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    O Homem do Norte
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    O Homem do Norte

    Épico viking ambicioso e realista

    por Bruno Botelho
    Robert Eggers despontou como um dos diretores mais interessantes da atualidade logo em seus primeiros longa-metragens, A Bruxa (2015) e O Farol (2019), duas produções de terror aclamadas e que mostram o diretor com uma assinatura própria no gênero. Para seu próximo projeto, Eggers resolveu se desafiar como cineasta e fugir de sua zona de conforto no horror ao embarcar em O Homem do Norte (2022), com Alexander Skarsgård e Anya Taylor-Joy no elenco, que se trata de um filme de ação e aventura ambicioso, com a promessa de realizar o filme viking mais preciso de todos os tempos. 

    Qual é a história de O Homem do Norte?



    O Homem do Norte segue uma história de vingança e loucura de um príncipe. Se passando no ápice da Landnámsöld, no ano de 914, o príncipe Amleth (Oscar Novak) está prestes atingir maioridade e ocupar o espaço de seu pai, o rei Horvendill (Ethan Hawke), que acaba sendo brutalmente assassinado. Amelth acaba descobrindo que seu tio é o culpado, mas ainda sequestra a mãe de Amleth primeiro, a rainha Gudrún (Nicole Kidman). O menino então jura que um dia voltaria para vingar seu pai e matar seu tio.

    Vinte anos depois, agora Amleth crescido (Alexander Skarsgård), um homem viking que sobrevive ao saquear aldeias eslavas, conhece uma vidente. Ela por sua vez o lembra que chegou a hora de cumprir a promessa que fez há muito tempo atrás: salvar sua mãe, matar o tio e vingar o pai. Ele então parte para uma odisseia em busca do tio para finalmente concluir sua jornada de vingança.

    O roteiro de O Homem do Norte, escrito por Robert Eggers e Sjón, foi baseado principalmente na lenda de Amleth, escrita pelo historiador dinamarquês Saxo Grammaticus, conhecida como a inspiração direta para a criação da clássica peça Hamlet, de William Shakespeare. Desta forma, o filme se concentra em uma saga muito típica dos nórdicos antigos, destacada pelo drama familiar e, claro, uma história de vingança.

    O Homem do Norte recria com autenticidade uma saga viking 



    Mesmo se tratando de sua primeira grande produção até o momento, que custou entre 70 a 90 milhões de dólares, Robert Eggers não perde seu estilo e nem limita sua assinatura em O Homem do Norte, usando esse orçamento para recriar um passado histórico viking de maneira autêntica e ambiciosa.

    O filmes anteriores de Eggers, A Bruxa e O Farol, mostravam sua características de trabalhar com narrativas históricas sempre com atenção aos detalhes e muitas pesquisas, mas ele alcança outro nível em seu novo filme em relação ao trabalho de pesquisa e fidelidade histórica, o que fez o diretor praticamente se tornar um especialista no assunto. O processo de escrita do roteiro envolveu a participação de historiadores e arqueólogos especialistas na cultura viking, para recriar materiais, cenários e costumes.

    Como resultado desse processo criativo, O Homem do Norte é um verdadeiro espetáculo visual, muito por causa da criação de uma ambientação e atmosfera épica, mas ao mesmo tempo, opressora – que é reforçada pela direção de fotografia de Jarin Blaschke, que trabalhou com Eggers em seus dois filmes anteriores, e se destaca pela composição de ambientes naturais e intimidadores. Desta forma, o diretor consegue prender o público com o desconforto, característica que ele trouxe de sua experiência no terror.

    Uma história de vingança e brutalidade que flerta com o misticismo



    Além da autenticidade, o que faz O Homem do Norte ir muito além de uma simples história de vingança, como muitas que acompanhamos no cinema, é o controle de Robert Eggers na direção e sua marca de autoralidade – o que, obviamente, se destaca ainda mais quando ele é um dos roteiristas. Imerso em uma cultura nórdica recriada com perfeição em aspéctos visuais e costumes, Eggers aproveita para estabelecer uma espécie de estudo sobre a humanidade, especialmente o seu ciclo de perpetuação da violência.

    Como o protagonista, Alexander Skarsgård é o destaque do filme interpretando a versão adulta de Amleth. O ator consegue passar perfeitamente o sentimento de ódio internalizado pelo personagem por causa dos acontecimentos de sua infância que o colocam em sua jornada vingativa, assim como a fisicalidade que externaliza esses seus desejos violentos e se mostra necessária para as cenas de ação intensas da produção. 

    Se tratando de um épico viking, o diretor recria as cenas de lutas com a brutalidade e selvageria necessárias para o impacto imediato delas, que ainda por cima são filmadas em plano-sequência, o que exige um forte trabalho de coreografia. Apesar de Eggers nunca ter filmado cenas de ação nessa magnitude, espere por momentos elaborados e que mostram o impactante de cada um dos golpes dados.

    Anya Taylor-Joy é uma das atrizes mais requisitadas da atualidade e começou sua carreira na atuação trabalhando com Robert Eggers em A Bruxa. Retomanda a parceria com o diretor, sua personagem, Olga, aparece como o elemento romântico da trama e, mesmo não sendo a protagonista da produção, ela rouba a cena com um magnetismo necessário para os elementos místicos de O Homem do Norte, assim como os personagens interpretados por Willem Dafoe e Björk. Nestes momentos, o diretor deixa a brutalidade de lado e abraça as visões culturais místicas e crenças no ocultismo, com cenas mais desorientadoras.

    Vale a pena assistir O Homem do Norte?

    O Homem do Norte é o projeto mais ambicioso de Robert Eggers, o que é significativo quando levamos em conta seus trabalhos em A Bruxa e O Farol. O filme conta com cenas brutais e violentas na narrativa de vingança, mas se destaca pela autenticidade e fidelidade na recriação impressionante e detalhista do visual e de costumes vikings, apresentando um épico imersivo e, principalmente, não perdendo sua visão autoral. 

    Mesmo assim, o filme pode desagradar algumas pessoas que estejam procurando por um épico de ação mais convencional por causa de seu lento desenvolvimento, onde se prevalece a ambientação rica em detalhes e, claro, intimista e opressora – mas sem deixar de lado as cenas impactantes e brutais de combates. Os fãs de Robert Eggers podem esperar um trabalho bem diferente de seus anteriores, mas com a mesmo apreço na direção e na criação de detalhes que compõem a narrativa.  

     

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