Poucos filmes carregam um fardo tão injusto quanto o Watchmen de Zack Snyder. Adaptar a graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons, uma obra tida por décadas como "infilmável" e venerada como um dos pontos altos da cultura pop, era uma armadilha montada de antemão. Qualquer resultado seria medido contra uma expectativa impossível. E talvez seja por isso que, até hoje, o filme arraste uma reputação de obra fraca e adaptação dispensável que simplesmente não se sustenta diante do que está na tela.
Comecemos pelo ponto em que a acusação mais comum desmorona, que é a infidelidade. É difícil pensar em adaptação mais reverente ao material original. Snyder transpõe quadros inteiros da HQ com precisão quase obsessiva, preserva a estrutura narrativa, e, o que mais importa, mantém intacta a tese central da obra. Os personagens chegam à tela com toda a sua podridão moral preservada. Aqui não há heróis no sentido tradicional, apenas figuras falhas, comprometidas, por vezes patéticas. A grande inversão da trama, em que o homem mais admirável de todos se revela o autor da maior atrocidade, movido ironicamente por boa intenção, permanece como o golpe genial que sempre foi. E a pergunta que sustenta tudo, "quem vigia os vigilantes?", ecoa do começo ao fim. Chamar isso de adaptação dispensável é confundir "não é idêntico ao papel" com "não tem valor".
Como obra em si, o rótulo de "fraco" também não encontra apoio. Um filme fraco é aquele sem ambição, sem identidade, incapaz de provocar. Watchmen é o oposto disso em cada fotograma. Tem uma visão estética definida e assumida. Tem uma trilha sonora que não está ali para enfeitar, mas para dialogar com as imagens, frequentemente jogando uma canção nostálgica ou romântica sobre cenas sujas e desiludidas, criando um desconforto calculado que é puro cinema. Constrói, com paciência, o clima claustrofóbico de uma sociedade apodrecida, onde até os justiceiros estão contaminados. E, talvez seu gesto mais corajoso, entrega um desfecho profundamente incômodo dentro de um blockbuster de estúdio, recusando-se a oferecer o conforto que o público de super-heróis costuma esperar.
Isso não significa que o filme esteja acima de qualquer reparo. A escolha de Snyder por estetizar a violência, o slow-motion, a coreografia, o impacto visualmente impecável dos ossos que se quebram, é seu ponto mais discutível. Há uma tensão real entre a beleza da imagem e a repulsa que a cena deveria provocar, e é legítimo que parte do público sinta aí um ruído. Mas vale uma leitura mais generosa e, a meu ver, mais correta. Essa estetização não trai a obra, ela a serve. O mundo de Watchmen é exatamente isso, sedutor e podre ao mesmo tempo, um lugar que embrulha a própria decadência em embalagem bonita, do mesmo modo que Ozymandias embrulha um genocídio em "salvar a humanidade". Um filme sedutor e podre na mesma medida não comete um erro, e sim alcança uma coerência.
O que sobra, no fim, é a sensação de que o desprezo dirigido a este filme é desproporcional ao que ele de fato entrega. Parte disso é a maldição da expectativa impossível. Outra parte, é justo dizer, é o ranço acumulado contra um diretor que se tornou alvo fácil, e cuja obra posterior, muitas vezes cansativa e previsível, acabou contaminando retroativamente o julgamento sobre seu trabalho mais sério e ambicioso.
Há ainda um mérito que raramente entra na conta quando se fala mal deste filme. Para uma boa porção das pessoas que o assistiram, ele funcionou como porta de entrada, servindo de empurrão para que fossem atrás da obra original e pudessem conferir, na mídia em que ela nasceu, o quão original e revolucionário é o trabalho de Moore. E isso já vale bastante. Um filme que desperta no espectador a vontade de procurar a fonte, e que ao fazê-lo apresenta toda uma nova geração a um marco dos quadrinhos, presta um serviço que nenhuma adaptação verdadeiramente dispensável seria capaz de prestar.
Watchmen não é uma obra-prima unânime, e não precisa ser. Mas está a uma enorme distância de fraco ou dispensável. É um filme sério, ambicioso e raro em sua fidelidade, desses que, em vez de substituir o original, mandam o espectador correndo atrás dele. E essa, no fundo, pode ser a maior prova de seu valor. Obra dispensável nenhuma desperta em tanta gente a vontade de procurar a fonte.