Minha conta
    Tick, Tick…Boom!
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    Tick, Tick…Boom!

    Nossas ações vão falar...

    por Katiúscia Vianna
    Até aqueles não apaixonados pelo mundo musical conhecem Rent. Ou, pelo menos, a canção "Seasons of Love" que até chegou a ganhar paródia em The Office. O responsável por tal obra revolucionária foi Jonathan Larson, compositor que faleceu antes mesmo de ver sua grande obra nos palcos da Broadway. Mas antes disso, ele escreveu Tick, Tick... Boom!, uma espécie de peça autobiográfica sobre os dilemas de ser artista, que acaba tocando em outras questões filosóficas. Logo, para falar disso, surge um outro artista que também revolucionou a Broadway: Lin-Manuel Miranda.

    Qual é a história de Tick, Tick... Boom!?



    Criador de Hamilton, Miranda faz sua estreia na direção com a versão cinematográfica de Tick, Tick... Boom!, uma das apostas da Netflix para a próxima temporada de premiações. Numa trama ambientada em 1990, Jonathan Larson (vivido por Andrew Garfield) está prestes a completar 30 anos e sofre a pressão de ainda ser um garçom, enquanto trabalha naquilo que acredita ser a obra-prima da carreira: a peça Superbia.

    Paralelamente, as duas pessoas mais importantes de suas vidas passam por mudanças: sua namorada, Susan (Alexandra Shipp) é uma dançarina habilidosa, mas que deseja deixar Nova York para se transformar em professora. Já seu melhor amigo, Michael (Robin de Jesús), abandonou completamente a vida de ator para ganhar dinheiro num emprego corporativo. Em meio disso tudo, Jon precisa criar a música climax de Superbia, dias antes de sua primeira e aguardada apresentação oficial. 

    Um pequeno contexto para quem não conhece o mundo musical: Lin-Manuel Miranda é um grande fã do trabalho de Jonathan Larson. E isso fica tão claro nesse longa, pois o diretor encontrou uma forma de homenagear o artista através de sua própria obra. Qualquer outro cineasta, simplesmente iria adaptar Tick, Tick... Boom! no estilo da peça, contando a história do trio. Já ele encontrou ali uma oportunidade de usar as próprias palavras de Larson para fazer uma mistura de biografia e ficção.

    Tick, Tick... Boom! é o legado de Jonathan Larson nas telonas



    Vimos algo similar com o trabalho de Dexter Fletcher em Rocketman, onde observamos o mundo a partir dos olhos do artista em questão — no caso, Elton John. Mas aqui, Miranda vai um passo além, colocando o artista para contar sua história. As músicas são sua forma de se expressar e o mundo ao seu redor apenas segue o fluxo criativo de tal mente. No filme, vemos Larson apresentando Tick, Tick... Boom! que, por sua vez, retrata os bastidores de Superbia, cuja criação representa a história do próprio Jonathan. É tudo muito meta, mas dá certo, eu juro.

    A grande sacada de Lin-Manuel Miranda é usar a peça Tick, Tick... Boom! como a base para retratar a vida de Jonathan Larson. As canções ajudam a contar sua jornada (e de Susan e Michael), porém o longa aprofunda o contexto de sua época, onde o compositor se encontrava cercado pela pandemia de AIDS. O bom roteiro de Steven Levenson surge com uma vantagem, pois o trabalho original de Larson é algo elogiado. Já é um passo mais fácil do que sua recente adaptação de Querido Evan Hansen, que conta com uma base mais complicada e polêmica.

    Diante desse contexto de medo e confusão, Larson se sente numa corrida contra o tempo, seja se comparando com a jornada do ídolo, Stephen Sondheim (Bradley Whitford), ou vendo seus amigos morrerem por uma doença sem cura. É como se Jonathan soubesse, de forma sinistra, que ia falecer cedo, tentando aproveitar cada minuto para construir sua arte, mas qual é o preço de criar um legado? E o mais importante: o que fazemos com nosso precioso e curto tempo de vida? Não é a toa que a canção "Louder than Words" fecha o longa com tamanha emoção, pois questiona nossas decisões e fazer algo para mudar para melhor, enquanto ainda podemos. 

    Lin-Manuel Miranda faz sua grande estreia na direção



    Ao longo dessa jornada, Lin-Manuel Miranda faz a transição para a direção de maneira confiante, pois sabe que é um especialista em musicais. O filme acaba se tornando uma carta de amor, não apenas para Larson, mas também para o mundo da Broadway. Somente a performance de "Sunday" já é o suficiente para realizar os sonhos de fãs mais apaixonados, rendendo surtos felizes no público (inclusive na autora que escreve esse texto). Sério, é tipo o Vingadores: Ultimato do mundo teatral, quem acompanha vai entender.

    Mas o melhor é que todo o filme traz esse clima lúdico, porém honesto de tal universo. Para trazer um contexto, a peça original só traz 3 atores, então os papéis são intercalados e, muitas vezes, se sobrepõem. Porém, consegue soluções inteligentes como a bipolar "Therapy". Ele pode fazer números espetaculares, mas também sabe como apenas extrair as melhores performances de seus atores, como acontece em "Come to Your Senses". A escolha de Miranda é perfeita para esse projeto, só que a edição acaba se tornando meio repetitiva, mas nada ofusca o brilho dessa experiência. 

    Andrew Garfield brilha em Tick, Tick... Boom!



    Todo o elenco funciona bem, mas é inegável que o destaque fica com a performance de Andrew Garfield, que se entrega ao papel de Larson. Para começar, já é uma grata surpresa que ele saiba cantar, então é um bônus. (Por favor, parem de escalar atores que não cantam para musicais, obrigada desde já!) Porém, o ator consegue trazer o estilo caótico e energético do compositor, ao mesmo tempo que traduz sua vulnerabilidade. Assim, transita do cômico em "Therapy" até o drama em "Why", carregando o filme com maestria. Já indicado ao Oscar por Até o Último Homem, não seria surpresa nenhuma vê-lo concorrendo novamente em 2022. 

    Fica aqui também um agradecimento para a Netflix, que liberou orçamento para Miranda chamar metade da Broadway para aparecer em personagens coadjuvantes. Particularmente, fiquei bem feliz em ver uns queridinhos meus como MJ Rodriguez e Ben Levi Ross como os amigos de Larson no restaurante. Inclusive, já faz tempo que Robin de Jesús merece um reconhecimento fora dos palcos, então eu ficaria bem contente de vê-lo na disputa em algumas premiações, pois ele também mostra muito carisma e sentimento com seu Michael. 

    No final das contas, até quem não é fã de musicais pode se apaixonar por Tick, Tick... Boom!. Afinal, transcende suas canções e até mesmo a história de Jonathan Larson. O filme mergulha em questões de nossa existência e voltamos pensando com mais clareza. Nele, aprendemos que ações são mais poderosas que palavras, mas espero que as linhas acima te ajudem a dar o primeiro passo para construir um mundo melhor. Seja através da arte, da luta ou, principalmente, do amor. É importante sentir algo.
    Quer ver mais críticas?
    • As últimas críticas do AdoroCinema

    Comentários

    Mostrar comentários
    Back to Top