Toda vez que alguma produção deixa um serviço de streaming, muitos se questionam se será possível ver este filme, série ou programa em outro lugar no futuro. A resposta, infelizmente, nunca é a mesma e está sempre sob um guarda-chuva de variáveis: acordos nacionais e internacionais de distribuição, licenciamento, tipos de fornecimento, entre outros. Há muitos processos que envolvem a exibição de qualquer obra nas plataformas - e isso nos leva a pensar na preservação de diferentes títulos que passam por essa dinâmica tão volátil.
Além deste aspecto, para quem acredita que um título original nunca deixará o acervo de sua empresa de origem, essa garantia não existe mais. Essa ideia foi frustrada em movimentos recentes de duas gigantes do mercado. Enquanto a HBO Max tirou produções próprias do catálogo, como Trem Infinito, Westworld e Love Life, a Netflix tem uma longa lista de vindouras “indisponibilidades”. A casa de Bridgerton e Stranger Things também já deu adeus a alguns títulos feitos por ela mesma, incluindo She-Ra e as Princesas Poder e Kipo e os Animonstros. Essas são apenas algumas das produções que, se bobear, podemos nunca mais ter acesso por nenhum canal.
Dinâmica do streaming favorece o crescimento de lost medias
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Esse papo nos leva a um conceito que tem ganhado cada vez mais visibilidade ao longo dos últimos anos: a expressão lost media. Em tradução livre, as mídias perdidas são obras que simplesmente desapareceram da face da Terra por se tornarem inacessíveis ao longo dos anos. Com o crescimento do streaming, que acaba sendo o único lugar oficial para milhares de conteúdos, caso uma dessas histórias não esteja disponível em outro formato, como DVD ou Blu-Ray, é possível que nunca mais sejam encontradas com o passar dos anos.
Ainda que esse termo não seja especialmente novo, ele, infelizmente, sobrevive e ganha novos contornos com a modernidade. Antigamente, a perda de grandes obras da literatura já poderia se encaixar nessa ideia, algo que se viveu com fitas cassete, CDs, DVDs, jogos e até Blu-Ray. Se alguma obra tem poucas cópias e elas param de ser comercializadas, a facilidade em perdê-las de vista é grande.
Afinal, como preservar uma música, um filme ou uma série hoje em dia?
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Hoje, as mídias físicas acabam sendo uma alternativa de preservação, já que o controle não fica totalmente nas mãos das empresas, mas está sob o domínio do público. Mesmo assim, caso não tenhamos órgãos que se responsabilizem pelo cuidado dessas obras, o tempo acaba sendo o grande responsável pela inutilidade da maioria dos formatos que reproduzem músicas, filmes, séries, jogos e outras produções de audiovisual.
Um relatório sobre Patrimônio Ameaçado do Cinema Mudo nos Estados Unidos, feito em 2013 pela Biblioteca do Congresso, apontou que mais de 70% dos longa-metragens mudos do país já se perderam completamente. Por isso, é preciso que exista um esforço dedicado em preservar tais obras não apenas em acervos físicos, mas em bibliotecas digitais que possam resguardar a memória do audiovisual - isso não apenas em solo norte-americano, é claro, mas no mundo inteiro.
Até ri com Todo Mundo em Pânico 6, mas nem o elenco original evitou uma crise: a vida adulta tirou a graça do besteiról ou o filme realmente não funciona?Outro fator que pode auxiliar este aspecto é uma atenção especial às obras que entram em domínio público. Uma vez que possam ser reproduzidas em diferentes espaços, a proteção destas histórias também ganha força.
Embora seja alvo de uma recente polêmica envolvendo inteligência artificial, Martin Scorsese é um dos grandes apoiadores da causa com a Film Foundation de Martin Scorsese. "A preservação de todas as formas de arte é fundamental", disse ele em um vídeo da organização.
No Brasil, temos a Cinemateca Brasileira, o Secretaria do Audiovisual, o Arquivo Nacional, a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual, entre laboratórios universitários e projetos da Sociedade Civil que atuam nesta área e vem fazendo um ótimo trabalho para que o histórias do passado não se percam completamente.
A preservação também não é algo simples
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Além da responsabilidade das empresas, também é necessário ter um acompanhamento delicado com cada título, já que o correto seria ter mais de um único banco de dados. "É um incêndio silencioso", disse Linda Tadic, CEO da Digital Bedrock, uma empresa de arquivamento que trabalha com estúdios e produtores independentes, ao The Hollywood Reporter.
Encontramos problemas em todos os filmes e séries que tentamos preservar.
"Ao migrar os arquivos para algum tipo de infraestrutura, seja um data center ou um conjunto de nuvens, é preciso considerar políticas de armazenamento, como manter múltiplas cópias. Há também quem opte por armazenar os arquivos offline, em LTOs [formato físico utilizado por décadas]", disse Andrea Kalas, vice-presidente sênior de gestão de ativos da Paramount e líder das iniciativas de preservação do Conselho de Ciência e Tecnologia à reportagem.
Novo streaming de graça: Tela Brasil estreia com mais de 500 filmes e séries para ver on-line; veja como usarA reportagem do veículo estadunidense, inclusive, lembra sobre a importância dos backups ao citar uma história absurda da Pixar. Em 1998, Toy Story 2 quase foi deletado completamente por um funcionário que deu um comando errado ao sistema. Por sorte, uma diretora tinha uma versão recente do projeto.
Curiosamente, o que me trouxe a esse assunto também foi a chegada do Tela Brasil, o serviço de streaming do Governo Federal que promete ser uma ponte de acesso à cultura pela população. Por estar sob o domínio do Estado, a plataforma também pode atuar como um grande acervo do cinema nacional.
Essa é a oportunidade do público ter acesso a obras lançadas há muitas décadas que nunca mais viram a luz do dia e de filmes independentes foram lançados em festivais, mas não conseguiram uma distribuição após uma breve passagem por estes eventos ou depois de uma janela curta nas telonas.
O que fazer diante deste cenário de lost medias?
Miramax
Não há respostas simples ou planos de ação definitivos sobre o destino dos nossos filmes e séries favoritos, mas ter a consciência de que tudo precisa de políticas de preservação já é um movimento muito válido. É um ato de proteção à cultura e à nossa história, tanto como brasileiros quanto às produções nacionais quanto como humanidade quando pensamos em tantas obras espalhadas pelo mundo que merecem ser vistas, jogadas ou ouvidas.
Com isso, o que podemos fazer é, em um primeiro momento, assistir a tudo o que deixamos em nossas listas dos serviços de streaming. Isso já evita possíveis frustrações. É interessante também atuar na preservação dos nossos próprios DVDs, fitas VHS e mídias Blu-Ray e, uma vez que exista o desejo de se desfazer deles, talvez optar pela doação a órgãos que possam cuidar dessas produções. Por último, talvez seja interessante pressionar empresas para que não subjuguem os próprios materiais a ponto de abandoná-los em um limbo de esquecimento.
O Chamado ganhou easter egg genial que só quem tinha o DVD pôde conferirNão é como se essas ações fossem resolver todo o problema, mas é melhor do que ficar parado vendo tudo desaparecer enquanto lamentamos.