O slasher deu ao cinema algumas de suas imagens mais sangrentas, excessivas e inesquecíveis. Sexta-Feira 13 transformou Jason Voorhees em uma ameaça quase mitológica. O Massacre da Serra Elétrica fez do calor, da carne e do barulho de uma serra elétrica um pesadelo impossível de esquecer. E Pânico chegou depois para zombar das regras do gênero enquanto as usava para assustar novas gerações.
Durante muito tempo, o slasher foi visto simplesmente como um território repleto de facas, perseguições e gritos no final do filme. Mas em anos recentes o gênero começou a brincar com outras texturas: mais estilo, mais psicologia, mais reflexão sobre o corpo, a fama e o desejo de ser visto. Em meio a essa nova onda, surgiu uma atuação que muitos fãs de terror continuam defendendo como digna de Oscar, em um filme com sangue, machado, loucura rural e um sorriso que não sai da cabeça.
Um novo sabor de slasher em Pearl
Little Lamb / Mad Solar Productions
O filme é Pearl, dirigido por Ti West e estrelado por Mia Goth. Lançado em 2022, ele funciona como prequela de X: A Marca da Morte, filme que West havia lançado no mesmo ano. Mais tarde, foi conectado a MaXXXine, lançado em 2024, para formar uma trilogia sobre desejo, violência, fama e cinema. Em Pearl, Mia Goth interpreta uma jovem fazendeira do Texas em 1918 que sonha em escapar de uma vida sufocante para se tornar uma estrela.
O filme tem uma estranheza deliciosa: parece um melodrama de época vestido com cores de conto de fadas, mas por dentro está podre de frustração. Pearl vive presa em uma fazenda com sua mãe autoritária e seu pai doente, enquanto seu marido está longe por causa da guerra. Lá fora, o mundo atravessa a pandemia de gripe. Lá dentro, ela ensaia sorrisos, danças e fantasias de grandeza diante de animais, espelhos e qualquer objeto que lhe devolva a ilusão.
Mia Goth rouba tudo, até o ar
Little Lamb / Mad Solar Productions
Mia Goth não interpreta Pearl como uma vilã desde o início e essa é a armadilha. Ela a deixa começar como alguém desesperadamente humana: uma mulher jovem com fome de sair, de ser admirada, de deixar de viver trancada em uma rotina que a está consumindo. Seus sonhos são enormes e infantis, e por isso o choque com a realidade se torna tão cruel. Pearl não quer apenas fama: ela quer que alguém a olhe e diga que ela nasceu para algo especial.
Depois vem o colapso. Goth passa da doçura quebrada à raiva, da ternura incômoda à ameaça direta, sem nunca perder aquela sensação de criança brincando de ser estrela enquanto se quebra por dentro. Seu famoso monólogo, longo e frontal, parece uma audição e uma confissão ao mesmo tempo.
Um terror com cores de musical antigo
Little Lamb / Mad Solar Productions
O mais perturbador em Pearl é que ele não parece um filme de terror "sujo" desde o primeiro plano. Ti West o filma con cores vivas, campos dourados, céus brilhantes e uma estética que lembra o Hollywood clássico, especialmente aqueles melodramas e musicais onde tudo parecia limpo demais para ser real. Mas a beleza não suaviza a violência, e sim a torna mais estranha e desconfortável.
O contraste funciona porque Pearl não vive em um pesadelo escuro. Ela vive em uma fantasia que está apodrecendo em plena luz do dia. Quer dançar como nos filmes, quer ser escolhida, quer sair da fazenda e deixar para trás uma existência que lhe parece uma condenação. Mas o mundo não se adapta aos seus desejos. E quando a fantasia não se realiza, ela começa a forçá-la com as mãos, com os dentes e com o que tiver por perto.
O terror de Pearl não está apenas nos assassinatos. Está em uma pergunta bastante cruel: o que acontece quando alguém constrói toda a sua identidade em torno de uma oportunidade que talvez nunca chegue? Pearl acredita que se conseguir sair, se conseguir dançar, se conseguir ser descoberta, tudo fará sentido. O problema é que nada parece suficiente quando o que se busca não é uma carreira, mas uma reparação completa.