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    Holy Spider
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Holy Spider

    Um assassino e uma "missão divina"

    por Aline Pereira

    Uma das estreias de destaque do Festival de Cannes 2022 e que rendeu um prêmio de Melhor Atriz para Zar Amir EbrahimiHoly Spider se apoia em um caso real trágico para escancarar uma cultura machista que dizima uma infinidade de mulheres ao redor do mundo. Em um longa pesado e difícil de assistir, o cineasta iraniano-dinamarquês Ali Abbasi não poupa nenhum detalhe (mesmo) cruel das consequências de uma sociedade em que a desvalorização das mulheres vem de todos os lados - dos mais burocráticos aos mais filosóficos. Difícil mesmo de acompanhar sem deixar o estômago se revirar. 

    Holy Spider se baseia no caso de Saeed Hanaei, homem que assassinou 16 mulheres no Irã entre os anos 2000 e 2001. Fanático religioso, Saeed saía de moto durante as madrugadas raptando prostitutas que encontrava pela rua e as estrangulava até morte, usando seus próprios véus. No longa, acompanhamos esta história sob duas perspectivas: a do próprio assassino e a da jornalista Rahimi (Zar Amir Ebrahimi), que quer escrever um artigo sobre os crimes e acaba se envolvendo profundamente nas investigações - e encontrando uma infinidade de empecilhos. 

    Apesar de seguir uma fórmula bastante hollywoodiana do gênero de investigação (a exemplo de Seven - Os Sete Crimes Capitais ou Zodíaco), Holy Spider subverte expectativas ao apresentar a identidade do assassino logo de cara e nos fazer entrar na vida dele. O principal ponto de tensão aqui é acompanhar o desenrolar da história em suas diversas camadas: distorção dos preceitos religiosos, sexismo, desigualdade social e a negligência declarada do governo são parte da receita para uma aniquilação revoltante de muitas vidas. Holy Spider exige sangue frio do público. 



    Durante o dia, Saeed é um homem que leva uma vida comum e trabalha como operário. Casado e com dois filhos, é considerado um homem de família exemplar: é um bom pai e um marido dedicado. Às noites, longe do olhar de todos, revela toda a sua monstruosidade: para o assassino, a matança de prostitutas é um chamado divino e ele acredita que Allah o convocou para a missão de “limpar a sociedade de mulheres indignas”. Saeed acredita ser um mártir e isso o torna ainda mais perigoso: convicto de que está fazendo o certo, ele não se importa de entregar a própria vida para cumprir seu propósito. Não existe nada capaz de pará-lo. 

    A relação entre o assassino e suas vítimas 

    À medida em que o filme nos mostra o modus operandi de Saeed e a forma como ele aborda primeiramente suas vítimas, vai ficando clara também a relação doentia que ele tem com essas mulheres e o eterno conflito em que se encontra. É possível entender que os crimes são motivados não só pela crença divina, mas por questões profundas e horrivelmente masculinas. Saeed precisa frear os próprios “pensamentos impuros” e há algo de vingança contra aquelas pessoas que não o fazem. E tudo isso vai surgindo de forma muito detalhada. 

    Incapaz de satisfazer as próprias vontades porque se sente freado socialmente e religiosamente, o homem entra em uma batalha que diz muito sobre a própria frustração, tentação e desejos não realizados. Saeed, inclusive, representa uma parte imensa da sociedade que se apoia em artifícios - morais, religiosos, sociais - como meio de extravasar os próprios preconceitos. O assassino, como o filme nos mostra, não é uma existência isolada, mas incentivada e protegida por uma rede gigante. 



    Holy Spider é um filme de investigação angustiante 

    A jornalista Rahimi conclui logo nos primeiros momentos do filme que descobrir os detalhes sobre o caso de Saeed será muito mais complexo do que ela imaginava, porque precisará atravessar uma diversidade de obstáculos. Não daremos spoilers, é claro, mas a primeira aparição da personagem já adianta a tensão: ao tentar se hospedar em um hotel na cidade, o fato de ela ser uma mulher solteira e sozinha é motivo para ter sua entrada barrada.

    A relação entre Rahimi e as autoridades locais também é um ponto de muita tensão: a jornalista precisa lutar contra um sistema implacável que coloca todo tipo de peso sobre os ombros dela. Mais do que isso (e mais revoltante), que faz vista grossa aos acontecimentos. À medida em que a situação se desenrola, Rahimi entra também nas profundezas de um sistema cheio de erros e que a desfavorece em tudo. 

    A história de Saeed revela aspectos feios da sociedade tão sólidos que se torna um pouco desesperadora e desesperançosa em alguns momentos. Há uma inversão de prioridades no que diz respeito a todo o processo de julgamento do assassino, cujo crime de fato, não está entre os primeiros. Toda a parte judicial do filme é angustiante e traz boas reviravoltas para a história. 



    A protagonista sabe que não está segura em lugar algum e que existem muitas informações que estão sendo escondidas dela. Essa sensação de insegurança e desconfiança é transmitida diretamente para o público, o que torna Holy Spider uma história difícil de tirar os olhos - e isso é complicado. 

    A exploração da tragédia 

    A pluralidade de vozes, histórias e pontos de vista é fundamental na arte, sabemos disso. Mas existe uma linha importante entre levantar discussão e explorar a tragédia como um “show de horrores”. Parece que Holy Spider ultrapassa essa linha em alguns momentos. Fica claro que as imagens chocantes têm o objetivo de tornar a violência mais impactante e mais forte para o público, mas quando pensamos nesta história como um acontecimento real muito recente, torná-la um filme de detetive aos moldes hollywoodianos pode ser um pouco incômodo. O longa transforma uma história que já é trágica em algo ainda mais terrível.

    O abuso do corpo feminino e a violência contra as vítimas retratadas na história são utilizadas, o tempo inteiro, como ferramenta para impressionar e, como a trama também tem seu lado ficcional, fica fácil se esquecer, em alguns momentos, de que aquelas pessoas eram reais. Que Saeed e sua família são reais. Que as famílias das vítimas ainda estão aí. Não é que o tema precise deixar de ser abordado - longe disso -, mas talvez a construção de Holy Spider, da maneira como foi feita, tenha vindo um pouco cedo demais.


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