Lançado há 64 anos, é um dos maiores filmes históricos de todos os tempos: E ainda assim foi injustamente renegado por seu diretor
Giovanni Rodrigues
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

Por trás do sucesso de Spartacus se esconde uma filmagem caótica e um diretor em guerra com seu próprio filme. Descubra os segredos do épico cult – entre conflitos e censura – que Stanley Kubrick preferiu esquecer.

Considerado um clássico do cinema, Spartacus permanece até hoje um dos grandes papéis de Kirk Douglas e uma obra emblemática do gênero épico. No entanto, Stanley Kubrick não guardou boas lembranças do filme. O diretor, conhecido por seu perfeccionismo, acabou renegando totalmente este projeto, pois não tinha controle criativo sobre ele.

Stanley Kubrick, falecido aos 70 anos em 1999, dirigiu apenas 13 filmes em 50 anos de carreira, mas cada um marcou sua época. Seja ficção científica (2001 - Uma Odisseia no Espaço), guerra (Glória Feita de Sangue, Nascido para Matar), terror (O Iluminado), drama histórico (Barry Lyndon) ou comédia (Dr. Fantástico), ele soube impor sua visão em todos os gêneros. E se assinou um único épico com Spartacus, foi justamente esse que mais lamentou.

Uma produção caótica desde o início

O projeto Spartacus nasceu de um romance de Howard Fast, que primeiro escreveu um roteiro inicial. Mas este foi rapidamente rejeitado por Kirk Douglas, também produtor do filme, que o considerou um "verdadeiro desastre". O roteiro foi então confiado a Dalton Trumbo, figura importante de Hollywood colocada na tristemente célebre "lista negra" do macarthismo. Trumbo teve que trabalhar sob um nome falso, "Sam Jackson", durante toda a produção, um gesto militante (e político) que Douglas assumiu totalmente.

Do lado da direção, também era complicado. Depois de considerar Martin Ritt ou David Lean, o estúdio Universal finalmente impôs Anthony Mann. Má escolha: incapaz de gerenciar a filmagem, constantemente atrasado, ele rapidamente perdeu a confiança de Douglas, que o substituiu após apenas alguns dias por Stanley Kubrick, então jovem diretor de 30 anos, com quem havia colaborado em Glória Feita de Sangue.

Kubrick sem poder: um caso único

Esta foi a primeira – e principalmente a última vez – que Kubrick aceitou assumir as rédeas de um filme sem ter controle total sobre ele. Ele rapidamente entrou em conflito com Trumbo, especialmente sobre a caracterização dos personagens, e também se chocou com o diretor de fotografia Russell Metty. Kubrick queria supervisionar tudo, incluindo os aspectos técnicos, o que irritava profundamente Metty. Ironia do destino: este último ganharia o Oscar de melhor fotografia em 1961, um dos 4 prêmios que Spartacus conquistaria naquele ano.

Cortes, censura e conflitos ideológicos

A tensão não parou na filmagem. O filme foi posteriormente cortado pelo estúdio Universal, que queria amenizar certas dimensões políticas da narrativa, para grande desgosto de Kubrick, Trumbo e Douglas, pela primeira vez do mesmo lado. Várias cenas, incluindo batalhas como a de Metaponto, foram cortadas.

Mas a pressão também veio de fora. A National Legion of Decency, uma organização católica americana que se considerava guardiã da moralidade pública e desejava "purificar" as produções cinematográficas, exigiu a remoção de certas cenas consideradas muito explícitas. Assim, a famosa cena do banho entre Crasso (Laurence Olivier) e seu escravo Antonino (Tony Curtis), onde se percebia uma tensão homoafetiva, foi retirada.

Universal Pictures

Em 1991, uma versão restaurada do filme foi lançada graças ao trabalho de Robert Harris, reintegrando 23 minutos de cenas cortadas, incluindo a do banho. Outras, no entanto, permanecem impossíveis de encontrar. Charles Laughton, que interpretava Graco, havia inclusive ameaçado Kirk Douglas com processos depois de descobrir que muitas de suas cenas haviam desaparecido da montagem final. Ele nunca executou sua ameaça.

Uma obra renegada, mas imortal

Apesar do prestígio do filme, Stanley Kubrick nunca voltou a falar sobre Spartacus – e até renegou o longa-metragem. Ele nunca propôs uma versão do diretor, e não participou de sua restauração. Para ele, esta obra não lhe pertencia realmente. E mesmo assim, Spartacus permanece um pilar do cinema hollywoodiano. Em seu lançamento, o filme foi um enorme sucesso, tanto de crítica quanto comercial. E em 1998, o American Film Institute o classificou em 81º lugar entre os 100 maiores filmes da história do cinema americano.

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