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    Drive My Car
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    Drive My Car

    O recomeço para além das perdas

    por Bruno Botelho
    O luto e a solidão são dois sentimentos complexos dos seres humanos e que são bastante explorados nas mais diferentes formas de arte, especialmente no cinema. O filme japonês Drive My Car, de Ryusuke Hamaguchi, foi indicado em quatro categorias do Oscar 2022 – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme Internacional – e lida diretamente com essas questões em sua história.

    Qual é a história de Drive My Car?



    Drive My Car é um filme japonês adaptado de um conto de Haruki Murakami e segue duas pessoas solitárias que encontram coragem para enfrentar o seu passado. Yûsuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) é um ator e diretor de sucesso no teatro, casado com Oto (Reika Kirishima), uma mulher muito bonita, porém também uma roteirista com muitos segredos, com que divide sua vida, seu passado e colaboração artística. Quando Oto morre repentinamente, Kafuku é deixado com muitas perguntas sem respostas de seu relacionamento com ela e arrependimento de nunca conseguir compreendê-la completamente.

    Dois anos depois, ainda sem conseguir sair do luto, ele aceita dirigir uma peça no teatro de Hiroshima, embarcando em seu precioso carro Saab 900. Lá, ele conhece e tem que lidar com Misaki Watari (Toko Miura), uma jovem chauffeur, com que tem que deixar o carro. Apesar de suas dúvidas iniciais, uma relação muito especial se desenvolve progressivamente entre os dois ao longo da produção.

    Dor e emoções reprimidas formam o estudo de personagem em Drive My Car



    Drive My Car não tem pressa para contar sua história, desenvolvendo com calma seus personagens e sentimentos com as situações. Assim, o roteiro escrito por Ryûsuke HamaguchiTakamasa Oe tem como objetivo a contrução dessa história de perdas e dores internalizadas em seu protagonista, Yusuke Kafuku.

    Durante as três horas de duração do filme, a primeira parte serve para estabelecer a intimidade e a complicada relação entre o casal Yûsuke, um ator e diretor, e Oto, uma roteirista, que tiveram suas vidas pessoais afetadas pela morte de seu filho. Sem entrar em maiores detalhes sobre a trama, cada um deles lida com esse luto de maneiras diferentes na vida e no relacionamento, até que subitamente Oto acaba morrendo e, então, Yûsuke precisa mais do que nunca confrontar seu passado para seguir em frente.

    O impacto da perda do filho e da mulher é destruidor para a vida de qualquer pessoa, então o ator Hidetoshi Nishijima consegue apresentar uma performance poderosa no longa-metragem ao retratar Yûsuke Kafuku como um homem perdido por causa desses fantasmas que o assombram, preso em um passado sem poder se libertar, ou mesmo entender, todos esses sentimentos dolorosos. Seus poucos, mas significativos gestos e reações, revelam complexas camadas do personagem e essas emoções reprimidas.

    Drive My Car usa o tempo ao seu favor para refletir sobre autoaceitação



    Estabelecido o personagem e suas dores durante a primeira parte, Drive My Car parte para o confronto dos sentimentos de Yûsuke Kafuku na continuidade da narrativa. Dois anos se passaram desde a morte de Oto e o protagonista segue sua vida, até que ele é convidado para fazer uma peça de teatro de Tio Vânia, de Anton Chekhov, em Hiroshima. Por causa de seu glaucoma recém-descoberto e uma condenação por dirigir embriagado, ele precisa de uma motorista para transportá-lo para onde for. Mesmo relutante com o serviço, ele cria um vínculo com a mulher, Misaki (Toko Miura), que o transporta pela cidade em seu Saab vermelho.

    Por isso, o filme se torna uma espécie de road-movie, onde a verdadeira viagem é para dentro de nós mesmos e nossos sentimentos. Neste quesito, é significativo que o maior catalisador emocional para Yûsuke refletir sobre sua vida acabe se tornando justamente Misaki, quando eles progressivamente  compartilham suas histórias, dores e arrependimentos, encontrando o afeto e rendenção um no outro. O protagonista estava tão apegado ao seu passado, que até mesmo conduzir seu carro era de fundamental importância, mas quando ele consegue confrontar e se libertar disso, finalmente encontra sua paz interior.

    Desde o começo, Drive My Car entrelaça a arte com os sentimentos humanos e, no final das contas, existe uma relação metafórica entra a peça que o protagonista participa com suas próprias emoções reprimidas. Diversos elementos utilizados no roteiro formam de fato uma construção psicológica para Yûsuke Kafuku, como o fato dele se preparar seu trabalho ouvindo uma gravação de sua mulher interpretando as falas da peça. No final das contas, ele se voltou para a arte para esquecer seus arrependimentos e dores, e foi ela quem o ajudou a finalmente conseguir mergulhar em si mesmo para descobrir sua redenção e recomeço.

    Vamos olhar para trás em nossa dor. E finalmente, descansaremos
    Como falei anteriormente, Drive My Car é um filme de três horas de duração e muitas pessoas podem não gostar do estilo do filme e achá-lo arrastado demais. Porém, é na lentidão que ele se torna memorável. O diretor Ryûsuke Hamaguchi com o trabalho minuscioso de edição do Azusa Yamazaki, utiliza do ritmo lento para se aprofundar no protagonista, ao mesmo tempo que esse tempo é fundamental para desenvolver a complexidade psicológica conforme ele enfrenta sua dor e aprende a viver com ela. Toda essa construção prolongada faz o público entender os sentimentos Yûsuke Kafuku, se tornando ainda mais impactante. 

    Vale a pena assistir Drive My Car?

    Fazendo sua estreia mundial no Festival de Cannes 2021, Drive My Car concorreu à Palma de Ouro e recebeu três prêmios, incluindo Melhor Roteiro. No Oscar 2022, recebeu indicações em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme Internacional, se tornando o primeiro filme japonês indicado para Melhor Filme. Esse reconhecimento mostra como Drive My Car está rompendo barreiras e evidencia o poder e crescimento do cinema asiático em premiações.

    Drive My Car é um filme contemplativo que encontra sua força na complexidade de seu protagonista, que precisa enfrentar suas próprias dores e sentimentos reprimidos para finalmente encontrar sua liberdade. Mais do que uma história sobre perdas e arrependimentos, acompanhamos ao longo de três horas uma mensagem sobre recomeços e afetos no meio do nosso caminho. Só temos que deixar o sentir nos levar! 

     

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