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    De Carona para o Amor
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    De Carona para o Amor

    A redenção de um mau caráter

    por Bruno Carmelo

    Jocelyn passou a vida inteira mentindo. Este homem rico e entediado sabe que nunca será preso, então finge carregar drogas num aeroporto, apenas por diversão. Ele tem a certeza de não ser processado ou incomodado, então assedia mulheres e se diverte em enterros de desconhecidos. Este é o auge do privilégio masculino, branco e burguês: na falta de perigos reais, Jocelyn simula riscos imaginários. Até um dia que a carreira de mitômano chega a outro patamar, quando deve se passar por cadeirante na intenção de seduzir uma bela enfermeira. O plano parece dar certo, de modo que ele sustenta a farsa. Mas até quando manterá a ficção?


    De Carona Para o Amor pretende falar sobre deficiências reais (paraplegia, tetraplegia, cegueira, surdez) através de um homem válido e saudável. Não é desta vez que veremos o cinema de vocação comercial colocar reais deficientes em cena: os protagonistas são o falso cadeirante Jocelyn e a real cadeirante Florence. Eles são encarnados por atores plenamente saudáveis, e famosos na França. Apesar da representatividade tímida – que consiste em defender a alteridade sem lhe dar voz – o projeto pelo menos trata dos deficientes fictícios com respeito, evitando extrair comicidade de suas condições. O filme foge tanto à piedade quanto ao deboche.


     


    Outro aspecto positivo se encontra nas críticas às pessoas válidas, devido à dificuldade de lidarem com deficientes físicos. Os olhares de compaixão, o desdém e a ignorância em geral são bem retratados pelo roteiro, que conta com a ajuda de dois excelentes coadjuvantes: o médico Max (Gérard Darmon), dotado de amplos conhecimentos sobre as limitações e potencialidades dos deficientes, e a tola secretária Marie (Elsa Zylberstein, hilária), que pronuncia um sem-número de ofensas involuntárias enquanto ostenta um sorriso no rosto. É uma pena esta crônica chegue à conclusão que “o verdadeiro deficiente é Jocelyn, por não saber amar”, efetuando uma comparação questionável entre o mau caráter do protagonista e as limitações físicas de Florence - como se ambos fossem "defeitos" capazes de serem corrigidos, ou melhorados com um pouco de força de vontade.

     

    O principal incômodo suscitado pela narrativa provém da jornada de purificação do detestável herói. Ao se encontrar com indivíduos que enfrentam reais dificuldades na vida, ele se humaniza, passa a se importar com os outros, e pede desculpas pelas grosserias. Embora traga um romance funcional, graças a dois atores desenvoltos, o projeto volta a explorar a posição social de Jocelyn (na cena do carro) e seu privilégio masculino (na cena do caminhão) para desculpar o herói por seus atos, rumo à conclusão. Sim, ele foi hipócrita, insensível, misógino, mentiroso, traidor. Mas no fundo existia um bom coração, então podemos esquecer todas essas pequenas falhas, certo? Afinal, nada mais sedutor do que um homem que busca a sua amada a bordo de um carro vermelho de luxo...


     


    A comédia romântica termina por trabalhar com dois pesos, duas medidas. Para que a mulher deficiente seja percebida como atraente, ela precisa ser campeã profissional de tênis em cadeira de rodas, tocar violino em orquestras internacionais e dedilhar canções ao piano. Já o homem não precisa possuir talento algum: ele se torna irresistível por sua posição social. A atriz dedicou meses se preparando a todos estes aspectos, e terminou sendo filmada de modo fetichista – vide as inúmeras cenas de seios e bundas. Enquanto isso, o homem manteve sua aparência comum. Algum pesquisador de cinema deveria investigar a onda de atores franceses famosos que dirigem a si mesmos nos papéis principais. Seus personagens cometem algumas falhas de caráter, mas se revelam irresistíveis às mulheres mais jovens ao redor – caso de Monsieur & Madame Adelman, Romance à FrancesaImprevistos de uma Noite em Paris e De Carona Para o Amor. Talvez Jocelyn, e o próprio Franck Dubosc, se surpreendam ao descobrirem que são menos irresistíveis do que pensavam.

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