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    Chorão: Marginal Alado
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Chorão: Marginal Alado

    A voz de uma geração

    por Barbara Demerov
    Se existe alguma metáfora para explicar o quão dedicado e perfeccionista era Chorão, líder da banda Charlie Brown Jr., ela se encontra no skate, esporte amado pelo cantor e compositor. Quando via a chance de realizar uma manobra perfeita na pista, ele não parava até sentir que estava 100% perfeita. E era assim na frente e atrás dos palcos. Como bem salienta o documentário Marginal Alado, o desejo de Chorão em encontrar a perfeição profissional era completamente proporcional ao desgaste físico e mental que encarou em seus últimos anos de vida. O porta-voz de toda uma geração que não encontrava uma linha de pensamento de amplo alcance nada mais era que um indivíduo com falhas e qualidades, que tentava em toda sua busca por perfeição encontrar um equilíbrio.

    Mas equilíbrio nunca foi uma palavra que se encaixou bem no vocabulário do artista. Com o auxílio de inúmeros depoimentos (que vão de Marcello Nova e João Gordo a esposa de Chorão e o filho, seu motorista e um amigo de infância), Marginal Alado é uma obra honesta que não tem medo de dizer abertamente quem era Chorão de fato. Complexo, ele era gentil e preocupado com o bem-estar de quem estava à sua volta - assim como era extremamente agressivo com quem não concordava com seu ponto de vista. Há inúmeras linhas de raciocínio que transpassam pelo documentário, mas justamente por conta de haver tantas passagens marcantes em sua vida desde o início do Charlie Brown Jr., a montagem agitada por vezes não consegue administrar tanta informação - mesmo que este estilo faça sentido quando pensamos na personalidade do protagonista.

    A linha do tempo segue uma narrativa de início, meio e fim bem demarcados, ainda que economize atenção em determinados pontos que renderiam mais conteúdo e questionamento (como a quebra da primeira formação da banda, que é resumida em uma grande briga). A perspectiva de Chorão que nos é imposta através das palavras dos entrevistados passa de herói a vilão num piscar de olhos, mas é extremamente difícil chegar à conclusão de que ele era verdadeiramente uma pessoa maldosa: o grande "x" da questão é que o documentário visa contar a mesma história que os fãs já conhecem, mas com a intenção de mostrá-lo como uma pessoa real, com sentimentos inexatos e uma fúria que era colocada diretamente em sua criação artística.



    No quesito técnico, há algumas irregularidades na captação de som e imagem, o que desnivela o filme esteticamente. São diversas locações com luzes mais baixas ou fortes, ambientes com eco, etc... Mas, felizmente, tais problemas não afetam o modo como a história nos é contada e não priva o filme de crescer à medida que mais fatos são citados. A narrativa é elucidativa e movimentada a ponto de conhecermos Chorão enquanto músico e Chorão enquanto Alexandre Magno; a pessoa da vida real, por vezes ríspida e egocêntrica, conversa com a figura carismática dos palcos, que tinha muito para falar e dava atenção de sobra aos seus fãs. Havia muita pressão que o artista colocava em si mesmo e principalmente nas pessoas de sua equipe, e graças ao conteúdo de vídeos caseiros inseridos o espectador pode ter plena noção de como realmente era trabalhar com alguém como Chorão.

    Marginal Alado tira um pouco do enigma que fora Chorão por contar com tantas pessoas que marcaram sua vida, como a esposa e o próprio Champignon (que cometeu suicídio sete dias após registrar seu depoimento). Mas chega a ser uma pena que Graziela apareça somente no último terço do filme, mesmo sabendo que o foco é o cantor. Há breves passagens contando a história do casal enquanto jovens, ainda em Santos, até chegar nos difíceis momentos de dependência química que o mesmo não conseguiu superar, ocasionando em sua morte.

    Graziela chega num ponto da narrativa onde tudo já soa extremamente melancólico, com Chorão tendo de lidar com uma vida que lutou para conquistar, mas que se tornou pesada demais. Próximo ao fim do documentário, há uma passagem emblemática que é impossível deixar de ser notada: o espectador ouve o mesmo discurso que ele dizia desde o início da carreira (exibido no início do auge do CBJr): "A minha alma é feita de sonhos". O mesmo discurso com ausência de emoção. É ali que vemos o sonho se transformar em fardo. Talvez Chorão se foi a partir desta constatação, quando percebeu que a realidade atropelou a magia de tudo o que viveu.

    Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.
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