vive a freira Jeanne des Anges, uma religiosa reprimida sexualmente que afirma estar possuída e acaba testemunhando contra o sacerdote por ciúmes. O resultado é uma narrativa intensa, repleta de simbolismo religioso e imagens perturbadoras.
As cenas que permaneceram censuradas por décadas
Segundo registros especializados, ainda na década de 1970 o filme teve duas sequências removidas, que nunca foram incluídas em nenhuma edição comercial. Uma delas mostra a irmã Jeanne se masturbando com um osso pertencente a Grandier.
A outra é a famosa sequência conhecida como "Rape of Christ", na qual freiras participam de uma orgia dentro de uma igreja envolvendo até mesmo uma estátua de Jesus. Essas cenas foram justamente o motivo pelo qual a Warner evitou durante décadas lançar a versão integral da obra, classificando seu conteúdo como de "tom de extremo mau gosto".
Para o crítico de cinema Mark Kermode, que apresentou a restauração em Cannes, a reintegração dessas sequências é essencial para a experiência do filme. Segundo ele, retirar esses momentos compromete o ritmo da narrativa como um todo. "Quando essa sequência desaparece, o filme perde seu ritmo. É como se tropeçasse, porque ela é fundamental para a estrutura da obra", afirmou.