A escolha de Jacob Elordi para o papel de Heathcliff é um erro gritante que não se encaixa no texto de O Morro dos Ventos Uivantes – mas tem uma explicação lógica
Giovanni Rodrigues
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

Mais uma vez se esqueceram da descrição literal do personagem.

O fato de o nome de Emerald Fennell estar ligado a um projeto nos dá uma certa garantia de que haverá polêmica. Parte dessa controvérsia costuma ser bem fundamentada e outra parte responde a uma mistura de expectativas irrealistas e reações exageradas a qualquer decisão que fuja do cânone mais estabelecido.

Sua versão de O Morro dos Ventos Uivantes - porque não poderia ser considerada uma adaptação usual -, o romance de Emily Brontë publicado em 1847, não foi exceção: desde o momento em que o elenco foi anunciado, a conversa se acendeu em torno da escolha de Jacob Elordi como Heathcliff e Margot Robbie como Catherine Earnshaw.

A polêmica escalação de Jacob Elordi

Warner Bros.

Para muitos, as decisões tomadas com o elenco traem o espírito do livro e, para outros, entram na liberdade criativa que sempre acompanhou as adaptações literárias. O problema é que, no caso de O Morro dos Ventos Uivantes, não estamos falando apenas de fidelidade estética, mas de um debate histórico e cultural que está aberto há décadas: o que Heathcliff representa, como sua origem racial tem sido lida e por que o cinema tende a ignorar ou diluir uma das dimensões mais incômodas do personagem.

O primeiro grande foco do debate tem a ver com a raça de Heathcliff. No romance, o personagem é um órfão descrito de forma ambígua: outros personagens o insultam com termos historicamente associados a comunidades ciganas e há pistas que permitem lê-lo como uma pessoa racializada - de fato, há versões do texto que o descrevem como "cigano"-. Essa ambiguidade gerou discussões por anos entre especialistas e leitores, que colidem com a tradição cinematográfica de escolher quase sempre atores brancos para o papel. Neste contexto, a escolha de Elordi reabriu uma ferida que parecia, no mínimo, em processo de revisão.

A visão de Emerald Fennell

Este debate não é novo. Na versão de 2011 dirigida por Andrea Arnold, o personagem foi interpretado por James Howson, uma decisão que muitos leram como uma tentativa consciente de se aproximar de uma interpretação mais fiel ao subtexto racial do livro. Diante desse precedente, a reviravolta de Fennell é percebida como um passo atrás por parte de uma cineasta conhecida justamente por provocar e questionar os códigos mais estabelecidos do cinema contemporâneo.

Warner Bros.

Os especialistas literários têm se posicionado neste terreno pantanoso há anos. Michael Stewart, diretor do Centro de Escrita Brontë, defendeu no The Telegraph uma leitura clara do texto: "Tenho a firme convicção de que a intenção de Emily era que ele fosse negro ou mestiço, e há muitas pistas no texto que sugerem isso". Na mesma linha, ele acrescentava que hoje existe uma responsabilidade diferente ao representar personagens com uma identidade étnica ambígua: "Com O Morro dos Ventos Uivantes, tivemos muitos anos de atores brancos interpretando personagens étnicos mais ambíguos. Mas as coisas são diferentes agora; a maneira como representamos certas pessoas na arte e na cultura carrega uma responsabilidade que não existia há 20 anos".

No entanto, por parte da equipe do filme, o discurso é outro. Em declarações à Variety, Fennell defendeu a escolha a partir de uma lógica puramente emocional: "Meu Deus, é o Heathcliff da capa do livro que eu tenho desde a adolescência!", confessou, explicando que a imagem que ela tinha do personagem desde jovem se encaixava com a aparência de Elordi.

O Morro dos Ventos Uivantes
O Morro dos Ventos Uivantes
Data de lançamento 14 de fevereiro de 2026 | 2h 16min
Criador(es): Emerald Fennell
Com Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau
Usuários
3,0
Adorocinema
3,0
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A diretora aprofundou essa ideia em uma entrevista ao The Hollywood Reporter: "Acho que a questão é que todos que amam este livro têm uma conexão tão pessoal com ele, que você só pode fazer o filme que imaginou ao lê-lo". No final, a adaptação de Fennell não apenas reativa o eterno debate sobre a raça de Heathcliff, mas também coloca novamente sobre a mesa até que ponto queremos que o cinema seja fiel ao texto e até que ponto aceitamos que cada versão de O Morro dos Ventos Uivantes não seja mais do que o reflexo da imaginação e das obsessões de quem a assina.

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