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    The Eight Mountains
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    The Eight Mountains

    Quão firmes são as suas relações?

    por Aline Pereira

    Algumas relações que construímos ao longo da vida parecem ter a solidez de uma rocha. Às vezes, é difícil explicar exatamente como ou quando esses relacionamentos se tornaram tão inabaláveis porque a construção deles foi tão gradual - e natural - que parece que sempre estiveram lá. E sempre vão estar. Este é o sentimento que nos leva em As Oito Montanhas, filme ambientado na Itália e assinado pelos diretores belgas Felix van Groeningen e Charlotte Vandermeersch, que foi uma das primeiras estreias do Festival de Cannes 2022. Vemos aqui uma história do tipo “devagar, quase parando”, mas em um bom sentido. 

    As Oito Montanhas começa no meio da década de 1980 com a chegada de Pietro (Luca Marinelli), um menino de 11 anos de idade e seus pais, a uma pequena vila nos Alpes Italianos. Vinda da vida atribulada da cidade de Turin, a família tornou o lugar seu principal destino de férias e costuma passar o verão por lá. A vila tem apenas 14 habitantes e uma única criança, Bruno (Alessandro Borghi), com quem Pietro desenvolve uma amizade imediata. A cada temporada, Pietro e Bruno se tornam mais próximos, explorando, juntos, a imensidão das montanhas.  

    O lugar tem um significado completamente oposto para cada um: enquanto Pietro vê as montanhas como uma fuga da vida complicada e solitária que tem na cidade, Bruno está “preso” em uma realidade que, para ele, é igualmente solitária. Uma virada triste na história faz com que os dois se separem: os meninos crescem longe um do outro e o reencontro, quase 20 anos depois e com as diferenças entre eles ainda mais acentuadas, cria para quem está assistindo um clima de tensão. 



    Uma amizade se sustenta tanto tempo “sem manutenção”? É com esta pergunta em mente que As Oito Montanhas dá início a uma história da qual seu público não faz parte. Nos resta sentar e admirar a viagem.  

    As Oito Montanhas é um filme devagar - e isso é bom 

    O filme de 2022 é adaptado da obra literária de mesmo nome, publicada em 2018 pelo prestigiado autor italiano Paolo Cognetti. E mesmo sem saber disso, é impossível não ter a sensação clara de que aquela história veio das páginas. Assistir à As Oito Montanhas é quase como ler (ou ouvir, melhor dizendo) um livro, ao menos em um sentido mais geral. Além de contar com diversos momentos de narração, existe um jogo de câmeras que parece fazer visualmente o que um livro faz com palavras - isto é, a quantidade de tempo, ângulos e detalhes que a filmagem tem sobre as características dos cenários (maravilhosos!) e seus personagens dá aquela mesma sensação da leitura descritiva. 

    Consequentemente, As Oito Montanhas caminha bem, bem lentamente. Pode incomodar quem se entretém mais com conflitos e reviravoltas do que com contemplação de uma história, sobretudo porque há, em muitos momentos, uma provocação de que algo mais drástico está prestes a acontecer, mas não passa de um leve tremor de terras sob uma montanha inabalável - e talvez seja exatamente isso que o filme quer dizer. Ainda assim, é difícil apontar o ritmo lento como um defeito propriamente dito porque não parece uma falha na estrutura, mas sim uma característica altamente trabalhada - se agrada ou não, fica para uma percepção muito pessoal de quem assiste. Para mim, é uma jornada que vale a pena ser vista. 

    A natureza como protagonista 

    Em As Oito Montanhas, as paisagens naturais - especialmente as montanhas, como é de se imaginar pelo título - exercem um papel fundamental e que vai muito além do cenário. Ao intercalar cenas muito abertas e passagens muito fechadas nos personagens, o longa nos faz comparar o tamanho que temos com a imensidão infinita do mundo. Colocar histórias humanas em meio à natureza “crua” é um bom recurso para por estas relações em uma perspectiva também mais “crua”: estando no meio do nada, estes personagens não têm mais no que se apoiar a não ser um no outro, o que os torna muito sinceros. 



    É claro que é possível traçar uma infinidade de metáforas entre as montanhas e a relação dos meninos, tão sólida quanto aquelas estruturas gigantescas, mas que também tem deslizes perigosos, áreas inexploradas e, com o perdão do maior clichê de todos, pedras no caminho. Como parte da natureza, também somos irregulares, imprevisíveis de alguma maneira, mas sólidos e capazes de criar raízes - com lugares, pessoas, ideias, etc. 

    Os primeiros minutos de As Oito Montanhas também já deixam claro a que veio o filme em termos de impacto visual. Os alpes italianos não são um cenário tão comum assim em filmes e a beleza é SURREAL, e impressionante. As cenas têm uma vastidão de perder de vista e de perder também o fôlego: as montanhas e florestas são tão bonitas, quanto intimidadoras. A perspectiva da altura e do desconhecido que habita em meio às rachaduras é de fazer encher os olhos. Nesse cenário, também, Pietro e Bruno representam um encontro entre o tédio da familiaridade e excitação do desconhecimento. O mesmo lugar, perspectivas completamente diferentes. 

    Vale destacar também como a imensidão da natureza, justamente por nos fazer parecer tão pequenos, evoca um sentimento muito forte de solidão. As Oito Montanhas é um filme triste não exatamente pela história daquelas duas pessoas, mas por nos colocar durante mais de duas horas em um confronto direto com nossas fragilidades, com a imprevisibilidade e com muitas incertezas. Cada reencontro entre Bruno e Pietro vem carregado de novos elementos que testam o relacionamento entre eles. Vão conseguir superar desta vez ou não? 

    Filme de amadurecimento 

    Acima de tudo, As Oito Montanhas é um filme de formação, que nos mostra o amadurecimento de seus protagonistas seguindo vidas opostas, apesar da conexão que têm. É fácil nos identificarmos mais com um do que com o outro (o que vai, claro, de uma percepção muito individual) e encontrar os pontos em que somos um pouco dos dois. Vejo Bruno e Pietro como uma divisão entre a vontade de fugir e a vontade de ficar, como o sentimento de solidão visto por lados diferentes e sentido de formas distintas. 



    À medida em que vai avançando, a história nos força a desacelerar cada vez para mais acompanhar seu próprio ritmo até o momento em que a sensação, como mencionei no início, é de estarmos quase parados. Assim como a formação da natureza é lenta, a evolução de Bruno e Pietro também é - precisa ter paciência para andar junto com os dois porque até mesmo a formação dos conflitos é devagar. 

    Assim como boa parte dos filmes que abordam relacionamentos masculinos, sejam românticos, familiares, fraternais, entre outros, o diálogo transparente não é exatamente um ponto muito profundo. Os dois são fruto de meios diferentes, mas que têm em comum um certo cerceamento da expressão dos próprios sentimentos - uma característica muito realista da sociedade em que vivemos, na qual a ideia de masculinidade tenta excluir qualquer vulnerabilidade emocional.  

    Embora consigamos sentir a intensidade na relação entre eles, pouco é dito de forma clara, com todas as letras e é desta pouca comunicação verbal, claro, que vem parte do conflito. Um exige do outro uma compreensão e entendimento silenciosos. Às vezes, isso é o suficiente, mas, às vezes, não - e não há nada mais natural (e da nossa natureza) do que isso. 

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