Kleber Mendonça Filho abre a 58ª edição do Festival de Brasília com “O Agente Secreto”
Paulo Ernesto
Paulo Ernesto
-Redator
Crítico de cinema, roteirista e apresentador, Paulo une sua paixão por contar histórias com o amor por cultura pop. Já dirigiu curtas premiados e hoje produz conteúdos multiplataforma comentando cinema, séries e tudo que mexe com o coração cinéfilo.

Produção traz elenco diverso, estética inspirada nos anos 70 e debate sobre memória política.

A 58ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começou na sexta-feira (12 de setembro) com a segunda première em solo brasileiro de O Agente Secreto novo filme de Kleber Mendonça Filho. A obra abriu o evento, considerado o mais duradouro festival de cinema do país, que acontece até 20 de setembro, com programação que inclui mostras competitivas, sessões infantis e oficinas em várias regiões do Distrito Federal.

Michelle Moreira

Memórias de infância

Na coletiva de imprensa realizada no sábado (13), Kleber relembrou como o cinema marcou sua infância em Recife. “Em 1977 eu tinha 9 anos, minha mãe ficou doente, e para proteger as crianças, meu pai nos levava muito ao cinema. Guardo uma memória afetiva muito forte das salas”, contou o diretor.

Segundo ele, O Agente Secreto reflete o Brasil contemporâneo, mas dialoga constantemente com o passado. “A lógica dos anos 70 era a do regime militar. Muitas ideias que estavam abandonadas voltaram nos últimos anos, homofobia, racismo, misoginia, ataques ao nordeste. É um filme sobre coisas que ficam voltando”.

O trauma da memória e a força do elenco

Kleber destacou o impacto da Lei da Anistia de 1979, que, segundo ele, consolidou um “trauma de memória” no país: “Esquecemos os estupros, sequestros e assassinatos que foram cometidos e deixamos pra lá. É impressionante como certas palavras e ideias voltaram”.

O filme é protagonizado por Wagner Moura, mas devido a sua generosidade, todos o elenco tem momentos para brilhar. Um dos grandes destaques é Tânia Maria, atriz do Rio Grande do Norte que já tinha aparecido em Bacurau. “Escrevi a personagem Dona Sebastiana para ela. O texto foi feito com coisas que ela falaria naturalmente. Tânia é uma estrela, uma grande atriz mesmo sem formação profissional, e se destaca em qualquer lugar que o filme passa”, disse o cineasta.

Estética e temas

O design de produção foi outro ponto elogiado por Kleber. Thales Junqueira, responsável pela arte, ressaltou o desafio de recriar a atmosfera dos anos 70: “No Brasil filmar época é caro e complexo. Usamos locações degradadas, restauradas e adaptadas, para que o público sinta o período vivo e vibrante”. Filmado com lentes Panavision dos anos 70, as mesmas usadas em Tubarão e Amargo Pesadelo, o longa também dialoga com referências cinematográficas e urbanas de Recife.

A narrativa inclui ainda a lenda da perna cabeluda, criada para encobrir violências cometidas pela polícia na época. “Era uma forma irreverente de falar sobre algo que não podia ser noticiado nos jornais”, explicou Kleber. Kleber também ressaltou sua paixão pela diversidade brasileira: “Adoro o Brasil quando não tenta se colocar em caixas. Amo as diferenças de sotaques, e quis ouvir tudo isso em cena.”

Distribuição e estreia

Segundo Sílvia Cruz, da Vitrine Filmes, a distribuição de O Agente Secreto é resultado de um trabalho de longo prazo: “Existe uma escalada nos filmes do Kleber, cada vez em mais salas e com mais público. Esse trabalho contínuo nos permitiu pensar organicamente na distribuição”.

O filme estreia nos cinemas brasileiros em 6 de novembro.

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