A história do cinema está cheia de filmes que foram gravados, mas nunca chegaram às salas. Às vezes, o motivo é artístico – como o famoso fiasco The Day the Clown Cried, de Jerry Lewis. Em outros casos, são razões comerciais, como aconteceu recentemente com Batgirl, da DC. E há ainda os casos verdadeiramente bizarros, como Empires of the Deep.
Tudo começou quando o magnata imobiliário chinês Jon Jiang assistiu a Avatar nos cinemas e ficou maravilhado com o 3D de James Cameron e as possibilidades visuais da tecnologia. Tanto que bolou um plano: produzir seu próprio filme e alcançar – quem sabe superar – Cameron (ou até Peter Jackson, cuja trilogia O Senhor dos Anéis também estava entre suas favoritas).
Um projeto de paixão de 130 milhões
Reprodução / China Film Group Corporation (CFGC)
Jiang não só estava disposto a investir 130 milhões de dólares, como também escreveu o roteiro sozinho – convencido de que o material renderia pelo menos uma trilogia. Empires of the Deep (originalmente Mermaid Island) contaria a história de uma rainha sereia na Grécia Antiga, empenhada em salvar seu reino e resgatar seu pai de perigos sombrios.
O filme foi concebido como uma coprodução sino-americana e, por isso, precisava de nomes de peso para atrair o público internacional. No início, Irvin Kershner, diretor de Star Wars - O Império Contra-Ataca, foi contratado. Ele, porém, achou que a mitologia criada por Jiang não funcionaria para o público ocidental e sugeriu uma trama de ficção científica, na qual um grupo descobre um reino subaquático. Jiang rejeitou a ideia, e Kershner deixou o projeto.
Acabou assumindo as filmagens o muito menos conhecido Jonathan Lawrence, que já percebeu desde janeiro de 2010 que algo ia mal. Numa cena que previa 500 figurantes, só apareceram 20 – e de figurino duvidoso. Motivo: os outros 480 não tinham recebido há semanas e pularam do barco que afundava a tempo. Além de Lawrence, durante as filmagens, passaram pelo projeto mais três diretores : Scott Miller, Michael French e o criador de Mulher-Gato, Pitof!
A 'Bond Girl' no papel principal
Sony Pictures Releasing
Monica Bellucci e Sharon Stone chegaram a ser cotadas para a protagonista, mas no fim a escolhida foi Olga Kurylenko, que tinha atuado ao lado de Daniel Craig em 007 – Quantum of Solace. Mesmo assim, nem ela pôde salvar o projeto das condições caóticas.
As filmagens começaram antes mesmo de o roteiro estar finalizado – aliás, já havia umas 40 versões. Em abril de 2010, um primeiro trailer 3D, com efeitos visuais bem rudimentares, foi exibido numa coletiva em Pequim. Depois disso, silêncio total… até outubro de 2012, quando os responsáveis soltaram novas imagens. Os efeitos estavam um pouco melhores, mas ainda distantes do nível de Avatar ou Senhor dos Anéis.
Será que o editor de Spielberg salvaria o filme?
20th Century Fox
O filme ficou engavetado até 2014, quando Jiang entregou o material a Michael Kahn – afinal, quem melhor que o editor de confiança de Steven Spielberg para dar jeito na coisa? Só que nem isso resolveu: nenhuma distribuidora americana quis o filme, comprometido por efeitos inacabados e uma trama incompreensível. Muitas cenas precisariam ser refeitas para ter mínima chance de lançamento.
Em janeiro de 2016, os produtores apelaram ao público: lançaram um novo trailer (agora com efeitos visuais bem mais caprichados) numa plataforma de crowdfunding. Jiang, porém, não conseguiu arrecadar o um milhão de yuans necessários para bancar o lançamento nos cinemas.
Resultado doloroso: seis anos desperdiçados, 130 milhões de dólares jogados fora, distribuidoras desinteressadas e atores frustrados. É altamente improvável que Empires of the Deep vá um dia aparecer ao lado do fenômeno Avatar – que, enquanto isso, só cresce, com sequências a caminho e um filme em exibição nos cinemas.
A franquia Avatar está disponível no Disney+.