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    Ela Disse, Ele Disse
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Ela Disse, Ele Disse

    Adolescentes sendo adolescentes

    por Sarah Lyra
    É desafiador falar de Ela Disse, Ele Disse sem levar em consideração um fator estritamente subjetivo, que, seguramente, funciona como sustento para a história: o carisma. Não fosse pela dinâmica entre os atores e a característica do longa em promover um encantamento diante dos dramas colegiais postos em cena, a produção dirigida por Cláudia Castro não teria o mesmo impacto. Talvez por conta disso, um embate enquanto espectador se faz presente: há uma inclinação de se relevar as lacunas do projeto, ainda que existam algumas problemáticas a serem apontadas.

    A adaptação da obra literária de Thalita Rebouças abre mão de uma trama pautada em pontos de virada para inserir de maneira mais plana algumas adversidades da interação social entre adolescentes. Portanto, o primeiro dia de escola da protagonista, Rosa (Duda Matte), e de seu interesse romântico, Léo (Marcus Bessa), ganha destaque não só por apresentar os personagens, mas também por ditar o tom e a estética da narrativa. Nesse momento, vemos em tela uma série de artes, hashtags e setas elucidando os estereótipos de cada personagem e suas associações. Júlia (Maísa Silva) é a popular, mas burra; seu namorado é o jogador de futebol encrenqueiro, que reafirma sua posição com práticas de bullying; e a professora de português, Fátima (Bianca Andrade), se apresenta como “a fofa” do corpo docente, figura compreensiva e liberal, que contrasta com o conservadorismo e rigidez da diretora Madalena (Maria Clara Gueiros).

    Assim, o filme se mostra surpreendentemente consciente da utilização de estereótipos para contar sua história. O problema é que essa conscientização não leva a lugares mais criativos. Os estereótipos são apontados unicamente para serem reforçados, em uma caracterização que bebe muito da fonte dos filmes de high school norte-americanos. Note como o quarto de Rosa, os ambientes escolares e até mesmo o baile de formatura são pensados especificamente para lembrar a representação hollywoodiana do convívio escolar.



    Com a ausência quase constante de uma trama que guie a narrativa, acompanhamos a jornada cotidiana dos personagens em uma passagem de tempo que é ilustrada pelo crescente mural de fotos da protagonista. Em um primeiro momento vazia, a parede do quarto que serve de fundo para as colagens começa a ganhar cada vez mais elementos, destacando também o estado de espírito de sua dona, que cuidadosamente manuseia os retratos e insere personalizações com adesivos, fitas coloridas e anotações carinhosas.

    Na segunda metade da projeção, Ela Disse, Ele Disse passa a ganhar contornos narrativos mais definidos. Com as relações e ambientação já estabelecidas, o roteiro de Tati Ingrid Adão e Thalita Rebouças se dá mais liberdade para explorar as inquietações da protagonista, que sonha com o primeiro beijo. A partir desse ponto, o filme só cresce, principalmente durante e após a elaboração e montagem de um vídeo para impedir a expulsão de dois estudantes, que, além da importante mensagem para o público-alvo da obra, consegue adotar um ritmo mais consistente no filme. A reviravolta envolvendo Madalena, embora pobre enquanto trama, diverte — a cena da repercussão de uma decisão da diretora, com a participação de Ana Maria Braga, é uma das mais engraçadas do longa.



    Em termos de linguagem, a inserção de elementos da web, como interfaces de aplicativos de celular e filtros de instagram, dão um tom mais contemporâneo à história. Já a quebra da quarta parede, embora repetitiva, ganha força nas situações em que a protagonista demonstra para o espectador a intenção de agir de uma forma, mas, em seguida, se contradiz e faz o exato oposto. Mesmo com tropeços, Ela Disse, Ele Disse certamente se mostra bem intencionado, se dispondo a propaga uma bem-vinda mensagem de tolerância, inclusão e aceitação, em tempos que esses valores, mais do nunca, merecem ser lembrados.
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