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    Nerve - Um Jogo Sem Regras
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Nerve - Um Jogo Sem Regras

    Você decide

    por Francisco Russo
    Imagine um jogo onde, logo ao entrar, você precise escolher entre ser um jogador ou um observador. No primeiro caso, executa tarefas ordenadas por alguém, desconhecido. No segundo, não apenas observa as façanhas realizadas por outros como também tem em mãos o poder de decidir a vida deles - não sem antes depositar diariamente um certo valor, o preço a ser pago pela passividade auto-imposta. É com este dinheiro que os jogadores são pagos a cada tarefa bem-sucedida, gerando uma economia auto-sustentável onde muitos mandam (e pagam) e poucos realizam (e recebem bem).

    Nerve - Um Jogo Sem Regras - FotoO lado ideológico por trás do jogo online Nerve é, de longe, o que há de mais interessante neste thriller adolescente - ainda mais em plena era do Pokémon Go, cuja devoção pode ser facilmente comparada à vista no longa-metragem. Há nele um lado meio Big Brother, onde todos observam e são observados a todo momento, o que desperta não apenas o voyeurismo mas também a perversão por trás do que se quer ver o outro fazendo. Este aspecto, explorado em filmes como O Sobrevivente e Jogos Vorazes, aqui é mais insinuado do que propriamente exibido. Por mais que os jogadores sejam desafiados a cumprirem tarefas perigosas, em momento algum o filme mergulha fundo no quão cruel e cínico tal poder é capaz de se tornar. É como se houvesse um certo limite, auto-imposto pelo roteiro escrito por Jessica Sharzer, o que delimita bastante o potencial a ser atingido. Ainda mais quando, no terço final, Nerve provoca uma reviravolta de forma a execrar tudo o que exaltava até então, justificando tamanha mudança com diálogos bem moralistas.

    Apesar disto, há questões bem interessantes levantadas pela simples existência do tal jogo online: a consentida perda da privacidade online, a obsessão pela fama a todo custo, a cessão do livre arbítrio a completos desconhecidos e o vale-tudo por dinheiro são algumas delas. Entretanto, Nerve não está interessado em trabalhá-las a fundo. O objetivo do filme é apenas se apropriar de tais conceitos para, explorando uma ambientação bem próxima à de seu público-alvo, contar uma história tradicional que até traz certas ousadias, mas sempre sob controle.

    Nerve - Um Jogo Sem Regras - FotoPara provocar tal identificação, o filme assume uma estética envolvendo elementos visuais e narrativos típicos de celulares e da internet. A edição ágil e a trilha sonora frenética e onipresente complementam o jeito multitarefa de ser, tornando Nerve um produto claramente voltado para os jovens. Até mesmo os personagens e as relações existentes entre eles replicam arquétipos bem conhecidos: a garota tímida que precisa se soltar (Emma Roberts), a amiga descolada e vaidosa (Emily Meade), o jovem destemido de passado obscuro (Dave Franco), o nerd apaixonado que não se declara (Miles Heizer)... Se é fácil saber o que acontecerá, o que prende alguma atenção é o modo como as tarefas se desenvolvem aliada à fama crescente e repentina, e como isto afeta os personagens principais. Isto até o terço final, quando tudo desanda de vez.

    Se o jogo online Nerve desperta variados questionamentos, por outro lado tudo que o cerca é tratado com um desleixo impressionante. A começar pela personagem de Juliette Lewis, mãe de Vee (Emma Roberts), completamente perdida e até mesmo dispensável na trama como um todo. A subtrama envolvendo a Dark Web, os "segredos obscuros da internet", é de uma fragilidade impressionante, não apenas pelo lado underground retratado mas por sua própria atuação no desfecho. Isto sem falar nos inúmeros facilitadores de roteiro, impulsionados pela conectividade total pregada pelo roteiro e no desconhecimento da quantidade de observadores existentes.

    Por mais que traga elementos atraentes e contemporâneos, especialmente em relação à entrega consciente a uma competição virtual que substitua a vida real, Nerve peca na forma como eles são desenvolvidos. A necessidade de vilanizar algo, ao invés de trabalhar o lado psicológico dos envolvidos, não só apequena o potencial do material trabalhado como o afasta do mundo real, ao claramente optar por uma lição de moral embutida. Para um filme que a todo instante exalta o underground, soa como um tiro no pé.
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