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    Descendentes 3
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Descendentes 3

    Os muros que separam nações

    por Bruno Carmelo

    É curioso como a franquia Descendentes transformou, ao longo da trilogia, sua discussão moral (ser bom ou ser mau, seguir a herança dos pais ou traçar seu próprio caminho) numa discussão social. Aos poucos, o dilema de Mal (Dove Cameron) e seus amigos envolvia menos a conduta individual do que a proteção da comunidade como um todo: por um lado, a garota possui o conforto da vida em Auradon, por outro lado, se lembra da família e dos amigos deixados na pobre Ilha dos Perdidos. Se fosse feita cinquenta anos atrás, a aventura terminaria com a ascensão social da protagonista, coroada rainha por mérito de sua bondade. Hoje, no entanto, os questionamentos são outros: o principal conflito desta trama se situa na fronteira entre Auradon e a ilha, onde um portal divide os grupos opostos.

     

    O roteiro da Disney nada possui de ingênuo neste aspecto: ao abordar a construção de um muro capaz de proteger a nação mais rica da cobiça dos pobres, o filme evoca diretamente os Estados Unidos de Donald Trump, marcados pelo desejo de isolacionismo e o senso de superioridade em relação aos demais. Descendentes 3 torna-se o projeto mais abertamente político dos três, explorando pela fábula um tema social contemporâneo (não por acaso, introduz-se o subtexto de crianças presas num local isolado, longe dos pais, e sem poderem voltar devido à barreira). Assume-se uma clara postura progressista quando os personagens confirmam que “não dá para viver com medo, o medo não nos protege”, e de que o mal pode vir de qualquer um dos lados. Seria preciso, portanto, se confrontar às diferenças e se enriquecer desta experiência.


     


    Por mais interessante que seja o aspecto discursivo, o terceiro filme traz o roteiro mais fraco da franquia até então. Os ataques da vilã malvada (o que não constitui um pleonasmo neste contexto em que há vilões bondosos) são motivados unicamente pelo ciúme, e não seguem um mecanismo preciso: ora um feitiço rosado faz parte da população dormir, ora outros moradores se transformam em pedra, enquanto um personagem importante é convertido em fera, sem qualquer explicação precisa para tal. Não fica claro porque apenas quatro crianças podem ser levadas a Auradon, e muito menos o fato de serem deixadas sozinhas num casarão durante praticamente toda a aventura. Do mesmo modo, os poderes de Mal são ignorados em horas que pareceriam muito úteis.

     

    Em geral, o projeto deixa de lado a construção dos coadjuvantes para investir em motivos clássicos dos contos de fada: pessoas transformadas em animais ou em idosos, a paralisação de inimigos em pedra como na história de Medusa, o papel dos espelhos etc. A trama expande o universo fabular enquanto diminui as particularidades dos coadjuvantes – Jay (Booboo Stewart) e Carlos (Cameron Boyce) têm pouco a fazer na trama, enquanto as crianças da Ilha dos Perdidos são reduzidas a símbolos e fragilidade e pureza. Esta distribuição se faz presente inclusive nas cenas musicais: Mal e Evie ganham uma grande cena independente cada, enquanto demais cantam apenas quando próximos das meninas. Ao menos, os instantes musicais preservam as coreografias extravagantes, os figurinos assumidamente kitsch e o som ultra mixado por computador, seguindo a linha das produções anteriores.


     


    Enquanto isso, a montagem de Don Brochu interrompe algumas cenas de modo abrupto, introduzindo fades adequados à introdução de intervalos comerciais, porém prejudiciais à fluidez da narrativa. Além disso, diante de boas atrizes como Dove Cameron e China Anne McClain, a perversidade estereotipada de Sarah Jeffery resulta muito menos eficiente, especialmente por se tratar de uma personagem com tempo de tela considerável. Mesmo assim, percebe-se a vontade saudável de inovar na fantasia (vide a inesperada coreografia das armaduras) e de abrir a franquia a rumos distintos, nos quais a separação de classes sociais seria abolida. Por fim, Descendentes 3 se mostra uma produção particularmente bem resolvida em sua leitura do mundo atual, porém mais descuidada no acabamento cinematográfico. Sabe-se, no entanto, que estas questões podem ser irrelevantes ao público-alvo, que encontrará os preceitos básicos responsáveis pelo sucesso das histórias anteriores.

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