Devoradores de Estrelas
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Devoradores de Estrelas

Ryan Gosling tem a missão de salvar a Terra e encontra amizade com pedra, que é melhor que muita gente.

por Paulo Ernesto

Devoradores de Estrelas prova mais uma vez que Ryan Gosling é um protagonista capaz de sustentar uma superprodução praticamente sozinho. Após o sucesso de Barbie compartilhado com Margot Robbie e o carisma leve de O Dublê, o ator mergulha em um papel que exige a capacidade de transitar entre o drama, humor e vulnerabilidade, e ele faz isso muito bem.

Aqui, ele interpreta Ryland Grace, um professor que acorda sozinho em uma nave a anos-luz da Terra, sem qualquer memória ou dica de como foi parar ali. Aos poucos, as lembranças retornam e ele relembra que foi recrutado por uma organização mundial para integrar o chamado Projeto Hail Mary, uma missão enviada para descobrir por que o Sol está morrendo. A partir daí, o personagem precisa usar seus conhecimentos científicos para evitar a extinção da humanidade ainda que sua jornada, que se torna tragicamente solitária, tome rumos inesperados.

Ficções científicas recentes no liquidificador

A construção narrativa dialoga diretamente com obras recentes da ficção científica. Há referencias evidentes de Perdido em Marte, outro filme também baseado em obra de Andy Weir e adaptado pros cinemas por Ridley Scott, além da introspecção de Gravidade, dirigido por Alfonso Cuarón, e da densidade científica de Interestelar.

Jonathan Olley / Amazon Content Services LLC

O contato com formas de vida alienígena remete a A Chegada, estrelado por Amy Adams, especialmente na forma como a comunicação se torna peça-chave da narrativa. Ainda assim, Devoradores de Estrelas evita soar somente como um compilado de referências ao equilibra-las com uma identidade própria, mais leve e bem-humorada.

Das animações para um live-action grandioso

Dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, conhecidos por animações como Uma Aventura Lego e Tá Chovendo Hambúrguer, o longa marca a estreia da dupla em um live-action de grande orçamento. E o resultado acaba demonstrando uma maturidade surpreendente para se lidar com uma grande estrutura conseguindo construir um espetáculo visual muito baseado em emoções.

A adaptação do livro Devoradores de Estrelas de Andy Weir, expande a obra original ao incluir novas camadas narrativas, especialmente nas decisões do protagonista e no impacto de suas descobertas para a Terra. Ao mesmo tempo, preserva a essência do autor com uma ficção científica baseada em conceitos plausíveis, mas acessíveis.

O roteiro encontra um equilíbrio interessante entre explicação científica e entretenimento. Há um didatismo assumido, mas tratado com humor, inclusive com pequenas alfinetadas ao estilo expositivo de Christopher Nolan. Aqui, as explicações surgem de maneira mais orgânica, frequentemente mediadas pela interação entre os personagens que assumem que estão simplificando a explicação e riem da capacidade reduzida de compreensão do colega.

Amazon MGM Studios

Coração de Pedra

O grande diferencial do filme está em Rocky, o extraterrestre que transforma a narrativa. Inicialmente estranho, quase como um fantoche esquisito feito de pedra, o personagem rapidamente ganha profundidade emocional e características bem humanas.

Mesmo sem linguagem convencional, Rocky desenvolve uma comunicação única com Ryland, auxiliada por um sistema criado pelo protagonista. Sua “voz” sintetizada remete ao imaginário de Stephen Hawking, e curiosamente inclui até opções dubladas, como uma participação inesperada de Meryl Streep.

A relação entre os dois é o cerne e alma do filme. Mais do que uma parceria funcional, trata-se de uma amizade construída aos poucos, que permite explorar temas como empatia, altruísmo e conexão. Ao mesmo tempo, o longa propõe um contraste interessante: enquanto humanos demonstram falhas, traição, egoísmo, distanciamento, o ser alienígena revela qualidades profundamente humanas.

A beleza e o tempo

Visualmente, o filme aposta em uma estética estilizada, com movimentos de câmera que reforçam a sensação de desorientação no espaço. A ausência de gravidade é explorada com criatividade, criando rimas visuais e um ritmo dinâmico que mantém o espectador imerso.

Também há momentos pontuais curiosos como uma cena em que a personagem de Sandra Hüller canta Sign of the Times, de Harry Styles, em tom quase cômico, evocando o exagero emocional de clássicos como I Don't Want to Miss a Thing, do Aerosmith, eternizado em Armageddon.

Ainda assim, o filme não é isento de problemas. A estrutura que alterna entre presente e passado, embora importante para desenvolver o protagonista, acaba quebrando o ritmo em alguns momentos. Conforme a narrativa avança, o interesse se concentra cada vez mais na relação entre Ryland e Rocky, tornando essas interrupções menos envolventes.

Jonathan Olley / Amazon Content Services

Impacto na Terra

Com um orçamento altíssimo e forte apelo popular, Devoradores de Estrelas tem conquistado o público de forma expressiva. O filme arrecadou mais de 140 milhões de dólares em seu primeiro fim de semana mundial, demonstrando um alcance acima das expectativas e com previsão de levar muito mais pessoas pras salas de cinema.

A recepção tem sido positiva tanto entre crítica quanto audiência, mas é o público que mais tem abraçado a obra especialmente pela capacidade de emocionar com um conceito aparentemente improvável.

Ao equilibrar ciência, humor e emoção, Devoradores de Estrelas se destaca como uma ficção científica acessível e envolvente. Não é mais um filme cientifico sobre salvar o planeta, mas uma história que encontra sua força na construção de uma amizade profundamente humana.

Com uma performance carismática de Ryan Gosling e uma abordagem criativa do gênero, o longa se firma como um dos destaques do ano e um forte candidato a espaço nas premiações.

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