Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    Pássaros de Verão
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    Pássaros de Verão

    A fórmula da máfia

    por Bruno Carmelo

    Como nascem as máfias? Embora o cinema esteja acostumado a retratar a ascensão de um grupo mafioso em relação a outros grupos, ou a introdução de um novato dentro de um esquema estabelecido, são raras as investigações sobre o surgimento de núcleos mafiosos em lugares onde esta forma de poder não existia. De que maneira se organiza um primeiro grupo paramilitar, uma milícia? Quais são as condições necessárias para estabelecer esta organização política e social que suprime as fronteiras entre o público e o privado? Os diretores Cristina GallegoCiro Guerra efetuam esta análise através da ascensão de uma família no mundo do narcotráfico, dentro da hermética comunidade Wayúu, concentrada entre a Colômbia e a Venezuela. Letreiros iniciais lembram que a ficção remete a fatos dos anos 1960 a 1980.

     

    Para os cineastas, esta organização nasce do aprofundamento das hierarquias, tanto aquela da família quanto a da religião e a do próprio capitalismo. O filme se abre com uma série de rituais de passagem à fase adulta de Zaida (Natalia Reyes), além do cortejo de Rapayet (José Acosta), que termina sua dança sussurrando no ouvido da moça: “Você vai ser minha mulher”. A câmera efetua sua própria coreografia para acompanhar esta espécie de duelo diante dos familiares, com a mulher perseguindo o homem e, então, sendo perseguida por ele. Não existem explicações sobre o papel específico destes movimentos: o projeto jamais se interessa pelo aspecto antropológico daquela comunidade, apenas seu funcionamento sociológico e seu impressionante potencial estético – os enquadramentos obtidos durante a dança, com planos subjetivos dele e dela, são deslumbrantes.


     


    Passadas as introduções dos personagens principais, compreendemos os códigos de honra: os presentes que o homem entregar à família da noiva, as palavras que deve dizer aos sogros, as cerimônias previstas para homenagear a memória dos mortos. Os Wayúu repudiam a todo custo o modo de vida dos “alijunas”, habitantes locais de origem europeia, recusando-se a falar em espanhol e agir como eles. No entanto, quando a venda de maconha a turistas começa a se tornar um negócio lucrativo para Rapayet, outros códigos mais importantes se impõem. Os anciãos não toleram a morte, mas não se pode deixar passar a traição de um comerciante inimigo, precisando eliminá-lo. A palavra de um mensageiro é considerada sagrada, mas quando ela interfere nos lucros, a retaliação se torna obrigatória. O roteiro navega habilmente pela noção de uma moral negociável entre o Deus espiritual e o Deus dinheiro.

     

    Aos poucos, Pássaros de Verão se metamorfoseia do drama social ao faroeste sangrento sobre facções distintas em busca de poder. O projeto trabalha de maneira excepcional a passagem do tempo, orquestrando as elipses através de cinco “cantos”, compondo uma tragédia rumo à desintegração do afeto, das tradições e do senso de comunidade. O filme pode ser lido enquanto fábula exemplar sobre a cobiça, abrindo mão do intimismo em prol de um tom cada vez mais grave, épico, global. Rapeyet e Zaida são engolidos por uma estrutura que iniciaram, mas que se torna muito maior do que eles. A violência sugerida inicialmente (do poder do homem sobre a mulher, da superioridade wayúu em relação aos alijunas) explode numa catarse inevitável. Os imperativos de enriquecimento, de masculinidade, de honra e de dominação (ironicamente, de um povo historicamente dominado) constituem um coquetel condenado à guerra.

     

    O impressionante mérito desta narrativa se encontra na capacidade de unir a epopeia fictícia a um discurso sociopolítico profundo e uma construção estética impressionante. A direção de fotografia extrai o melhor da captação em 35mm, do formato scope e das discretas movimentações de câmera, valorizando tanto os personagens quanto a força dos espaços. Cada enquadramento soa minuciosamente pensado e iluminado, em conjunção com a montagem contemplativa, mas bem ritmada, e um trabalho de direção de arte que jamais confunde a riqueza cultural dos wayúu com uma forma de exotismo. O olhar dos diretores assume uma postura próxima, onisciente (como convém às fábulas), porém atenta e muito respeitosa, desprovida de julgamentos. A narrativa povoada por personagens fortes (que incluem a sogra de Rapayet, o tio deste, o mandante do grupo rival) se equilibra num conjunto de regras que valem para todos.


     


    No final, as pessoas se equivalem, se substituem, porque a estrutura torna-se autorreprodutiva. A morte por honra, afinal, só motiva uma nova morte do lado oposto, e assim por diante. Enquanto tantas narrativas de máfia se tornam individualistas (elegendo um protagonista exemplar, responsável por espelhar os abusos de poder dos demais), este filme prefere o formato da tapeçaria que acompanha a todos. O verdadeiro protagonista seria o mecanismo do poder, e não os indivíduos responsáveis por sua manutenção. Lançado em 2019, este projeto estabelece um diálogo muito frutífero com o brasileiro Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Ambos os filmes apostam no faroeste, situado num recorte de temporalidade fluida, para representar a desconstrução social contemporânea.

     

    Além disso, os dois partem da descrição social atenta para chegar à inevitável carnificina, transformando seu gênero fílmico numa estrutura dividida em capítulos, propondo a união dos moradores locais contra uma ameaça externa. Ambos apontam a barbárie como deriva lógica do capitalismo desregulado, e vislumbram na revolução armada a única forma de destruir um sistema para iniciar outro. Vale ressaltar que nenhum deles aponta soluções fáceis, e tampouco se perde em utopias: trata-se de filmes amargos nos quais o pessimismo jamais se confunde com conformismo. São projetos concebidos cuja relação com o real se revela menos prescritiva do que evocativa: pode-se ler Pássaros de Verão e Bacurau de muitas maneiras, aplicáveis a diferentes contextos e nações. Esta atmosfera hipnótica remete à função essencial do cinema de perturbar não no sentido de refutar uma visão de mundo, mas de dar um passo atrás e examinar os elementos que constituíram essa percepção. Ao se interessarem mais pela história de um conceito do que a história de um personagem, tornam-se filmes ambiciosos e fascinantes.

    Quer ver mais críticas?
    • As últimas críticas do AdoroCinema

    Comentários

    Mostrar comentários
    Back to Top