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    A Fera
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    A Fera

    Dores iguais em espécies diferentes

    por Nathalia Jesus
    Filmes que abordam a relação entre o homem, a natureza e os animais não são novidades na indústria, conforme já vimos em grandes clássicos como Tubarão (1975) e Jurassic Park (1993), ambos dirigidos por Steven Spielberg. Em A Fera, brilhantemente interpretado por Idris Elba, temos altas doses da temática, somadas ao fascínio que o diretor Baltasar Kormákur tem por produções sobre sobrevivência em ambientes de alta periculosidade.

    Em A Fera, acompanhamos o médico Nate Samuels, em uma viagem para a África do Sul com as duas filhas adolescentes, Norah e Mare. Além de visitar um país importante na história da família, o objetivo também é se conectar com a falecida esposa em seu local de origem e resgatar os laços afetados com as jovens garotas.

    Como já anunciado no nome do filme, a viagem dos sonhos se torna um dos maiores pesadelos para a família enlutada quando um leão feroz ataca a todos no vilarejo e no safári após uma expedição de caça ilegal. Sem ninguém para socorrê-los, Nate precisa lutar com as poucas armas que tem e salvar a vida de suas filhas, mesmo que a sua corra o risco de não ser poupada.

    Quem é o verdadeiro inimigo?

    A princípio, A Fera nos apresenta um cenário familiar corrompido pelo luto e as mágoas que envolvem Nate, Norah e Mare. O relacionamento entre Nate e a finada esposa estava instável e a presença de um câncer não deu tempo para que resolvessem suas pendências. Assim, nos vemos imersos em um problema que parece difícil de ser conversado em meio aos ataques do leão.

    Por outro lado, o animal silvestre, ao mesmo tempo em que nos assusta, também levanta questões sobre sua razão de existir e seu comportamento pouco usual — afinal, conforme mencionado pelos profissionais do safári, não é comum que leões ataquem humanos. Assim, enquanto temos empatia por Nate e sua família, fica o sentimento de que os ataques não vieram do nada.



    Facilmente comparável a A Sombra e a Escuridão, de Stephen Hopkins, A Fera é uma produção bem menos ambiciosa, mas conta com uma narrativa quase didática para nos atentarmos a questões ambientais e a nossa relação com animais em seu habitat natural. O personagem do ator sul-africano Sharlto Copley é o ponto de partida para que consideremos o outro lado da história, mesmo em meio à matança e caos.

    Ele interpreta Martin, um dos funcionários do safári que faz o possível para preservar a vida silvestre e, por seus próprios métodos, extinguir a caça ilegal — atividade esta que causou a ira do leão que dá ênfase ao nome do filme. Quando toda a família do animal é morta, ele é o único que sobra e entendemos que o luto é uma devastação emocional que assombra a todos os protagonistas do filme, humanos ou não.

    Em A Fera, nos deparamos com um cenário de grande exposição das belezas naturais da África do Sul, com um paraíso visual que acrescenta valor à fotografia do filme. Já no fim do primeiro ato, as imagens do safári em destruição são autoexplicativas; passam a mensagem de que, uma vez que os animais são afetados, o ambiente ao seu redor é deteriorado na mesma medida.

    Um pai leão

    É muito mais fácil pensar em filmes de valorização materna para celebrar o Dia das Mães, por exemplo, do que encontrar bons exemplos de pais (na vida real e na ficção). Sem entrar no mérito de questões patriarcais e de responsabilidade masculina na paternidade, A Fera estabelece o personagem de Idris Elba como um pilar essencial para o funcionamento de uma família repleta de rachaduras.

    Nate demonstra com atitudes o que falta nas poucas palavras de afeto e é tão altruísta que morreria pelos outros, mas não antes de ter certeza de que as filhas estão em segurança. Sua falta de autocuidado faz com que sejamos confrontados com cenas intensas de ação, de lutas corporais nada inteligentes e embates em que ele é sempre o lado mais fraco. E isso é positivo, porque acrescenta humanidade ao personagem e a frequente sensação de que algo muito ruim acontecerá — mesmo que, no fundo, tenhamos alguma certeza de que protagonistas são sempre safos.



    Nesse ponto, o filme se caracteriza como uma assinatura inegável de Baltasar Kormákur. O diretor tem em seu currículo produções como Sobrevivente (2012), Vidas à Deriva (2018) e Evereste (2015), todas centradas na temática de sobrevivência em ambientes hostis. Sua experiência com tais longa-metragens foi essencial para salpicar em A Fera tudo o que se espera em cenários de insalubridade.

    Idris Elba protagoniza momentos de insuficiência de recursos materiais, além de sentimentos de desgaste físico e emocional, intimamente compartilhados com as filhas interpretadas por Iyana Halley e Leah Jeffries. As jovens atrizes entregam um relacionamento em que a vulnerabilidade passa de uma a outra, revezando na fragilidade quando a outra precisa ser a mais forte. E, assim como o pai luta por elas, as adolescentes também se colocam a frente para defendê-lo.

    E quando falamos sobre tais lutas, não podemos deixar de mencionar a presença do não tão imponente leão, ferido desde o início do filme, e a tensão causada em todos os momentos em que ele se aproxima. Com um CGI convincente — mas, ainda menos perfeccionista do que poderia ter sido —, o animal te faz dar solavancos na poltrona do cinema, devido à sua grandeza em relação a humanos comparativamente tão pequenos.

    Menos é mais!

    A Fera é um daqueles filmes que assistimos em programações como a Tela Quente, na Rede Globo, e não acreditamos que ainda exista tal produção como essa nas telas do cinema, ao invés do streaming. O longa-metragem mexe com os ânimos, mesmo em uma proposta desgastada e nada inovadora, traz um superficial senso de responsabilidade ambiental e nos apresenta a pessoas verdadeiramente humanas.

    Em um cinema repleto de biografias, filmes de super-heróis e remakes, um longa-metragem sem nenhuma grande pretensão ou altas expectativas como A Fera é a sobriedade para quem quer apenas apreciar uma história bonita de sobrevivência, redenção e cura, sem pensar em referências anteriores ou conexões mirabolantes com outros universos e pessoas.
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