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    Depois a Louca Sou Eu
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Depois a Louca Sou Eu

    De perto ninguém é normal

    por Barbara Demerov

    Há quem diz que ansiedade é frescura, algo que pode ser contornado facilmente no dia a dia. Basta respirar, basta pensar positivo... Mas é evidente que não é bem dessa forma que a condição se manifesta. O novo filme de Julia Rezende se propõe a explorar toda a angústia e tormento que acompanham a ansiedade de forma a deixar bem claro que ela não acontece por escolha, mas sim por uma soma de inúmeros atributos que circundam uma vida.

    Débora Falabella é quem dá vida à protagonista que evidencia toda essa questão, e a atriz entrega ao espectador uma interpretação digna de proporcionar sentimentos incômodos em praticamente todas as cenas. A ansiedade em pensar numa viagem, em conhecer uma pessoa nova e deixá-la entrar em sua vida ou simplesmente em se dar bem com a mãe: tudo isso está presente em Depois a Louca Sou Eu num misto desagradavelmente magnético, que sabe dosar a comédia até o ponto certo de deixar o drama realmente sério entrar.

    Tal dosagem é importante aqui, pois Dani, personagem de Falabella, é uma jovem adulta que sofre com uma doença desde criança e nunca escolheu lidar com isso. Ao mesmo tempo, escolhe se tratar com remédios fortes sem uma administração responsável, o que é o propulsor para a trama engatar numa espécie de filme-exemplo sobre como lidar com a ansiedade. O que pode ajudar uma pessoa de fato? Conversar com alguém da família, se abrir com um possível namorado ou trabalhar incessantemente? A protagonista faz tudo isso ao mesmo tempo, o que gera uma dinâmica narrativa bem frenética, ainda que consistente.

    A narração em off acompanha o espectador quase que incessantemente, o que dá certa liberdade a Falabella gradualmente exceder o limite da inquietação - que já começa de forma ensurdecedora. Rezende acompanha com êxito a movimentação física e mental de sua protagonista, mergulhando esteticamente em um universo particular que é posto em tela com bastante autenticidade. Sua característica como diretora está bem impressa especialmente nas cenas que exteriorizam seus ataques de ansiedade - como na sequência em plena rua após o trabalho (e que depois ganha uma breve animação que mostra como tudo poderia ser suportado num mundo ideal). Este é um bom exemplo de como o toque feminino na direção pode dar mais precisão ao que precisa ser contado através de uma personagem frágil, mas ao mesmo tempo corajosa por enfrentar seus medos.

    Depois a Louca Sou Eu possui muitas características da comédia romântica que recaem em clichês do gênero, como o namoro que vai e vem e a escolha pela carreira acima de tudo - além de outros fatores que acontecem rápido demais apenas para construir mudanças de rumo. Contudo, é na relação entre mãe e filha que o filme ganha seu caráter realístico: no fim das contas, o filme fala sobre uma filha que ainda não saiu debaixo das asas da mãe, e vice-versa. É de uma sensibilidade marcante o fato da história se manter sempre focada nas raízes da protagonista, pois é somente neste lugar simbólico que ela poderá se soltar de suas amarras. Com ou sem ansiedade, o importante para Dani é saber administrar tudo o que possui dentro de si. A vida continua com nossos defeitos e qualidades, afinal.

    Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.

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