Quando soube que Todo Mundo em Pânico 6 estava em desenvolvimento, uma sensação conflitante surgiu. Seguiria aquele pré-adolescente que adorava as piadas bobas da franquia ou o jovem adulto que negou todo o entretenimento que teve com tantos besteiróis americanos? Como um bom libriano, optei por seguir um pouco dos dois, então me vi naturalmente empolgado e cauteloso com o retorno dos irmãos Wayans àquela série que parodiou tantos filmes de terror nos anos 2000.
A minha maior dúvida logo se consolidou: seria possível fazer um filme de Todo Mundo em Pânico a ponto do público crítico de 2026 rir na mesma proporção dos capítulos anteriores? E mais: os produtores optariam por fazer uma comédia politicamente correta - algo que nunca fez parte da saga - ou pisariam no acelerador com piadas de tudo o que problematizamos nos últimos anos?
Curiosamente, assim como eu, mas totalmente desbocado, o novo longa optou por um pouco dos dois, mas fincou todo o roteiro no que chamávamos de "the zuera never ends" não muito tempo atrás (e só de lembrar dessa expressão já me sinto velho).
Todo Mundo em Pânico não deveria, mas moldou a nossa infância e o gosto pelo cinema
Paramount Pictures
Tive o privilégio de assistir a Todo Mundo em Pânico 6 em uma pré-estreia com o elenco de dublagem. Ver o filme dublado, assim como fazíamos, foi um golpe eficaz de nostalgia. Isso, somado ao retorno de grande parte do elenco original, me fez lembrar das tantas besteiras que me fizeram rir ao longo da vida. Quanta bobeira, né? Algo que aprendi - e defendo - com Scary Movie é que filmes que não se levam a sério demais tem nisso uma grande qualidade. É um jeito de se fazer comédia com leveza, algo que também brinca com as expectativas da audiência.
Outra coisa que adoro nessa franquia é a forma como ela nasceu. Em uma época em que os besteiróis estavam em baixa, os irmãos Wayans simplesmente decidiram usar a fórmula de Pânico para parodiar outros filmes de terror a partir da propriedade intelectual de Wes Craven. Isso, por si só, pode parecer apenas bobo e irreverente, mas é sofisticado quando pensamos em linguagem, pois uma estrutura é reutilizada com uma paradoxa originalidade. Afinal, nos mostraram como O Grito, Guerra dos Mundos, O Exorcista, Hannibal e muitas outras histórias poderiam ser extremamente engraçadas. Tudo muito metalinguístico, tá?
Todo Mundo em Pânico 6 só aconteceu graças à promessa que Marlon Wayans fez ao pai antes dele morrer: "Eu me sinto completo"Aí chegamos ao sexto filme e, poxa, houve uma certa decepção. Não me entendam mal, mas o filme não funcionou no todo para mim. Isso, inclusive, foi um sentimento compartilhado com muitas pessoas que estiveram na mesma sessão que eu. Justamente por isso comecei a me questionar o porquê, e tenho algumas hipóteses bem simples.
Todo Mundo em Pânico 6 preserva a essência, mas opta pelo caminho mais fácil
Paramount Pictures
Embora nenhum destes filmes seja considerado uma obra-prima em termos de cinematografia, há sim momentos icônicos em praticamente todos eles. Até o quinto longa, o mais fraco, tem um trecho ou outro que fez alguém rir. Mas a maioria conseguiu seguir um ritmo levemente moderado em seu próprio enredo.
Enquanto o primeiro era o mistério do Ghostface, o segundo tinha os pés em A Casa da Colina e o terceiro era inspirado na ficção científica de Steven Spielberg. Para este novo, sabemos que o Pânico de 2022 é a principal inspiração, já que trata-se do retorno de uma franquia com novas regras, novos personagens, mas parte do elenco e da dinâmica antiga.
As piadas do novo capítulo, e elas são muitas, transbordam na tela. Muitas delas funcionam bem. Uma surpresa foi ver os trechos que brincam com a transgeneridade de um personagem soando quase educativos para uma parte da audiência potencialmente conservadora - o ator Benny Zielke, inclsuive, foi criado para homenagear o filho de Marlon.
Também posso dizer que adorei os blocos de A Substância, Terrifier, A Hora do Mal e fiquei de boca aberta com as Guerreiras do K-Pop de Marlon Wayans, mas ficou um grande incômodo da metade do filme em diante: o roteiro abandona completamente a história para apresentar uma série de esquetes de muitos dos filmes que foram lançados nos últimos anos. Esse formato acabou quebrando a imersão no projeto e como nem todos os momentos são tão bem executados e porcamente encaixados, houve uma certa inquietação.
26 anos depois, este filme escondido na Netflix seria cancelado imediatamente hojeAlém disso, fiquei bem aberto com a forma como os produtores decidiram continuar com piadas um tanto problemáticas aqui, mas tentando se guiar por um viés mais... ponderado, talvez? Não sei bem dizer, mas a sensação é que eles brincaram com o limite em diversos momentos e tentaram forçar outros.
A cena que refaz a igreja de Pecadores começa muito bem, por exemplo, mas na dublagem brasileira utiliza uma palavra que entendemos com o tempo que não é mais usada para se referir a travestis e pessoas trans. Essa foi de graça e, sinceramente, mesmo que faça sentido para o que o personagem quer representar - um homem enrustido utilizando um palavreado ofensivo para tentar se passar por machão -, não caiu tão bem. É um contraponto ao arco de Benny.
A vida adulta tirou a graça do besteiról ou o filme realmente não funciona?
Paramount Pictures
Por fim, o saldo do filme foi meio desigual. Ri um bocado, sorri com algumas referências, mas fiquei com um gostinho de "depois de tantos anos, esse é o resultado?". Ao longo dos dias, aquela dúvida voltou. Fiquei chato demais a ponto de não conseguir aproveitar? E a resposta, por minha parte - e aqui você pode concordar ou discordar numa boa -, é que não foi esse o grande problema.
Acredito que o crivo de todo mundo mudou, especialmente quando o assunto são piadas com minorias, mas questão não é apenas uma exigência maior do público, mas uma expectativa por consistência, pela qualidade das piadas, por um timing melhor, por uma execução menos apressada. Com essa ideia de esquetes e o abandono de qualquer ligação entre os acontecimentos, o filme parece ter abandonado a si próprio para chegar a qualquer desfecho. Quase como um "galera, precisamos incluir isso e isso antes de terminar. E agora?". A ideia da grande revelação, inclusive, é legal, mas não teve tanto impacto quanto o roteiro previa.
Por que o novo Corra Que a Polícia Vem Aí é a garantia de que Todo Mundo em Pânico 6 pode ser excelente?A gente ficou chato? Talvez. Mas Todo Mundo em Pânico 6 poderia seguir os passos de Corra Que a Polícia vem aí de 2025. Usar e abusar da bobeira e de todas as paródias possíveis, mas entendendo que equilibrar o rtimo do humor é essencial para que ele funcione. Montagem e roteiro precisam dialogar, e mesmo que o subgênero de um filme seja o besteirol, não é bagunça.
Para não dizer que foram apenas mágoas, outra sensação que me ocorreu saindo do cinema foi mais otimista. Apesar do desapontamento, saí de lá contente que este tipo de história finalmente voltou. Não que seja fundamental para a indústria, mas é possível que seja bom para este momento atual.
Vemos cada vez menos filmes que não se levam a sério. Vamos culpar um pouco Christopher Nolan por sua abordagem realista, fria e séria demais? Talvez. Mas é como já falamos inúmeras vezes por aqui: o cinema vive de ciclos e aparentemente chegou a hora de descobrirmos como fazer graça de nós mesmos mais uma vez.